A Porta Aberta A Baba da Casa Azul · Capítulo 4 de 4
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A Porta Aberta

A investigação encontrou arquivos suficientes para derrubar Helena antes mesmo do enterro de Clarice ser reaberto. Havia laudos falsos, contas escondidas, gravações e um histórico de sedativos comprados em nome de pacientes mortos. Tomás e Nina foram levados para a avó materna, uma mulher que chegou à delegacia tremendo de raiva e culpa, trazendo casacos pequenos e documentos antigos. Júlia prestou depoimento por horas. Repetiu detalhes, entregou os cadernos, mostrou as fotos. Ninguém perguntou por que ela descera ao porão. Talvez porque toda pessoa naquela sala soubesse que algumas portas pedem testemunha antes de aceitar descanso.

Duas semanas depois, Júlia voltou à Casa Azul para buscar sua bolsa, esquecida na primeira noite. O imóvel estava lacrado, com fita amarela na entrada e janelas cobertas por poeira. Ela entrou acompanhada de um policial, ainda assim sentiu que a casa a reconhecia. No quarto das crianças, encontrou o carrinho vermelho sobre a cama arrumada. Dentro dele havia uma fotografia nova, impossível, tirada no jardim dos fundos. Clarice aparecia de costas, ao lado de Tomás e Nina, todos olhando para a velha mangueira. No verso, uma frase escrita com letra infantil agradecia por ter aberto a porta certa.

Júlia deixou a foto na delegacia e recusou entrevistas. Usou parte do dinheiro adiantado por Helena para pagar o aluguel e o restante para comprar colchão novo, fechadura nova e uma chaleira que assobiava alto. Às vezes, durante a madrugada, acordava certa de ter ouvido três pancadas na parede. Levantava, acendia a luz e encontrava silêncio comum, o tipo de silêncio que pertence aos vivos. Tomás mandou uma carta meses depois, dizendo que Nina parara de cantar no escuro. No rodapé havia um desenho simples. Uma casa azul com todas as janelas abertas. Na porta, uma menina sorria com olhos inteiros.

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