A Festa do Cartorio
O noivado virou festa de assinatura porque Agenor convenceu Dona Célia a formalizar uma união estável antes do casamento. Bia descobriu o documento ao mexer na bolsa da mãe em busca de remédio para azia, ato moralmente discutível e juridicamente salvador. Havia cláusulas estranhas, cessão de administração do apartamento e uma autorização para movimentar conta conjunta. Caio leu tudo na cozinha, ainda com avental de churrasco, e assobiou baixo. Disse que o dentista não era amador. Bia sentiu raiva da própria demora. A mãe, no quintal, ria com parentes que nunca apareciam para trocar lâmpada, apenas para comer carne de graça.
Caio propôs uma encenação. Bia recusou por princípio, aceitou por desespero e passou a tarde organizando o espetáculo doméstico mais constrangedor da vida adulta. Na hora do brinde, Caio fingiu receber ligação de um advogado da família das azeitonas. Falou alto sobre patrimônio, união estável, golpes matrimoniais e um tio preso em Sorocaba por vender sítio de outro. Os convidados começaram a prestar atenção. Dona Célia franziu a testa. Agenor tentou interromper. Bia então entregou à mãe uma cópia do documento marcado com caneta vermelha. Pela primeira vez em semanas, Célia olhou para o dentista sem romance disponível.
A discussão foi pública, barulhenta e recheada de frases que vizinho nenhum merecia perder. Agenor chamou Bia de filha controladora, Caio de palhaço profissional e Dona Célia de ingênua, erro final. Célia levantou com a calma perigosa de professora aposentada, retirou o anel do dedo e jogou dentro da tigela de farofa. Disse que ingênua ela podia até ter sido, porém burra era gentileza que não oferecia a homem de camisa apertada. A família aplaudiu porque família adora escândalo quando não precisa pagar advogado. Bia chorou escondida atrás da geladeira. Caio a encontrou ali, entregou um guardanapo e, pela primeira vez, nenhum dos dois soube fazer piada.