A Banca Trinta e Sete A Herdeira do Mercado Central · Capítulo 1 de 4
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A Banca Trinta e Sete

Luísa voltou ao Mercado Central numa segunda de chuva, usando sapato caro demais para chão molhado e carregando a chave da banca trinta e sete dentro da bolsa. A avó morrera havia quinze dias, deixando panelas, dívidas pequenas e uma carta que pedia a ela para não vender o ponto. Luísa trabalhava havia anos em restaurante de hotel, longe do cheiro de peixe fresco, banana madura e café passado em coador velho. Achava que voltar seria resolver papéis, fechar caixa e entregar as chaves ao administrador. Bastaram dez minutos ali para entender que a banca guardava gente demais dentro dela.

A primeira pessoa a reclamar de sua presença foi Vicente Maia, dono da banca de queijos ao lado, antigo namorado de adolescência e homem que envelhecera com uma irritante competência estética. Ele perguntou se ela vinha salvar ou sepultar o lugar. Luísa respondeu que vinha cumprir inventário, o que parecia resposta adulta até ouvir a própria frieza batendo nos azulejos. Vicente contou que uma construtora comprava pontos por valores baixos, pressionando comerciantes cansados com notificações falsas. A avó de Luísa liderava resistência antes de morrer. Luísa quis rir da palavra resistência, porém encontrou no balcão um caderno com nomes, datas e pagamentos suspeitos.

Na última página, a avó escrevera que a ata de fundação do mercado sumira do arquivo municipal e que, sem ela, os permissionários perderiam direito de permanência. Havia também uma anotação sobre Armando, administrador do prédio, homem cordial que usava gravata curta e tratava comerciante antigo com paciência de cobrador. Luísa procurou Armando na sala superior. Ele lamentou a morte da avó com frases prontas e ofereceu ajuda para vender a banca antes que o mercado entrasse em reforma. Quando ela recusou, o sorriso dele baixou pouco. Na saída, Luísa viu Vicente esperando perto da escada. Ele disse que a avó dela nunca anotava nome sem motivo.

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