Receita de Guerra
Luísa decidiu abrir a banca por uma semana, apenas para avaliar estoque, clientela e tamanho do problema. Disse isso a si mesma com seriedade de chef acostumada a comando, embora a verdade fosse menos nobre. Ela queria ouvir as histórias que surgiam junto com os pedidos. Dona Nair, da banca de ervas, contou que a avó recebera ameaça por telefone. Jonas, o peixeiro, mostrou um boleto de taxa inexistente. Um rapaz da limpeza entregou a Luísa uma folha arrancada do arquivo, encontrada atrás do freezer comunitário. A folha trazia assinatura do bisavô dela e um selo antigo da prefeitura.
Vicente apareceu na hora do almoço trazendo pão quente, queijo curado e uma memória que Luísa teria preferido deixar guardada. Eles comeram em pé, atrás do balcão, enquanto fregueses perguntavam se o feijão tropeiro da avó voltaria. Vicente dizia que sim antes que Luísa pudesse negar. Ela se irritou, depois cozinhou por raiva, que ainda era forma eficiente de trabalho. À tarde, a panela grande atraiu fila. Gente que não comprava ali havia anos voltou para provar, comentar a morte da avó, falar mal de Armando e deixar pequenas pistas. Uma senhora jurou ter visto o administrador queimando caixas do arquivo na madrugada anterior.
Luísa e Vicente entraram no depósito velho depois do fechamento. Havia cinza recente numa lata de tinta, pedaços de capa dura e um carimbo partido. Entre prateleiras, Luísa encontrou uma lata de biscoito com fotografias da inauguração do mercado. Numa delas, Armando jovem aparecia ao lado do pai, que fora contador da associação. Vicente reconheceu outro rosto na imagem, o advogado da construtora. A ligação deixava de ser boato. Quando ouviram passos no corredor, Vicente puxou Luísa para trás das caixas de cebola. Ficaram próximos demais, cercados por cheiro forte e perigo ridículo. Ela prendeu o riso. Ele sussurrou que aquilo resumia bem a relação dos dois.