Mesa Posta A Herdeira do Mercado Central · Capítulo 4 de 4
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Mesa Posta

Os trinta dias seguintes transformaram o mercado em assunto de cidade. A cozinha coletiva servia almoço a preço justo, recebia idosos, estudantes e trabalhadores dos escritórios próximos. Luísa cozinhava, Vicente cuidava da fila, Dona Nair distribuía chá para quem chorava no caixa e Jonas dava entrevista sempre que via câmera. A imprensa encontrou a história da ata sumida, e um arquivista aposentado apareceu com uma cópia guardada em casa, porque a avó de Luísa pedira duplicata anos antes. O documento provava que os pontos tinham proteção permanente, salvo abandono formal, que nunca ocorrera.

Armando foi afastado após a prefeitura abrir investigação. A construtora fingiu surpresa, depois recuou em silêncio. Comerciantes que venderam sob pressão começaram a pedir revisão dos contratos. Luísa recebeu proposta para voltar ao hotel com aumento, cargo maior e cozinha sem goteira. Guardou o e-mail por dois dias, tentando sentir vontade. No terceiro, respondeu recusando. A decisão assustou menos do que esperava. Na mesma tarde, trocou a placa da banca. Em vez do nome da avó apenas em memória, colocou os dois nomes juntos, porque herança também podia ser trabalho assumido, não relíquia guardada para visita de domingo.

Na reinauguração da banca, a fila dobrou a curva do corredor. Vicente chegou cedo com queijo, flores simples e uma camisa limpa que Dona Nair avaliou com aprovação ruidosa. Luísa serviu o feijão tropeiro da avó com pequenos ajustes seus, aceitando enfim que respeito não exigia repetição exata. Ao fim do dia, ela e Vicente sentaram no chão atrás do balcão, dividindo o último prato. Ele perguntou se ela ficaria mesmo. Luísa olhou o mercado aceso, as bancas abertas, a foto da avó presa perto do caixa e a chave trinta e sete pendurada no pescoço. Disse que ficaria enquanto houvesse mesa para pôr e briga justa para comprar.

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