A Assembleia
A assembleia dos comerciantes aconteceu no salão dos fundos, com cadeiras de plástico, café amargo e microfone que falhava nos momentos certos para aumentar a gritaria. Armando abriu a reunião anunciando a reforma inevitável e a generosidade da construtora. Luísa pediu a palavra com o caderno da avó em mãos. Leu nomes, datas e taxas cobradas sem base legal. Mostrou a folha com selo da prefeitura, as fotos antigas e o vínculo entre Armando e o advogado comprador. Alguns comerciantes aplaudiram. Outros olharam para o chão, já cansados de brigar com documento, aluguel, filho desempregado e medo de perder renda.
Armando tentou pintar Luísa como herdeira ausente, alguém que chegara no fim para brincar de heroína antes de voltar ao restaurante chique. A acusação acertou porque tinha pedaço de verdade. Luísa respirou, olhou para Vicente e decidiu não se defender com pose. Admitiu que foi embora, que deixou a avó carregar problemas sozinha e que não podia consertar anos numa reunião. Depois colocou sobre a mesa a proposta prática. Abririam a banca trinta e sete como cozinha coletiva por trinta dias, reuniriam movimento, imprensa local e documentos para barrar a venda. Quem quisesse entrar teria nome na ação. Quem não quisesse, teria comida sem cobrança.
A resposta veio primeiro de Dona Nair, depois de Jonas, depois de vendedores que Luísa mal conhecia. O salão foi ganhando vozes. Armando saiu antes do fim, vermelho, falando ao telefone. Vicente acompanhou Luísa até a banca depois da reunião. Disse que a avó teria gostado da parte da comida grátis e criticado a falta de pimenta. Luísa riu, cansada. Ele tocou sua mão com cuidado, dando tempo para recusa. Ela não recusou. O beijo aconteceu atrás do balcão, entre caixas de tomate e cheiro de coentro, sem promessa grande. Foi breve, adulto, carregado de passado e uma vontade cautelosa de testar outro começo.