A Arcádia e a Inconfidência - bloco 02 A Arcádia e a Inconfidência · Capítulo 2 de 6
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A Arcádia e a Inconfidência - bloco 02

carnal da Reforma que ia inaugurar as ricas vitórias do indi- vidualismo capitalista. Contra a Avfklürung, reagem os reis lusos e suas privile- giadas e broncas morgadias. Nero possuía Portugal matérias- primas ou condições artesanais que dessem no clima do laissez- faàre a primeira cultura burguesa. Esta sairia das minas e das manufaturas da Saxônia e ao Lancashire para formar e enri- quecer as potências do pano, do ferro e do carvão. Da era da w^mifan caberia aos lusitanos apenas a bússola, o mosquetão de Caramuru e a força de Tiraaentes.

D. João V encheu de coros e de músicas a Patriarcal. Con- trata verdadeiros baüets de prelados, cônegos, acólitos e mestres de cerimônia. Com isso cultiva a miséria fatalista do povo. Sobre ele depõe Frederico II: "Seus prazeres são funções sacerdotais, suas construções conventos, seus exércitos feitos de frades e suas amantes abadessas". Uma canção popular julga-o:

Nós tivemos cinco reis Todos chamados Joões Os quatro valem milhões O quinto nem cinco réis

É o rei "brasileiro". Paga à Santa Sé quatrocentos milhões de cruzados para obter o título de Fidelàsímo. E implanta o Àbsolutismo, deixando de convocar as cortes. Para que dar con- tas ao povo, se as dá a Deus? Ê o "tempo das trevas e da ignorância" no dizer de Cunha Brochado. D. Francisco Manoel ae Melo já louvava os portu- gueses por se manterem "sempre receosos de toda perigosa es- peculação, cujo exercício aceito aos homens pela novidade, vai levar o entendimento a uns altos d'onde de ordinário se precipita". O jesuíta vacila da sua primitiva pureza. É outro, não o do fundador, o espírito da Ordem, afirma o insuspeito Calóge-

ras que continuaremos a citar. "A sociedade de Jesus entre-

r u-se então ao comércio, à indústria, aos negócios bancários", iludido o voto de pobreza e sucedem-se os Superiores siba- ritas e frouxos. "O ensino anquilosou-se nas formas antigas". E anima a Universidade aquela "acrobada no vácuo" que ca- racteriza a baixa Escolástica. Avulta o analfabetismo do clero, que parece servir de teatro a D. João V. O fausto do Reino baseia-se sempre na opressão fiscal do Brasil colônia eleita. Diz Caio Prado Júnior: A ignorância, a rotina, a incapacidade de organização nesta sodedade caóti- ca que se instalara nas minas e cuja constituição não fora con- dicionada por outro critério que dar quintos ao rei esbanjador e à sua corte de parasitas e nos restos satisfazer o apetite imo- derado de aventureiros, davam-se a mão para completar o de- sastre". Normapo afirma que as finanças coloniais foram um mis- tério. Não havia sistema fiscal. Havia o saque contra o qual já protestava a voz gigaptesca de Vieira. Em 1725 a Coroa exige, como mínimo de arrecadação, 100 arrobas anuais de ouro, res- ponsabilizando as Câmaras. A diferença que houver será co- roada por "derrama". Entre os moradores, conforme as suas posses. Se for maior a soma arrecadada ficará para a Coroa. Portugal se entregara k capdosa dlada do mútuo favor alfan- degário entre vinhos do Douro e tecidos ingleses (Methuen — 1703). E procura recuperar-se economicamente através dos seus governadores meirizmos e "deputados para as minas de ouro*'. Eschwege e Calógeras dão minuciosas contas respecti- vamente no Plutus Brasiliensis e nas Minas do Brasil do que foi o escorchamento legal da colônia. A ausência de técnica jun- ta-se a de qualquer sistema protetor da produção. Os veios mal explorados esgotam-se. Como a contribuição fiscal desceu de 50%, da metade do século XVIII para o fim, ascende-se na Metrópole o sonho da Derrama. Os portugueses querem co- brar os atrasados. Sebastião José de Carvalho inutilmente lutara, através de Companhias e Monopólios, contra a Inglaterra imperialista. Há sempre quem defenda o tratado de Methuen que, de outro lado foi considerado ruinoso para os interesses ingleses por Adam Smith. Agora D. Maria I não quer somente a Derrama.

Legisla o aniquilamento de todo progresso possível para o Brasil. A era aa máquina nos chega através de um alvará, ci- tado na efeméride de 5 de janeiro de 1785 por Xavier da Veá- a, no qual se determina que sejam abolidas com exceção das § e algodão para os escravos, todas as fábricas e manufaturas da Colônia. Essa caminhada terrorista ia culminar no drama da In- confidência Mineira. Todos os seus vexames e castigos não sal- variam, porém, Portugal. Invertem-se os papéis com a vinda de D. João VI para o Rio, que a Inglaterra exigia para ter os nossos portos livres e o seu comércio direto conosco. O Abso- lutismo católico-monárquico conduzira a nação ao seu epitáfio industrial que é pronunciado na Câmara dos Pares: "Se não prosperavam as fábricas com direitos protetores de 50 a 200 por cento, não sabia como tal país podia ser fabricante" ex- clama o deputado Silva Carvalho. Enquanto que num eco da Inconfidência D. Pedro I escreveu: Queriam que os brasi- leiros pagassem até o ar que respiravam!" Ao findar o século XVIII o Reino se entrega completa- mente à Inglaterra. £ a direção tomada pelo caminho de Cromwell a Methuen. Muitos dizem excelente o convênio de 1703, porque valorizou o Alto Douro. Fialho d,Almeida con- clui: "O tratado foi bom porque podia ter sido muito pior". Ficou a Portugal uma vocação de cais, no sebastianismo e na saudade, depois da amputação colonial. E ao Brasil o vaticínio político e cultural da Inconfidência. A literatura segue a curva do declínio luso. À era camonia- na sucede-se a liquidação rápida do poder criador. Imita-se Gêngora até que o prestígio do século de Luís XIV invade tu- do. O que vai prevalecer é o "bom-gosto" francelho. Em nome dele, um senhor Valadares de Souza, com a palmatória de Ho* rádo na mão e guiado pelo "gênio poético" de Boileau, in- veste contra o próprio Camões. Segundo ele, o autor

O despotismo luso produz o seu clima. Nele viceja a "ele- vada literatura da Arcâdia. Para ser mantida, d a irá termi- nar recorrendo à polida de Pina Manique que fecha os por- tos e segrega Portugal da Europa pelo espaço de quarenta anos. Como fizera Ribeiro Sanches, Filinto Elísio emigra para a França. Rafael Bluteau fora encerrado por dez anos no con- vento de Alcobaça. £ tal o pavor que se apossa do literato em incidir, mesmo por descuido, em qualquer atitude que afete a ordem estabeledda, que, para produzir versos inócuos, oculta- se sob predosos e idílicos pseudônimos. São todos pastores gregos. Almeno Sincero, Elpino Nonacriense. O poeta não passa de "um ente miserável que se admite à mesa da cria- dagem das casas fidalgas, sempre pronto a pedir esmola em verso, metrificando sobre todos os sucessos que interessam a realeza e a aristocracia, enfim, uma continuação dos bobos dos palácios feudais" — diz Teófilo Braga. Culmina este estado de indigência oficial em Nicolau To- lentino que pelo menos é cínico e engraçado:

Lhe mostrem riso os versos E lhe faça dó o autor.

Frei Lucas de Santa Catarina geralmente desastrado na sua crítica, a propósito dos criptogramas usados pelos árcades perguntava: — "Por que Alddo em vez de Manuel Jorge?" £ porque Manuel Jorge, como Antônio José, podia acabar torrado enquanto Alddo geralmente se ajeitava na adulagem e nas almofadas pagas da mediocridade. A Arcâdia suprime a imigração interior que condmira o gongorismo ao pais da magia verbal. Assim, Boileau vem es- tancar os últimos refrões da imaginação lusa, de sua saudade e de seu bárbaro amor. A Mesa Censória da estética é a Arte Poética, traduzida pelo Conde de Ericeira e passada de mão em mão. Basta compararmos dois legítimos produtos de arqui- tetura oposta, a de França e a de Portugal, a geometria da PÍace Vendôme e o debordameno do Terreiro do Paço que o gosto

viajado de Valery Larbaud julga a mais bela praça da Europa, para se ver o absurdo que consistia em trasladar e oferecer à passional criação lusa o leito de Procusto da Arte Poética. A Arcádia são muitas — a dos Generosos, a dos Ocultos, a Lusitana. Mas fazem um bloco só. Ê um compacto fenômeno de atonia intelectual, causado pelo terror absolutista. Um ou outro autêntico sentir de poeta, seja o do cabeleireiro Domin- gos dos Reis Quita ou de Garção, desaparece na disciplina da apatia que todos adotam, atribuindo a "restauração do gosto" a Valadares de Souza que criticava Camões com o pseudôni- mo de Sincero Jerabricense. São cidadãos pacíficos a se cha- mar nas reuniões por apelidos bucólicos, veraneando no Chia- do e dizendo que estão no Monte Ménalo, dormindo com Mel- pômene e Gláucia em vez de cantar os corpos ágeis das vari- nas da Mouraría ou do Tejo. O seu conceito do amor nada tem da castidade aurorai trovadoresca. Antes recende a vido e frasearia. Coloque-se em face da Arcádia o gongorismo que a pre- cedeu e que ela tão encarniçadamente atacou. Uma diferen- ça existe. A poesia gongórica pode ser acusada de "divertimen- to", de jogo culto, conceptualista ou erudito. Mas ela não pac- tua, em geral, com o mandato das tiranias. O poeta se evade, através aos jogos e dos brincos e não é a sentmela inútil do cesarismo. Essa imigração interior traz o mesmo álibi que hon- ra a poesia trovadoresca. Os adeptos de D. Luís de Gôngora não participam, é verdade, das lutas progressistas que se ini- dam com a era da máquina. Mantêm a arte e a poesia distan- tes. Nesse apartamento existe pelo menos uma dignidade — a de não estar o escritor e o artista a soldo da reação e do mando. £ o fenômeno que culminaria mais tarde, no século XIX, quando a "pintura infeliz" de Cézanne e Van Gogh ia abrir as catacumbas do surrealismo e do cubismo, para não pactuar com a burguesia em apogeu, a troco das honras fri- teis dos salões acadêmicos. E mesmo oom o sacrifício das co- modidades materiais. O que fizeram os trovadores e gongoristas não souberam fazer os árcades, perdidos de medo e de complacênda ante o braço descompassado da tirania. O medo daria o tom maçante

e sensaborão das produções poéticas do século XVIII portu- guês. Daria a Arcâdia.

No meio desse bocejo dirigido, que nas tertúlias literárias bem caracteriza a queixa de Manuel ae Figueiredo de que não lhe davam "atenção quando lia os seus papéis", aparecem os futuros Inconfidentes do Brasil. A acusação que pesa sobre eles, de que não deram em seus versos as dimensões de nossa pátria inicial, é tendenciosa. Basta lar os poemas de Gonzaga ou dos dois Alvarenga, a Ode à Vtla Bica e as Cartas Chilenas do oculto Critilo, para se ver como as bases de toda uma nacionalidade literária fo- ram lançadas pelos mártires de Minas Gerais. Não sem razão, Spix e Martius na sua Viagem ao Brasil, aludem ao papel das Liras na formação da nossa literatura própria. Um sopro romântico embala o sentimento amoroso de Gonzaga e de Alvarenga Peixoto e os funestos presságios de Cláudio Manuel da Costa, onde soa prematuro o "mal do sé- culo". Ao Caramuru, ao Uruguay de Basílio de Gama e às des- venturas rimadas de Silva Alvarenga que, por sinal, teve rele- vante papel político na segunda Inconfidência, junte-se a li- nhagem satírica das Cartas Chilenas e do Reino da Estupidez de Mello Franco e José Bonifácio e teremos uma mensagem que dá o metal de nossa poesia. Antes deles, aqui, as vozes nativas de Gregório de Matos e de Manuel Botelho de Olivei- ra haviam falado pela primeira vez. Albert Thibaudet, na sua História da Literatura Francesa Moderna, assinala que nem sempre coincide a época literária com a época política. Verifica-se que Bernardin de Saint Pier- re e Beaumarchais que anunciaram o Romantismo antes do ano de 1789, emudecem depois que a revolução política se pro- cessou, mesmo a ela aderindo. A literatura reacionária e pas- sadista se prolonga por largo espaço de tempo durante as trans- formações sociais da França. Ê num emigrado político, em René de Chateaubriand, que vem estalar a emoção nova anun-

ciada por Jean-Jacques Rousseau. É a "roda que gira mecâní- camente" — elucida Thibaudet. É a força da inércia, a ener- gia adquirida num século de maus hábitos literários. Se isso se produziu na França culta, como ao mesmo fenômeno pode- riam fugir os áicades mineiros regressados de Portugal para uma América de reflexos, abafada pelo cesarismo dos Vice- Reis? Na Metrópole, que influências literárias renovadoras po- deriam ter tido os nossos poetas, estudantes em Coimbra? Ao contrário, sua formação intelectual se processou ainda em ple- no regalo do obscurantismo, para Cláudio, mesmo antes da tardia reforma da Universidade (1772). Ali não só o livre jogo do gongorismo era condenado e repelido. As próprias fontes populares da poesia se estancaram inflexivelmente. O rústico Pina e Mello que ainda ensaia fixar na velha cantiga o falar do povo, é condenado pela Arcádia, em nome do "bom gosto" e da "literatura elevada". Como se manifestam esse gosto e es- sa elevação? Em odes à Imaculada Conceição, em espasmos líricos porque o Infante não quis aceitar uma estátua e mais "estrepitosas bajulações" que, como muito bem acentua Teó- filo Braga, são filhas do espesso canibalismo político do Setc- centos português. Só mesmo a presença da terra brasileira os iria transfor- mar. De submissos fazê-los Inconfidentes. E colocá-los, na sua vida e na sua obra, como um caso novo em face da pre- potência política e da Arcádia.

Expoente dessa época, é o poeta e magistrado português Antônio Diniz da Cruz e Silva, que depois de ter sido compa- nheiro dos futuros Inconfidentes na Universidade de Coimbra e na vida literária em Lisboa, vai ser juiz por largos anos no Brasil. De regresso à Metrópole, volta para julgá-los no pro- cesso iniciado em Vila Rica em 89. Vem então já como mem- bro da Alçada do Rio de Janeiro e como tal assina a sentença de enforcamento de onze dos conjurados entre os quais está Alvarenga Peixoto, que com ele viajou no mesmo navio, em sua

primeira travessia. De sua pena também sai o degredo de To- más Antônio Gonzaga. E é ele quem depois preside em pessoa aos interrogatórios de outro poeta mineiro e seu antigo con- frade, Manuel Inácio da Silva Alvarenga, envolvido em 94, na chamada Inconfidência Carioca, ou seja, a Segunda Inconfi- dência. Quem era Antônio Diniz da Cruz e Silva? Com uma terna humildade aparece ele na vigência da Arcâdia Lusitana, escre- vendo a Teotônio Gomes de Carvalho, a quem manda os seus manuscritos que "tudo riscará se não parecer bem a V Mercê". Ê o autor do Hissope, sátira imitada do Lutrin de Boileau, na qual ridiculariza o clero de Elvas. Com esse feito, do agra- do de Sebastião José de Carvalho, então ministro de D. José I, e com mais um ou outro verso feliz, cedo granjeou um lugar de destaque nas Ietraà de seu tempo. E logo toma posição na Ar- câdia contra o nativista Fina e Mello, acusando-o de "transfor- mar a beleza da Eloqüência" e de seguir a "corrupção de Lo- pe de Vega, Luis de Gôngora e Francisco de Quevedo". Em 1757, estalara um motim no Porto, promovido por ta- verneiros, homens e mulheres, contra a lesão trazida a seu pe- queno comércio pelo monopólio da Companhia de Vinhos do Alto Douro. Fiado numa informação tendenciosa, Pombal re- prime violentamente os protestos de rua. E Diniz consagra em versos a ação do Ministro:

O famoso Carvalho, que do solto vulgo a fúria e licença refreando as desmaiadas artes animando está com seu exemplo

O "solto vulgo" tinham sido vinte e um homens e cinco mulheres que sofreram a pena de morte'diante de seus filhos que eram ao mesmo tempo açoitados e palmatoados e mais quatrocentos infelizes postos em degredo. Pombal exila depois o seu perverso informante, mas Diniz está despachado Juiz de Fora. Ldterariamente Antônio Diniz da Cruz e Silva é julgado um cacete por Camilo Castelo Branco, no seu Curso de Lite- ratura, tirante "O Hissope publicado em volume especial, que

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