A Arcádia e a Inconfidência - bloco 05 A Arcádia e a Inconfidência · Capítulo 5 de 6
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A Arcádia e a Inconfidência - bloco 05

E releia-se o seu depoimento no cárcere. A figura de Al- varenga traz esse tom faceto e eufórico dum renascentista per- dido nos sertões de Minas ou da Justiça Real.

Resta em defesa de Antônio Diniz da Cruz e Silva a su- gestão de graça que dirigiu ao Conde de Rezende, a favor de Silva Alvarenga e dos outros réus da Segunda Inconfidência. A carta que enviou ao Vice-Rei, em 13 de junho de 1797, opina de fato pelo livramento dos presos, cujas culpas se acha- vam "suficientemente purgadas com o dilatado tempo da sua prisão", sendo essas simplesmente as de sustentarem "que o governo da república deve ser preferido ao da Monarquia; que os reis são uns tiranos opressores dos vassalos e outras sempre detestáveis e perigosas, principalmente na conjuntura presente". Em nota, José Ramos Coelho, um dos maiores turibulários de Diniz, refere o seu estado de melancolia nos últimos anos de vidá no Rio de Janeiro. Aliás, há um documento anterior do próprio árcade que faz supor vir às vezes à tona uma senti- mento que parece resultar da sua invejável posição de intelec- tual a serviço do Despotismo. São estes versos:

- Ai triste! O outavo lustre é já passado da minha amarga, descontente vida, sem que nessa carreira tão comprida um só prazer tenha gostado.

Mais tarde, regressando ao Tejo, ele exclama: As graças que em ti via e em ti vejo.

Essa tristeza não tira ao juiz-árcade os prazeres de beber Borgonha e Champagne e de cantar de tenor nas farras com coros em que se metia com o valido de Pombal, Teotônio Go- mes de Carvalho e o genro do Marquês, Morgado de Oliveira, a quem dedicou mesmo depois do martírio do seu íntimo ami- go Garção, um ditirambo que começa' assim:

Do teu áureo palácio a porta abriste De Jove às castas filhas.

Referia-se a uma última sessão da Arcâdia que, como as- sinala Ramos Coelho, já aparece mutilada com a dissidência ocorrida pelo suplício de Garção. Nessa ode, o autor do His- sope não esconde velhos sentimentos quando diz ao fidalgo:

Sobre o vulgo ignorante te elevaste Suas bárbaras vozes desprezaste.

Se na carta de Diniz houve clemência, esse sentimento coincide com aquela assinalada "conjuntura presente" do ano de 97. Estamos no momento em que o jovem General Bonapar- te já é a espada da Revolução -e o condutor daquelas "bárbaras vozes" que o árcade incitava a fidalguia portuguesa a des- prezar. O Chanceler da Relação do Rio de Janeiro, na sua car- ta ao Vice-Rei reflete e sugere: "Ao que acresce que, segundo a crise, em que atualmente se achám os governos públicos da Europa, me parece mais prudente e útil ao serviço ae S. Majes- tade escolher antes o soltar os presos ainda que, contra espe- rança de V. Majestade não estivessem condignamente castiga- dos, do que expô-los remetendo-os com as culpas, a serem apre- sados vetos Franceses, e virem estes ao conhecimento de que os seus abomináveis princípios têm apaixonados nesse continente" Como se vê, já era uma realidade o sonho dos primeiros Inconfidentes. As forças da Revolução e da Liberdade já po- diam, como dizia Tiradentes no seu depoimento sobre a oon- jura "favorecer esse intento" ou aparecerem os "socorros de França" anunciados pelo estudante propagandista Álvares Ma- ciel. Já então não era só nas palavras, mais que nunca pressa- gas de Alvarenga Peixoto, que o Rio de Janeiro aparecia como uma cidade muito florente, que se pretendia rec«lar por so- corros marítimos, que esperava uma barra muito feliz e um por- to muito capaz de os receber". Os tempos eram outros e mesmo no Rio, o segundo-Incon- fidente Jacinto José da Silva sabia que as tropas portuguesas seriam "um almoço para os franceses".

Os tempos eram outros. A Inconfidência de Vila Rica pro- duzira os mais espantosos efeitos na economia ladra da Metró- pole. Uma vez a Derrama suspensa, os povos das Minas se es- quivavam ao pagamento dos dízimos e impostos, certos de que a ameaça de revolta traria sempre o perdão da dívida. O Vis- conde de Barbacena, em vez ae ser premiado pela repressão violenta que praticara, fora severamente admoestado pelo Mi- nistro Martinho de Melo e Castro, que o acusava do "decrésci- mo paralelo das rendas" A conjuração mineira produzira assim os seus resultados. Portugal clamava de um lado espavorido com o Terror que tingira de vermelho a Revolução Francesa. De outro, alarma- do com a cessação da contribuição das Minas para cujo paga- mento os habitantes recalcitravam e cujos veios auríferos se esgotavam mais e mais. Os tempos eram outros. A reação não se apoiava de há muito nos jesuítas, eliminados de todos os países da Europa. Ao contrário as idéias novas animavam já um correspondente do médico jacinto a enviar de Constantinopla piadas contra os "senhores conimbres". É ele, o admirável Manoel José de Moraes e Almeida, que chama os "amigos togados" de "semi- vivos, peruns inchados, cheios do maior despotismo" a que a França sabia tratar depenando bem estes corvos devoradores do régio poder" e ridículos detentores da "barbárie gótica". No Rio, o Chanceler da Relação, Antônio Diniz da Cruz e Silva enfrenta agora pessoalmente o seu colega da Arcádia o poeta Manoel José da Silva Alvarenga não de longe como enfrentara Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga. Este pelo menos, o pobre professor de retórica que acendia no Rio o facho idealista de Vila Rica, havia de pagar. O insuspeito Ramos Coelho declara: "Confessamos que esses fragmentos tirados do próprio processo nos causaram desagradável sensa- ção". O Chanceler se transporta para as marmorras da Fortaleza da Conceição e interroga o réu posto em ferros, por sete vezes. O processo fica nos "mexericos", como diz Rodolfo Garcia. Um dos delatores é o frade que corvejou sobre a forca de Ti- r a dentes.

Duas espécies de autenticidade devem ser apuradas na obra dos Inconfidentes. O que foi escrito por eles e deles não é pois cabe inteiramente à época abastardada e decorre das taras do arcadismo. O que não foi por eles escrito e a eles se atribui. Se a apocrifia embaraça o esclarecimento da obra de Ca- mões, que dizer do que ocorreu com a dos poetas mineiros destroçados, num local apartado e num tempo longínquo, pela mão ignara da reação? Que dizer particularmente aa produção de Gonzaga? Está boje suficentemente esclarecida a questão bibliográ- fica das Liras de Dirceu. Feito à revelia do poeta preso e de- portado para Moçambique, o seu aparecimento é o fruto da exploração editorial, impune naquela época. Que podia fazer o proscrito político infamado e escapo da forca contra a publica- ção dos seus versos na Metrópole carrasca? Em 1792, ano do degredo (23 de maio) timidamente se inicia a publicação (tipografia Nunesiana-Lisboa) dando ape- nas as iniciais do autor, T.A.G, para, logo depois de atingido o seu êxito, afirmar-se num anúncio da reimpressão da obra, pu- blicada em 29 de junho de 1793 na Gazeta de Lisboa-. "Saíram à luz as liras do Dr. Tomás Antônio Gonzaga, cuja obra tem merecido geral aplauso.** Essa edição só contém a primeira parte, e só traz as iniciais do autor, T.A.G., que continuam no rosto das edições subseqüentes. A de 1799 — na Nunesiana, on- de se introduz a segunda parte. A de 1800 — de Aquino Bu- lhões, Lisboa — que introduz a terceira parte. A de 1802 — na Nunesiana; a de 1804 — na Tipografia Lacerdina, Lisboa. Em 1810, pela Impressão Régia, ainda somente com as iniciais T.A.G., aparece no Rio a primeira edição brasileira das liras contendo as três partes. Ja então Gonzaga teria fa- lecido em Moçambique. Numa edição posterior, a de 1811, da Tipografia Lacerdi- na, vem À tona o problema da autenticidade. Numa advertência o editor declara: "Também devemos prevenir o mesmo públi- co que, suposto fosse impresso em Lisboa um folheto figu- rando a terceira parte das obras do mesmo autor, é inteira- mente apócrifo e até feito por pessoa do nosso conhecimento**.

Mais estranho é ter sido aí introduzida uma lira que depõe contra o caráter de Gonzaga (a de n.° 69), bem como serem enxertadas estrofes nas de n.°s 89 e 90. (Edição completa de Rodrigues Lapa.) Só em 1845, a edição Laemmert, Rio de Janeiro, estampa enfim o nome do autor: Marília de Dirceu por Tomás Antônio Gonzaga, O sucesso de Marília desde 1792 é enorme. Somente Ca- mões conta com maior número de edições que Gonzaga;' Se a propósito de Camões, afirma Hernani Cidade, "é possível que ainda hoje ande fora de lírica mais de um poema que lhe pertença e, mais do que possível, é quase certo que se encontre nela incluído mais de um não seja dela", que dizer da obra indefesa de Gonzaga? Ela trazia em si, além da sua- vidade de seus versos, duas atrações — um grande amor e uma grande desgraça. A lenda envolvia o cantor de Marília que além disso, nascido no Porto, oferecia interesse literário maior aos editores portugueses. Ê difícil estabelecer-se a cronologia das Liras. Evidente- mente a primeira parte é pura. É a que integra a primeira edi- ção — da tipografia Nunesiana de Lisboa —, de 1792, de que possuímos um exemplar. Dela constam 33 liras. Nela não se intromete nenhum poema posterior à Inconfidência, e, por isso mesmo, parece-nos razoável a opinião de que é a parte realmente autêntica. Não falta, é verdade, uma intrínseca legi- timidade a certos poemas que aparecem depois, por exemplo, na terceira parte, aquele admirável:

Tu não verás, Marília, cem cativos tirarem o cascalho e a rica terra, ou dos cercos dos rios caudalosos, ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro do pesado esmeril a grossa areia, e á brilharem os granetes de oiro no fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos, queimar as capoeiras inda novas, servir de adubo à terra a fértil cinza, lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes das secas folhas do cheiroso fumo; nem espremer entre as dentadas rodas da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa altos volumes de enredados feitos; ver-me-ás folhear os grandes livros, e decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos, tu me farás gostosa companhia, lendo os fastos da sábia, mestra História, e os cantos da poesia.

Lerás em alta voz, a imagem bela; eu, vendo que lhe dás o justo apreço, gostoso tornarei a ler de novo o cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza, Marflia, não lhe envejes a ventura, que tens quem leve à mais remota idade a tua formosura.

Onde está a Arcâdia nesses versos do Brasil? Na segunda parte das Liras, quer nos parecer que uma mistificação de caráter equívoco intervém para, atribuir a Gonzaga poemas de tom vil e adulão a desmoralizar a Incon- fidência. Não sabemos como poderiam ter eles sido compostos nas escuras marmorras feudais da Ilha das Cobras. A própria alu- são à maneira de escrever é suspeita:

A fumaça, Marília, da candeia

Os versos são às vezes ruins e a sua divulgação, feita so- mente em 99, é mais que descumpliciada do autor.

O Hissope, cuja primeira edição é de 1802, portanto pos- terior à morte de Diniz, ocorrida em 1799, apesar de não ser logo impressa foi uma obra tão divulgada e conhecida, que ob- teve para o magistrado o favor de Pombal e sofreu depois, ao que consta e se debate, cortes, aumentos e correções necessá- rios à posição do mesmo ante a mudança da situação com a morte de D. José I. O nosso Júlio Ribeiro nas Procelárias re- fere o caso ocorrido com a edição de Lecussan Verdier, versão agravada por Teófilo Braga e contestada pelo crítico Ramos Coelho. Por ele se vê quanto era precária a ação do autor sobre a obra clandestina, à qual se podiam acrescentar e tirar versos. De que modo, Gonzaga, no cárcere e na desgraça, impe- diria a intromissão, interessada ou não, de alguém nas suas Liras? Aos comentadores da Inconfidência, que tanta boa-fé têm demonstrado, pareceria tal coisa impossível, pois seria a última das infâmias. Não pode deixar de provocar interesse a elucidação de tu- do isso. A Lira n.° 90 é simplesmente a defesa do magistrado que condenou os Inconfidentes. Quem era esse magistrado? Antônio Diniz da Cruz e Silva? Sua memória ganharia, verifi- cada a autenticidade da mesma.

Apesar dos últimos esclarecimentos, continua Tomás An- tônio Gonzaga a ser um homem pertencendo tanto à lenda co- mo à História. Desgraçado, renascem nele as taras da Arcádia? Ê o poe- ta que quebrou a lira no compromisso de fidelidade à moci- nha inspiradora de Vila Rica? È o homem que andava desvai- rado nas noites de Moçambique? Ê o companheiro fiel da

conspiração, que ninguém acusou, que juridicamente, proces- sualmente só podia ser absolvido e foi mandado para o degre- do com os outros? Foi o seu chefe? É o Inconfidente que da África se interessa pela sorte de seus cúmplices? Ou é apenas um oportunista que achava Tiradentes incômodo e. uma v» z no exílio, casa-se com uma menina rica e prospera indiferente a tudo? Sobre a sua obra pairam as mesmas interrogações. É uma parte dela apócrifa? Quem se intrometeu nas suas Liras? E por que? Seriam autênticos os versos em que o poeta se retrata na prisão, se acovarda e acusa? É ele quem elogia Barbacena?

Diniz era um doente, um solteirão possivelmente crivado de complexos pela escola em que se fez. Suas reações foram espetaculares. E o panegírico ao massacre do Porto. Ê o His- sope — uma sátira no Setecentos português. O hábito de São Bento de Avis. A traição a Pombal decaído. Enfim é o julga- mento implacável das duas conjurações brasileiras. Sua figura se opõe aos nossos Inconfidentes de uma manei- ra mais completa e significativa que a decorrente de suas fun- ções nos fatos jurídicos em que se envolveu. Ele é a Arcâdia. A Escola Mineira é a revolução. Ele é o intelectual a soldo do Poder. Os Inconfidentes são poetas a serviço do progresso hu- mano e do futuro.

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