A Arcádia e a Inconfidência - bloco 03
tem conservado a duradoura vitalidade da crítica dos costumes e da sítira das instituições, apesar da frouxidão prosaica dos versos e de sensível posto que muito desmerecia analogia com o Lutrin de Boileau". Machado de Assis no prefácio de O Almada (Poesias), se bem que seu admirador, refere-se ao plagiário contumaz dos clássicos que ele é. "Não se limitando Diniz à única imitação citada. Muitas faz ele da Iltada, as quais não vi até hoje apon- tadas por ninguém". Entre elas, cita a cena célebre da cerca dos Capuchos. Enfim, Diniz é o poeta dessa época que Alexandre Her- culano chamou de morta por não ter trazido em si "nenhuma idéia progressiva". Escreve numa língua "quaresmal e freirática", para nov utilizarmos da expressão de Filinto Elísio. "É uma certa lín- gua delambida, ininteligível (por muito refinada), despida de todo o termo enérgico, confeitada de frases de conventua! invenção, cujo significado é só claro para os adeptos" (os árcades). De fato, querendo-se saber o que são estes versos de Diniz:
De Tétis deixa o líquido regaço e as luminosas asas da pátria ao novo herói rápida volta e do Ismeno sobre ele o orvalho solta
é preciso que uma nota erudita de Rodrigues Lapa os traduza informando tratar-se d'"o rio de Tebas, pátria de Píndaro, que celebra a glória do Marquês de Pombal". Felizmente o crítico português também elucida que "o gênero não pegou, sendo até ridicularizado pela erudição mitológica, extravagância da linguagem e falsa divisão estrófica". Foi o que adiantou a revolução da Arcádia francelha con- tra o gongorismo. Correia Garção, mestre ineonteste, escreve uma sátira so- bre a imitação dos antigos que evidentemente não visava o seu colega Diniz, mas onde o teimoso amigo dos clássicos cabe inteirinho:
que vá por onde for, há de segui-los que há de furtar-lhes todo quanto dizem e seja bom o mau, isso que importa?
A Garç&o não sobra só o estro, mas também o caráter. Seu destino é bem diferente do de Diniz — morre num cár- cere do Limoeiro. Mas o que mais interessa à nossa tese é este epigrama que Camilo opina visar Diniz:
O roubador do plagiário Quita De frívolos dicursos satisfeito
Escrito por quem? No apogeu da Arcâdia, por Manuel Inácio da Suva Alvarenga, o mesmo que ele vai interrogar mais tarde nos ferros da Fortaleza da Conceição, no Rio de
No final d'O Hissope, Diniz xinga o Portugal daquele tempo de Mnação castrada". Nela se desenvolve um pequeno drama que podaria dar outro Hissope. O poeta-juiz, animado de êxitos, deseja também ser nobre. Para isso, no entanto, pre- cisa de filiação conseqüente e não a tem. Entre as infamações que pesam sobre os homens daquela época, não há somente a aa "origem infecta de mouro ou ju- deu". Existe também a "nódoa de mecânico". — Miserável nação que assim ultraja a dignidade do trabalho — exclama Teófilo Braga. De fato, quem carrega a maldição de ter como ascendente próximo um trabalhador está para sempre isolado das honra- rias da Corte. Depois de quinze anos de vigilantes serviços e correspon- dentes ditirambos ao Poder, Antônio Diniz da Cruz e Silva julga-se no direito de esquecer a sua origem plebéia e obreira, ocultando-a sob o hábito de São Bento de Avis. Requer. Co- meçam então as minuciosas inquirições de sangue, a fim de se
verificar se não vigora contra o pretendente "nódoa de judeu ou de mecânico". No arrastamento que leva o processo por anos e anos, o poeta cortesão espera sempre. Prova-se que o pai foi carpin- teiro e o avô operário marítimo, calafate. Mas ele sorri, reve- rencia e insiste. Em 1778, sendo já D. Maria rainha, ei-lo que entra com um requerimento novo onde declara que "das inquirições lhe resultaram alguns impedimentos, mas tão insignificantes que cabe na Real clemência de V. Majestade para ser servido o dispensá-los". Ele se acha então no seu primeiro estágio do Brasil, e bem longe ainda dos sucessos de Vila Rica. Mas a Real clemência permanece surda e muda. Em 79, ei-lo fazen- do consultar a Mesa da Consciência. E o processo pára nessa fase, em 80, com um inútil parecer favorável da mesma Mesa. Dois lustros de empenhos já se passaram sobre o pedido. £ quando Diniz regressa a Portugal. Apesar de não haver, obs- táculo, nenhuma sentença dá provimento à pretensão. Eis, orém, que rebenta em Lisboa a notícia do projetado levante S e Minas. Estamos em 89. Quem são os rebeldes? Pessoas do mais alto conceito intelectual e político. São membros da Ar- cádia Lusitana. São ouvidores. São sacerdotes e bacharéis por Coimbra. No meio deles, agita-se a figura do animoso Tira- dentes, alferes das Gerais, e há mesmo o filho de um Conde de Bobadela. Para enfrentar esse grupo luzido de revolucioná- rios presos, parece não serem suficientes os magistrados co- muns. Uma grande figura das letras e da Real Justiça deverá compor a Alçada e ditar o castigo. Antônio Diniz da Cruz e Silva está de torna-viagem ao Brasil, tendo sido por decreto de 17 de julho de 1790, nomeado Desembargador da Relação do Rio de Janeiro. Em 15 de outubro embarca para exercer a sua sumária missão. Vai, porém, cavaleiro de Aviz. Aos 26 de junho terminara-se fulminantemente o processo, dispensada "a apresentação de quaisquer certidões e folhas corridas que devesse apresentar". £ que, informa Hernani Cidade, apurara-se enfim que o pai alcançara, no Brasil, para onde havia longinquamente emi-
grado e onde morrera, "situação de sargénto-mor de ordenan- ças". De um modo ou de outro, é já "sem nódoa de mecânico" que ele manda enforcar Tiradentes, Contrapõe-se às razões que relegam Diniz para um plano secundário, como medíocre poeta satírico e soporífero imitador dos clássicos, opiniões essas que subscrevem a de Alexandre Herculano sobre a Arcâdia, e pretendem ser nada menos que a de Camilo Castelo Branco e Teófilo Braga, a especial impor- tância que lhe dá justamente o escritor contemporâneo Herna- ni Cidade. Diz essa voz, das mais autorizadas da crítica de língua portuguesa: "O que na sua obra constitui na verdade uma inovação, vago despertar de sensibilidade romântica, é o pequenino arrepio de sua sensibilidade ante os grandiosos aspectos da natureza brasileira, a incipiente comoção em que atenta em singularidade de sua flora e fauna". O romantismo, no entanto, já tivera mesmo em Portugal arrepios de sensibilidade mais sofridos e melhor expressos do que nas pesadas Metamorfoses, de Diniz, onde do Brasil só há os nomes geográficos ou botânicos e as incompreensões do tupi. Romântico sim, pela vida, já era o desgraçado Filinto Ely- seo, que no seu exílio de Paris oferecia a Portugal este soneto*.
Estende o manto, estende, ó noite escura, enluta de horror feio o alegre prado; molda-o bem c'o pesar dum desgraçado, a quem nem feições lembram da ventura.
Nubla as estrelas, céu, que esta amargura em que se agora ceva o meu cuidado, gostará de ver tudo assim trajado da negra cor da minha desventura.
Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares, rebente o mar em vão n ocos rochedos, solte-se o céu em grossas lanças d'água.
Consolar-me só podem já pesares; quero nutrir-me de arriscados medos, quero saciar de mágoa a minha mágoa!
Romântico é o estro da Marquesa de Alorna que dá esta quadra:
Mas se à lira lanço a mão Apagadas esperanças Me apontam cruéis lembranças E choro em vez de cantar
E poetas românticos foram Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Oprimidos e tímidos no ambiente de Lisboa e Coimbra, eles caíram na reverência fastidiosa da Arcádia. Tornaram-se Anteus, restituídos à terra natal. Sentiram o Brasil e o expri- miram numa doçura tão nova que, de fato, só por isso mere- ciam da Metrópole e de seu árcade magistrado a condenação à morte, ao sambenito e ao exílio.
Com Gonzaga estamos compromissados. Ê o romantismo. Ele e seus companheiros de Inconfidência também "traem a fé jurada" aos acentos mortos da velha poesia. Mas não há, como no movimento político, traição alguma. Há adivinhação e destino de um povo que se emancipa e cria a sua vida própria. Muito mais luso é o retorno de um grande poeta, Gonçalves Dias, quando ensaia o medido virtuosismo das Sextilhas de Frei Antão. Os poetas da Escola Mineira não rompem com os cânones da Arcádia, ocupados que estão em libertar o Brasil. A roda de velha estética continua a girar. O seu sentido de revolução tem um primado, o político. O problema expressional não os atinge a ponto de faze-lo legislar. Estamos longe da Batalha do Ernani e da Semana de Arte de 22. Mas o sentimento rebenta
em cada página de Marilia. Não é mais musa alguma ou ninfa que os adulões de Lisboa exaltam nos seus estéreis amplexos. E a doçura de uma menina que ama. A mulher aparece ainda cercada das velhas figurações da Grécia pastoril. E nos destro- ços do Parnaso que surge Marília viva, nas janelaç coloniais de Vila Rica e nas naves do Aleijadinho, em meio à civilização do ouro que o Brasil significa. Gonzaga vai buscar a Namora- da que um século de insipidez e de anemia esqueceu nos tú- mulos de Camões e de Petrarca. £ a namorada que se dirige para ocupar o seu grande lugar na literatura brasileira, que vem andar nos romances de Macedo e de Alencar, vem an- gustiar o ceticismo de Machado e vem produzir os novos "coi- tados d'amor" da nossa alta poesia. Os Inconfidentes indicaram às gerações vindouras do Bra- sil qual o papel do intelectual nas lutas pelo progresso humano. Bastaria o sacrifício que os marcou, pela nossa democrátic" emancipação, para que os árcades de hoje que ousam levantar- se contra a sua memória, tivessem pudor ae tamanha levian- dade. Mas eles constituem a proliferação de Diniz. São os le- guleios implacáveis, os Barbacenas contumazes que se confes- sam sem capacidade de sentir a brasilidade dos cantos mineiros do século XVIII. Como movimento político, a conspiração de Vila Rica é o primeiro marco de uma nacionalidade em sua plena cons- ciência autônoma. Como movimento literário, a Inconfidên- cia representa uma ruptura com a Arcádia, com a sua gasta adulagem, com sua " elWada missão de matar os anseios huma- nos e diminuir toda sublevação. Não foi o algoz gelado, o ár- cade típico, quem primeiro sentiu e cantou o Brasil. For&x Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e os dois Alvarenga, a constelação inicial de nossa independência lite- rária e política.
Uma das frases do prefácio de CromweU talvez decida de todo o destino da poesia depois de Hugo. "Voilà le premier homme, voilà le premier poète". £ todo um programa de hu- nização da poesia que traz o romantismo. Ela andava guinda-
da, lustrosa, comedida nas grühetas da métrica clássica de que um ou outro acento popular (François Villon, La Fontai- ne) tenha dado fuga para parcos respiradouros. Se o cultismo gongórico, o puro jogo do espirito, lhe dera uma evasão in- tima, é com os românticos que se quebram, enfim, as prisões eruditas herdadas do objetivismo quantitativo grego-latino, de que a Arcâdia foi o pálido frigorífico. Humanização, eis o primeiro sinal do romantismo que é também o sinal da lírica mineira. Se nela o verso é árcade, a poesia já e romântica.
Uma questão que, pela sua importância moral e histórica, transcende de qualquer outra é a da autenticidade das vilanias metrificadas que se atribuem a Tomás Antônio Gonzaga, Pa- rece já se ter chegado a uma conclusão a respeito das Cartas Chilenas, e essa é favorável ao poeta de Mamia. Vejo sempre o sarcasmo, nota essencial de Alvarenga Peixoto, nas aventu- ras do Fanfarrão Minésio. E continuo a pensar na colaboração dos três Inconfidentes versejadores. Mesmo em versos líricos, às vezes, eles coincidiam. Mas parece que o problema está resolvido, graças à cultura poética de Manuel Bandeira e ao infatigável zelo crítico de Afonso Arinos de Melo Franco. Por que não se pesquisa e não se resolve o outro? São de Gonzaga os versos torpes que se encontram em suas liras? Se a autenticidade de suas respostas, no processo da Gestapo co- lonial, pode ser posta em duvida, que dizer a respeito das poe- sias publicadas longe dele, condenado ao degredo e sem sua possível intervenção? O clima de romance da Inconfidência Mineira parece per- turbar todas as cabeças, mesmo as mais sadias, e interferir nas informações e nos juízos mais imparciais. Esse clima, com certe- za, nasceu da obscuridade oficial mantida em torno da cons- piração e da Devassa e da distância histórica que dela nos se- para, sem grandes documentos nem estudos. Decorre também dos únicos dois textos que restam, atribuídos a testemunhas ©culares do fato. Ambos aparecem publicados no tomo 44 da
Revista do Instituto Histórico, junto a um curioso incidente ocorrido com Joaquim Norberto de Souza e Silva. São estes: as "Memórias do Êxito que teve a Conjuração de Minas", de au- tor desconhecido e os "Últimos Momentos dos Inconfidentes de 1879", pelo confessor dos mártires, que é, conforme o con- senso gerai, aquele Frei Raimundo de Penaforte que falou na hora da execução de Tiradentes, o qual aparece mais tarde, na Segunda Inconfidência, a carioca, procurando fazer outro sermão de forca para Silva Alvarenga e seus companheiros de asse cí ação literária. Ora, esses dois documentos, além de mal pensados e mal escritos, são de uma dramaticidade pueril muito da época, in- capaz de dar conta da verdade exata e sobretudo da verdado psicológica do momento. Os personagens são títeres dum gran- guignol de remorso, evidentemente dirigido pelo reacionarismo dos autores que não cessam de louvar a Rainha e os poderes constituídos, É só isso que visam ambos os papéis. As autori- dades aparecem numa magnificência exemplar e a execução se passa como num dramalhão português, ora com olhares ar- rependidos para o céu e solilóquios com o crucifixo, ora com ti radas enormes de alguns dos personagens, que só estenografa- das podiam trazer maior autenticidade.. São jorros de filosofia contrita, em torno do acontecimento, sendo a mais curiosa de- las a cena entre os Rezende Costa, pai e filho, como a atribuí- da ao progressista Álvares Maciel, que, segundo o mesnwr fra- de, "era de uma rara instrução; depois de ter freqüentado a Universidade de Coimbra e de ter recebido o grau de bacharel nas Ciências Wturais, viaj"u pela Europa, imitando a Pedro — o Grande — no eneorberto de seus intentos, que eram visi- tar todas as fábricas e oficinas, o que conseguiu, pois alcançou os segredos de muitas e os poria em execução". Eis como o estudante que sonhou em Coimbra a Inconfi- dência, fala, dirigindo-se a Francisco Antônio, no meio da sala. com a cabeça i\ banda e os olhos espantados: — "Adora, ami- go, a Providencia, e segue com fidelidade as suas últimas dis- posições a teu respeito; recorda-te que principiaste a reconhe- cer as tuas principais obrigações de homem e de cristão depois que foste separado do consórcio dos homens! Nem tu sabias persignar; agora já sabes de cor o ofício de Nossa Senhora; e