Pauliceia Desvairada
Inspiração «Onde até na fôrça do verão havia tempestades de ventos c frios de crudélissimo inverno ». FR. LUIS DE SOUSA
São Paulo ! comoção de minha v id a ... Os meus amores são flores feitas de original. . . Arlequinal !.. . Traje de losangos.. . Cinza e ouro Luz e brum a... Forno e inverno m orno... Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... Perfumes do Paris... Arys ! Bofetadas líricas no Trianon. . . Algodoal !.. .
São Paulo ! comoção de minha vida. . . Galicismo a berrar nos desertos da América !
O Trovador
Sentimentos em mim do asperamente dos homens das primeiras eras. . . As primaveras de sarcasmo intermitentemente no meu coração arlequinal. . . Intermitentemente. . . Outras vezes é um doente, um frio na minha alma doente como um longo som redondo Cantahona ! Cantabona ! Dlorom. . .
Sou um tupi tangendo um alaúde
Os Cortejos Monotonias das minhas retinas... Serpentinas de entes frementes a se desenrolar... Todos os sempres das minhas visões! «Bon giorno, caro.»
Horríveis as cidades I Vaidades e mais vaidades... Nada de asas ! Nada de poesia I Nada de alegria ! Oh I os tumultuários das ausências I Paulicea — a grande bocca de mil dentes; c os jorros dentre a lingua trissulca de pús e de mais pús de distinção. . .
Giram homens fracos, baixos, m agros... Serpentinas de entes frementes a se desenrolar. . .
Estes homens de São Paulo, todos iguais e desiguais, quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos, parecem-me uns macacos, uns macacos.
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Escalada
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(Maçonariamente.) — Alcantilaçôes !... Ladeiras sem conto !... Estas cruzes, estas crucificações da honra !... — Não ha ponto final no môrro das ambições. As bebedeiras do vinho dos aplaudires... Champanhações. . . Cospe os fardos !
(São Paulo é trono.)— E as imensidões das escadarias!... — Queres te assentar no pincaro mais alto? Catedral?... — Estas cadeias da virtude !... — Tripinga-te ! (Os empurrões dos braços em segrêdo.) Principiarás escravo, irás a Chico-Rei !
(Ha fita de série no Colombo. “O Empurrão na Escuridão”. Film nacional.) — Adeus lirios do Cubatão para os que andam sozinhos (Sono tre tustune per i ragazzini.) — Estes mil quilos da crença !... — Tripinga-te ! Alcançarás o sólio e o sol sonante ! Cospe os fardos ! Cospe os fardos ! Vê que facilidades as tais asas ?. . . (Toca a banda do Fieramosca; Pa, pa, pa, pum ! Toca a banda da policia: Ta, ra, ta, tchim !) E’s rei ! Olha o rei nú ! Que é dos teus fardos, Hermes Pança ? !
Rua de São Bento
Triângulo.
Ha navios de vela para os meus naufrágios ! E os cantares da uiara rua de São Bento. . .
Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas, as minhas delícias das asfixias da alma ! Ha leilão. Ha feira de carnes brancas. Pobres arrozais ! Pobres brisas sem pelúcias lisas a alisar ! A cainçalha... A Bolsa... As jogatinas...
Não tenho navios de vela para mais naufrágios ! Faltam-me as forças ! Falta-me o ar ! Mas qual ! Não ha siquer um pôrto morto ! «Can you dance the tarantella ?» — «Ach ! ya.» São as Californias duma vida milionária numa cidade arlequinal. . .
0 Clube Comercial. . . A Padaria Espiritual. . . Mas a desilusão dos sombrais amorosos põe m a j o r a t i o n t e m p o r a i r e , 100 % "* !...
Minha Loucura, acalma-te ! Veste o w a t e r - p r o o f dos tambens !
Nem chegarás tão cedo á fábrica de tecidos dos teus êxtases; telefone: Alem, 3991... Entre estas duas ondas plúmbeas de casas plúmbeas, vê, lá nos muito-ao-longes do horisonte, a sua chaminé de céu azul !
O Rebanho
Oh ! minhas alucinações ! Vi os deputados, chapéus altos, sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas, sairem de mãos dadas do Congresso. . . Como um possesso num acesso em meus aplausos aos salvadores do meu estado amado !...
Desciam, inteligentes, de mãos dadas, entre o trepidar dos taxis vascolejantes, a rua Marechal Deodoro...
Oh ! minhas alucinações ! Gomo um possesso num acesso em meus aplausos aos heróis do meu estado amado !...
E as esperanças de ver tudo salvo ! Duas mil reformas, très projectos... Emigram os futuros nocturnos... E verde, verde, verde !... Oh ! minhas alucinações ! Mas os deputados, chapéus altos, mudavam-se pouco a pouco em cabras ! Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas
E vi que os chapéus altos do meu estado amado, com os triângulos de madeira no pescoço, nos verdes esperanças, sob as franjas de oiro da tarde, se punham a pastar rente do palácio do senhor presidente. . . Oh ! minhas alucinações !
Tietê
Era uma vez um rio. . . Porém os Borbas-Gatos dos ultra-nacionais esperia[mente ! Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo as monções da ambição... E as giganteas vitórias ! As embarcações singravam rumo do abismal Desca[m inho... Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar! Ritmos de Brecheret I. . . E a santificação da morte ! Foram-se os ouros !... E o hoje das turmalinas I. . .
Paisagem n. 1
Minha Londres das neblinas finas ! Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas. Ha neve de perfumes no ar. Faz frio, muito fr io ... E a ironia das pernas das costureirinhas parecidas com bailarinas. . . O vento é como uma navalha nas mãos dum espanhol. Arlequinal !.., Ha duas horas queimou Sol. Daqui a duas horas queima Sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos, um tralálá. . . A guarda-civica ! Prisão ! Necessidade a prisão para que haja civilização ? Meu coração sente-se muito triste. . . Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas dialoga um lamento com o vento...
Meu coração sente-se muito alegre ! Este friozinho arrebitado dá uma vontade de sorrir !
E sigo. E vou sentindo, á inquieta alacridade da invernia, como um gôsto de lágrimas na boca