As Enfibraturas do Ipiranga Pauliceia Desvairada · Capítulo 6 de 6
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As Enfibraturas do Ipiranga

As Enfibraturas do Ipiranga Distribuição das vozes:

Os ÜRIENTALISMOS CONVENCIONAIS — (cscritores 6 deiTiais artifices elogiáveis) — Largo, imponente côro afinadissimo de sopranos, contraltos, barítonos, baixos. As Senectudes T remulinas — (milionários e burguezes) — Côro de sopranistas. Os SandapilArios I ndiferentes — (operariado, gente pobre) — Barítonos e baixos. As J uvenilidades Auriverdes — (nós) — Tenores, sempre tenores ! Que o diga Walter von Stolzing ! Min h a L oucur.\ — Soprano ligeiro. Solista.

Acompanhamento de orquestra e banda.

Local de execução : A esplanada do Teatro Municipal. Banda e orquestra colocadas no terraplano que tomba sobre os jardins. São perto de cinco mil instrumentistas dirigidos por m aestros... vindos do estrangeiro. Quando a solista canta ha silêncio orquestral — salvo nos casos propositadainente mencionados. E, mesmo assim, os instrumentos que então resoam, fazem-no a coníragôsto dos maestros. Nos coros dos Orientalismos Convencionais a banda junta-se á orquestra. E’ um t u t t i formidando. Quando cantam as J uvenilidades Auriverdes (ha naturalniente falta de ensaios) muitos instrumentos silenciam. Alguns desafinam. Outros partem as cordas. Só aguentam o r i i b a í o lancinante violinos, flautas, clarins, a batería e mais borés e maracás. Os Orientalismos Convencionais estão nas janelas e terraços do Teatro Municipal. As Senectudes T remulinas disseminaram-se pelas sacadas do Automóvel Clube, da Prefeitura, da Rôtisserie, da Tipografia Weisflog, do Hotel Carlton e mesmo da Livraria Alves, ao longe. Os Sandapilários

líí.lÿ

Indiferíentes berram do Viaducto do Chá. Mas as JuvENiLiDADES AuRivERDES estão em baixo, nos

parques do Anhangabaú, com os pés enterrados no solo, Minha L oucura no meio dêles.

Na Aurora do Novo Dia P relúdio

As caixas anunciam a arraiada. Todos os 550.000 cantores concertam apressadamente as gargantas e tomam fôlego com exagero; enquanto os borés, as trompas, o orgam, cada timbre por sua vez, entre largos silêncios reflexivos, enunciam, sem desenvolvimento, nem harmonização o tema: “Utilius est sæpe et securius quod homo non habeat multas consolationes in hâc vitâ.”

E começa o oratório profano, que teve por nome As E nfibraturas do I piranga

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As JUVENILIDADES AUBIVERDES (pianíssimo)

Nós somos as Jiivenilidades Auriverdes ! As franjadas flâmulas das bananeiras, as esmeraldas das araras, os rubis dos colibris, os lirismos dos sabiás e das jandaias, os abacaxis, as mangas, os cajús almejam localizar-se triunfantemente, na fremente celebração do Universal !... Nós somos as Juvenilidades Auriverdes ! As fôrças vivas do torrão natal, as ignorâncias iluminadas, os novos sóis luscofuscolares entre os sublimes das dedicações !. . . Todos para a fraterna música do Universal ! Nós somos as Juvenilidades Auriverdes !

Os S andapilários I ndiferentes (num estampido preto)

Vá de rumor ! Vá de rumor ! Esta gente não nos deixa mais dormir ! Antes

(a orquestra num crescendo cromático de contrabaixos

Os O rientalismos C onvencionais

í ü)

Somos os Orientalismos Convencionais ! Os alicerces não devem cair mais ! Nada de subidas ou de verticais ! Amamos as chatezas horisontais ! Abatemos perobas de ramos desiguais ! Odiamos as matinadas arlequinais ! Viva a Limpêsa Pública e os hábitos morais ! Somos os Orientalismos Convencionais !

Deve haver Von Iherings para todos os tatus ! Deve haver Vitais Brasis para os urutús ! Mesmo pêso de feijão em todos os tutús ! Só é nobre o passo dos jabirús ! Ha estilos consagrados para Pacaembús ! Que os nossos antepassados foram homens de truz ! Não lhe bastam velas ? Para que mais luz !

Temos nossos coros só no tom de dó ! Para os desafinados doutrina de cipó ! Usamos capas de seda, é só escovar o pó ! Diariamente á mesa temos mocotó ! Per omnia saecula saeciilorum moinhos terão mó ! Annualmente de sobrecasaca, não de paletó, vamos visitar o esfpieleto de nossa grande Avó ! Cdoria aos Iguais ! Um é todos ! Todos são um só ! Somos os Orientalismos Convencionais !

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PAUI.ICEA DESVAIRADA

As JUVENILIDADES AURIVERDES (perturbadas cora o fábordão, recomeçam mais alto, incertas)

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Magia das alvoradas entre magnolias e rosas... Apêlos do estelário visível aos alguens... —- Pão de ícaros sobre a toalha extática do azul ! Oa tuins esperanças das nossas ilusões ! Suaviloquéncias entre as deliquescéncias dos sáfaros, aos raios do maior solar !... Sobracemos as muralhas ! Investe com os cardos ! Rasga-te nos acúleos ! Tomba sobre o chão ! Hão-de vir valquírias para os olhos-fechados ! Anda I Não pares nunca ! Aliena o duvidar e as vascilações perpetuamente !

As S enectudes T remulinas (tempo de minuete)

Quem são êstes homens ? Maiores menores Como é bom ser rico I Maiores menores

Das nossas poltronas Maiores menores olhamos as estátuas Maiores menores do signor Ximenes — o gi’ande escultor ! Só admiramos os célebres e os recomendados também ! Quem tem galeria terá um Bouguereau ! Assinar o Lírico ? Elegância de preceito ! Mas que paulificáncia Maiores menores o Tristão e Isolda ! Maiores menores Preferimos os coros dos Orientalis — mos Convencionais ! Depois os sanchismos

(Ai ! gentes, que bom !) da alla madrugada 110 largo do Paissandù ! Alargar as ruas. . . E as Instituições ? Não pode ! Não pode ! Maiores menores Mas não ha quem diga Maiores menores quem são estes homens que cantam do chão ? (a orquestra súbito emudece, depois duma grande gargalhada de timbales)

M inha L oucura (recitativo e balada)

Dramas da luz do luar no segrêdo das frestas perquirindo as escuridões. . . A traição das mordaças ! E a paixão oriental dissolvida no mel !...

Estas marés da espuma branca e a onipotência intransponivel dos rochedos ! Intransponivelmente ! Oh !... A minha voz tem dedos muito claros que vão roçar nos lábios do Senhor; mas as minhas tranças muito negras emaranharam-se nas raizes do jacarandá... Os cérebros das cascatas marulhantes e o beneficio das manhãs serenas do Brasil ! (grandes glissandos de harpas)

Estas nuvens da tempestade branca e os telhados que não deixam a chuva batisar ! Propositadamente ! Oh ! . . . Os meus olhos têm beijos muito verdes que vão cair ás plantas do Senhor; mas as minhas mãos muito trêmulas apoiaram-se nas faidas do Cubatão. .. Os cérebros das cascatas marulhantes e o benefício das manhãs solenes do Brasil ! (notas longas de trompas)

Estas espigas da colheita branca e os escalrachos roubando a uberdade ! Enredadamente ! Oh !... Os meus joelhos têm quedas muito crentes que vão bater no peito do Senhor ; mas os meus suspiros muito louros entreteceram-se com a rama dos cafèzais...

Os cérebros das cascatas marulhantes e o benefício das manhãs gloriosas do Brasil ! (harpas, trompas, orgão)

As S enectudes T remulinas

(iniciando uma gavota)

Quem é essa mulher ! E’ louca, mas louca pois anda no chão !

As JüVENILIDADES AURIVERDES (num crescendo fantástico)

Odios, invejas, infelicidades !... Crenças sem Deus ! Patriotismos diplomáticos ! Cegar ! Desvalorização das lágrimas lustrais ! Nós não queremos mascaradas ! E ainda menos cordões “Flor-do-Abacate” das superfluidades ! Os tumultos da luz !... As lições dos maiores !... E a integralização da vida no Universal ! As estradas correndo todas para o mesmo final !. E a patria simples, una, intangivelmente partindo para a celebração do Universal ! Ventem nossos desvarios fervorosos ! Fulgurem nossos pensamentos dadivosos ! Clangorem nossas palavras proféticas na grande profecia virginal ! Somos as Juvenilidades Auriverdes ! A passiflora ! o espanto ! a loucura ! o desejo ! Cravos ! mais cravos para nossa cruz !

Os O rientalismos Convencionais

(Tutti. O crescendo é resolvido numa solene marcha fúnebre)

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Para que cravos ? Para que cruzes ? Submetei-vos á metrificação ! A verdadeira luz está nas corporações ! Aos maiores: serrote; aos menores: o salto... E a glorificação das nossas ovações ! As JUVENILIDADES AURIVERDES (num clamor)

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Somos as Juvenilidades Auriverdes ! A passiflora ! o espanto ! a loucura ! o desejo ! Cravos ! mais cravos para nossa cruz ! Os O rientalismos C onvencionais (a tempo)

Para que cravos ? Para que cruzes ? Submetei-vos á poda ! Para que as artes vivam e revivam

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use-se o regime do quartel ! E’ a riqueza ! O nosso anel de matrimónio ! E as fecundidades regulares, reflectidas... E os perenementes da ligação m ensal... As S enectudes T remulinas (aos miados de flautim impotente)

Bravíssimo ! Bem dito ! Sai azar ! Os perenementes da ligação anual ! As JUVENILIDADES AURIVERDES (berrando)

Somos as Juvenilidades Auriverdes ! A passiflora ! o espanto ! a loucura ! o desejo ! Cravos ! mais cravos para nossa cruz ! Os O rientalismos C onvencionais (da capo)

Para que cravos ? Para que cruzes ? Universalizai-vos no senso comum !

Senti sentimentos de vossos pais e avós ! Para as aimas sempres torresmos cerebrais ! E a sesta na rede pelos meios-dias ! Acordar ás seis; deitar ás vinte e meia; e o banho semanal com sabão de cinza, limpando da terra, calmando as erupções... E a dignificação bocejal do mundo sem estações !. .. Primavera, inverno, verão, outono. .. Para que estações ?

As JuVTENILIDADES AURI VERDES (já vociférantes)

Cães ! Piores que cães ! Somos as Juvenilidades Auriverdes ! Vós, burros ! malditos ! cães ! piores que cães !

Os O rientalismos C onvencionais (sempre marcha fúnebre, cada vez mais forte porém)

Para que burros ? Para que cães ? Produtividades regulares. Vivam as maleitas !

Intermitências de polegadas certas ! Nas arquitecturas renascença gálica; na música Verdi; na escultura Fidias; Corot na pintura; nos versos Leconte; na prosa Macedo, D’Annunzio e Bourget ! E na vida enfim, eternamente eterna, concertos de meia á luz do lampeão, valsas de Godard no piano alemão, marido, mulher, as filhas, o noivo. . .

As JUVENILIDADES AURIVERDES (numa grita descompassada)

Malditos ! Boçais ! Cães ! Piores que cães ! Somos as Juvenilidades Aurivcrdes ! A passiflora i. . . Vós, malditos ! boçais !

Os O rientalismos Convencionais .. .o corso aos domingos, o chá no Trianon. . . E a s ...............cidades, a s ................cidades.

a s ............... cidades, a s ................cidades, e mil ............... cidades... (1)

As JuVENILIDADES AURIVERDES Seus borras ! Seus bêbedos ! Infames ! Malditos A plassiflora ! o espanto ! a loucura ! o d. . .

II

Os O rientalismos C onvencionais

Itól lihm

.. .e as perpetuidades das celebridades das nossas vaidades; das antiguidades ás actualidades, ao fim das idades sem desigualdades quem ha-de.. .

(1) Aqui o leitor, si for partidário dos O r ie n t a l ism o s ,

porá nomes de escritores paulistas que aprecia, si das JuVENILIDADES, OS que detesta. Exemplo com meu próprio nome : E as mariocidades. Não existe esse sufixo : quero assim para bater milhor o ritmo.

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V . ú ' ^ Jif r

As JUVENILIDADES AURIVERDES (loucos, sublimes, tombando exaustos)

( A maior pûla^Ta feia que o leitor conhecer. )

Nos somos as Juvenilidades Auriverdes ! A passiflora ! o espanto !... a loucura ! o desejo !... Cravos !... Mais cravos... para... a nossa... Silêncio. Os Orientalismos Convencionais, bem como as Senectudes T hemulinas c os Sandapilários I ndiferentes fugiram e esconderam-se, tapando os ouvidos á grande, á maxima Verdade. A orquestra evaporou-se, espavorida. Os m a e s tr i succumbirain. Caiu a noite, alias; e na solidão da noite das mil estréias as J uvenilidades Auriverdes, tombadas no solo, chorando, chorando o arrependimento do tresvario final.) M inha L oucura (suaveinente entoa a cantiga de adormentar)

Chorai ! Chorai ! Depois dormi ! Venham os descansos vehidosos

vestir os vossos membros !... Descansai ! Ponde os lábios na terra ! Ponde os olhos na terra ! Vossos beijos finais, vossas lágrimas primeiras para a branca fecundação ! Espalhai vossas almas sobre o verde ! Guardai nos mantos de sombra dos manacás os vossos vagalumes interiores ! Inda serão um Sol nos oiros do amanhã ! Cliorai ! Chorai ! Depois dormi !

A mansa noite com seus dedos estelares fechará nossas pálpebras... As vésperas do azul !... As milhores vozes para vosso adormentar I Mas o Cruzeiro do Sul e a saudade dos martírios. . . Ondular do vai-vem 1 Embalar do vai-vem ! Para a restauração o vinho dos nocturnos !... Mas em vinte anos se> abrirão as searas ! Virão os setembros das floradas virginais ! Virão os dezembros do Sol pojando os grânulos ! Virão os fevereiros do café-cereja I Virão os marços das maturações !

Virão os abris dos preparativos festivais ! E nos vinte anos se abrirão as searas ! E virão os maios ! E virão os maios ! Rezas de M aria... Bimbalhadas... Os votivos.. As preces subidas... As graças vertidas... Tereis a cultura da recordação ! Que o Cruzeiro do Sul e a saudade dos martírios plantem-se na tumba da noite em que sonhais,.. Importa ?!... Digo-vos eu nos mansos oh ! Juvenilidades Auriverdes, meus irmãos: Chorai ! Chorai ! Depois dormi ! Venham os descansos veludosos vestir os vossos membros !... Descansai !

Diuturnamente cantareis e tombareis. As rosas. .. As borboletas. . . Os orvalhos... O todo-dia dos imolados sem razão. .. Fechai vossos peitos ! Que a noite venha depor seus cabelos alens nas feridas de ardor dos cutilados ! E enfim no luto em luz, ( Chorai !) das práias sem borrascas, (Chorai !)

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das florestas sem traições de guaranis ' ( Depois dormi !) que vôs sepulte a Paz Invulnerável ! Venham os descansos veludosos vestir os vossos membros. . . Descansai !

(quasi a sorrir, dormindo)

Eu . .. os desertos... os Cains... a maldição. . .

(As JUVENILIDADES AüRIVERDES 6 MiNHA LoUCURA adormecem eternamente surdos; enquanto das janelas de palácios, teatros, tipografias, hotéis escancaradas, mas cegas — cresce uma enorme váia de assovios, zurros, patadas.)

FIM

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