Tristura a Paisagem n. 2
Tristura «Une rose dans les ténèbres»
Profundo. Imundo meu coração. . . Olha o edifício: Matadouros da Continental. Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios.. Minha alma corcunda como a avenida São João... E dizem que os polichinelos são alegres ! Eu nunca em guisos nos meus interiores arlequinais !., Paulicea, minha noiva... Ha matrimónios assim ... Ninguém os assistirá nos jamais !
As permanências de ser um na febre!
Nunca nos encontrámos... Mas ha r e n d e z - v o u s na meia-noite do Armenonville
E tivemos uma filha, uma só. . . Batismos do snr. cura Bruma; agua-benta das garôas monótonas. . . Registei-a no cartório da Consolação. . . Chamei-a Solitude das Plebes. . .
Pobres cabelos cortados da nossa monja
Domingo Missas de chegar tarde, em rendas, e dos olhares acrobáticos. . . Tantos telégrafos sem fio! Santa Cecília regorgita de corpos lavados e de sacrilégios picturais. . . Mas Jesus Cristo nos desertos, mas o sacerdote no “Confiteor”. . . Contrastar! — Futilidade, civilização. . .
Hoje quem joga?... 0 Paulistano. Para o Jardim América das rosas e dos ponta-pés !
Friedenreich fez goal! Corner! Que juiz! Gostar de Bianco? Adoro. Qnal Barto... E o men xará maravilhoso! ... — Futilidade, civilização.. .
Mornamente em gazolinas... Trinta e cinco contos ! Tens dez milreis? vamos ao corso... E filar cigarros a quinzena inteira.. . Ir ao corso é lei. Viste Marilia? E Filis? Que vestido: pele só ! Automóveis fechados... Figuras im óveis... O bocejo do l uxo. .. Enterro. E também as famílias dominicais por atacado, entre os convenientes perenemente... — Futilidade, civilização.
Central. Drama de adultério. A Bertini arranca os cabellos e morre. Fugas... T iros.. . Tom Mix ! Amanhã fita alem ã... de beiços... As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã... As romas de Petrónio. . . E o leito virginal... Tudo azul e branco ! Descansar... Os anjos... Imaculado! As meninas sonham masculinidades. . . — Futilidade, civilização.
O Domador
Alturas da Avenida. Bonde 3. Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira sob o arlequinal do céu oiro-rosa-verde... As sujidades implexas do urbanismo. F i l e t s de manuelino. Calvícies de Pensilvánia. Gritos de goticismo. Na frente o t r a m da irrigação, onde um Sol bruxo se dispersa nuin triunfo persa de esmeraldas, topásios e rubis. Lânguidos boticellis a 1er Henry Bordeaux nas clausuras sem dragões dos torreões...
Mario, paga os duzentos réis. São cinco no banco: um branco, um noite, um oiro, um cinzento de tísica e Mario. . . Solicitudes ! Solicitudes !
Mas. . . olhai, oh meus olhos saudosos dos ontens êsse espetáculo encantado da Avenida ! Revivei, oh gaúchos paulistas ancestremente ! e oh cavalos de cólera sanguínea !
Laranja da China, laranja da China, laranja da China ! Abacate, cambucá e tangerina ! Guardate! Aos aplausos do esfusiante clown, heroico sucessor da raça heril dos bandeirantes, passa galhardo um filho de imigrante, loiramente domando um automóvel !
MAKIO DE ANDRADE
Anhangabaú Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora Oh larguezas dos meus itinerários !... Estátuas de bronze nú correndo eternamente, num parado desdem pelas velocidades.. . O carvalho votivo escondido nos orgulhos do bicho de mármore parido no S a l o n . . . Prurido de estesias perfumando em rosais o esqueleto trêmulo do morcego... Nada de poesia, nada de alegrias !.. .
E 0 contraste boçal do lavrador que sem amor afia a foice... Estes meus parques do Anliangabaú ou de Paris, onde as tuas águas, onde as máguas dos teus sapos ? «Meu pai foi rei ! — Foi. — Não foi. Foi. — Náo foi.» Onde as tuas bananeiras ? Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros, contando histórias aos sacis ?...
Meu querido palimpsesto sem valor ! Crônica em mau latim cobrindo uma écloga que não seja de Virgilio !...
A Caçada
A bruma neva. . . Clamor de victorias e dolos. . . Monte São Bernardo sem cães para os alvissimos ! Cataclismos de heroismos. . . O vento gela. . . Os cinismos plantando o estandarte; enviando para todo o universo novas cartas-de-Vaz-Caminha !... Os Abéis quási todos muito ruins a escalar, em lama, a glória. . . Cospe os fardos !
Mas sobre a turba adejam os cartazes de “Papel [Tinta” como grandes mariposas de sonho queimando-se na E o maxixe do crime puladinho na eternização dos tres dias... Tripudiares gaios !... Roubar... Vencer... Viver os respeitosamentes no cre[púsculo... A velhice e a riqueza têm as mesmas cans. A engrenagem trepida. . . A bruma neva.. . Uma sincope: a sereia da polícia que vai prender um bêbedo no Piques...
Não ha mais lugares no boa-vista triangular. Formigueiro onde todos se mordem e devoram. . . O vento gela... Fermentação de ódios egoismos para a caninha-do-0’ dos progredires... Viva virgem vaga desamparada... Malfadada ! Em breve não será mais virgem nem desamparada ! Terá o amparo de todos os desamparos ! Tossem: 0 Diário ! A Platea. . . Lívidos doze-anos por um tostão Também quero ler o aniversário dos reis. . . Honra ao mérito ! Os virtuosos hão-de sempre ser lou[vados
ilÉ
e retratificados... Mais um crime na Moóca ! Os jornais estampam as aparências dos grandes que fazem anos, dos criminosos que fazem
Os quarenta-graus das riquezas ! 0 vento gela Abandonos ! Ideais pálidos ! Perdidos os poetas, os moços, os loucos ! Nada de asas ! nada de poesia ! nada de alegria ! A bruma neva. . . Arlequinal ! Mas viva o Ideal! God save the poetry !
— Abade Liszt da minha filha monja, na Cadillac mansa e glauca da ilusão, passa o Oswald de Andrade mariscando gênios entre a multidão !...
Nota: — A última imagem está numa crônica rutilante de Helios. Não houve plágio. Helios repetiu legitimamente a frase já ouvida, e então lugar comum entre nós, para caracterizar deliciosa mania do Oswald.
Noturno
Luzes do Cambucí pelas noites de crime... Calor !.. . E as luiveiis baixas muito grossas, feitas de corpos de mariposas, rumorejando na epiderme das árvores...
Gingam os bondes como um fôgo de artificio, sapateando nos trilhos, cuspindo um orifício na trcva cor de cal. . .
Num perfume de heliotrópios e de poças gira uma flor-do-mal. . . Veio do Turquestan; e traz olheiras que escurecem almas. . . Fundiu esterlinas entre as unhas roxas nos oscilantes de Ribeirão Preto. . .
Batat’assat’o furnn !...
Luzes do Cambucí pelas noites de crime !. Calor... E as nuvens baixas muito grossas, feitas de corpos de mariposas, rumorejando na epiderme das árvores,. .
Üm mulato cor de oiro, com uma cabeleira feita de alianças polidas... Violão ! «Quando eu morrer...» üm cheiro pesado de [baunilhas oscila, tomba e rola no chão. . . Ondula no ar a nostalgia das Baías. ..
E os bondes passam como um fogo de artifício, sapateando nos trilhos, ferindo um orifício na treva cor de cal. . .
— Batat’assat’0 furnn ! ...
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Calor ! ... Os diabos andam no ar corpos de nuas carregando. . . As lassitudes dos sempres imprevistos ! e as almas acordando ás mãos dos enlaçados ! Idílios sob os plátanos ! ... E o ciiime universal ás fanfarras gloriosas ' de saias cor de rosa e gravatas cor de rosa ! ... Balcões na cautela latejante, onde florem Iracemas para os encontros dos guerreiros brancos. . . Brancos ? E que os cães latam nos jardins ! Ninguém, ninguém, ninguém se importa ! Todos embarcam na Alameda dos Beijos da Aventura ! Mas eu... Estas minhas grades em girándolas de jasmins, enquanto as travessas do Cambuci nos livres da liberdade dos lábios entreabertos ! ...
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Arlequinal ! Arleqiiinal ! As nuvens baixas muito grossas, feitas de corpos de mariposas, rumorejando na epiderme das árvores.. . Mas sôbre estas minhas grades em girándolas de jas[mins, o estelário delira em càrnagens de luz, e meu céu é todo um rojão de lágrimas ! ...
E os bondes riscam como um fogo de artificio, sapateando nos trilhos, jorrando um orifício na treva cor de cal. . .
Batat’assat’0 furnn !...
Paisagem n. 2
Escuridão dum meio-dia de invernia... Marasmos. . . Estremeções. . . Brancos... O céu é toda uma batalha convencional de c o n f e t t i [brancos; e as onças pardas das montanhas no longe. .. Oh ! para alem vivem as primaveras eternas !
As casas adormecidas parecem teatrais gestos dum explorador do polo que o gêlo parou no frio...
jífei : . Ip
Lembras-te ? As barcarolas dos céus azúis nas aguas Verde — cor dos olhos dos loucos ! As cascatas das violetas para os lagos... Primaveral — cor dos olhos dos loucos !
Deus recortou a alma de Paulicea num cor de cinza sem odor... Oh ! para alem vivem as primaveras eternas ! ...
Lá para as bandas do Ipiranga as oficinas tossem. . . Todos os estiolados são muito brancos. Os invernos de Paulicea são como entêrros de virgem. . . Italianinha, torna al tuo paese !
Mas os homens passam sonambulando. . . E rodando num bando nefário, vestidas de electricidade e gazolina, as doenças j oco toam em redor... Grande funcção ao ar livre ! Bailado de Cocteau com os barulhadores de Russolo ! Opus 1921. São Paulo é um palco de bailados russos. Sarabandam a tisica, a ambição, as invejas, os crimes e também as apoteoses da ilusão... Mas o Nijinsky sou eu ! E vem a Morte, minha Karsavina ! Quá, quá, quá ! Vamos dansar o fox-trot da desesperança, a rir, a rir dos nossos desiguais !