Sabedoria a Vesperal Epigramas irônicos e sentimentais · Capítulo 5 de 8
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Sabedoria a Vesperal

Sabedoria a Vesperal

XXVIII SABEDORIA EMQUANTO disputam os doutores gravemente sobre a natureza do bem e do mal, do erro e da verdade, do consciente e do inconsciente; emquanto disputam os doutores subtilissimos, aproveita o momento! Faze da tua realidade uma obra de belleza.

Só uma vez amadurece, ephemero imprudente, o cacho de uvas que o acaso te offerece...

XXIX DOÇURA DA CHUVA DOÇURA melancolica da chuva, dos muros humidos, das ruas cheias de agua barrenta, da atmosphera pesada, somnolenta, doçura da chuva.. Doçura melancolica da chuva, quando não ha cartas de amor para rasgar, quando não ha rondeis nem balladas para rimar, e a vida, parece, anda mais devagar! doçura da chuva..

Doçura melancolica da chuva, quando ficam rasos de agua os olhos dos homens liricos, quando as pennas marcham ao compasso grave dos alexandrinos, e jorram dos corações sonetos sentimentaes. Melancolia ironica da chuva, sob uma epigraphe bucolica de Sá de Miranda, na redondilha dos madrigaes. Monotonia da chuva indifferente, calma, cahindo nos charcos, cahindo nos pantanos, cahindo na alma... Doçura melancolica da chuva!

XXX THEORIA CRIA o teu rythmo a cada momento. Rythmo grave ou limpido ou melancolico; rythmo de flauta desenhando no ar imagens claras de bosques, de aguas múrmuras, de pés ligeiros e de asas; rythmo de harpas, rythmo de bronzes, rythmo de pedras, rythmo de columnas severas ou risonhas, rythmo de estatuas,

rythmo de montanhas, rythmo de ondas, rythmo de dor ou rythmo de alegria! Não esgotes jámais a fonte da tua poesia, enche a bilha de barro ou o cantaro de granito com o sangue da tua carne e as vozes do teu espirito! Cria o teu rythmo livremente, como a natureza cria as arvores e as hervas rasteiras, Cria o teu rythmo e criarás o mundo!

XXXI HORA FUGACE ELLA passou por mim, passou, na manhã tranquilla, através das grades prateadas, das altas grades do jardim. Tão longe vai a doce manhã tranquilla, toda cheia de bolhas tremulas de orvalho, de tinhorões vermelhos e grandes borboletas azues.

Tão longe... Por que meu coração não quiz seguil-a? (Talvez fosse melhor assim...)

XXXII JOGOS PUERIS DEIXA que te louvem ou que te accusem, deixa rolar sobre ti o bem e o mal. Somos maus sem querer, somos bons sem saber. Não mostres a ninguem o teu prazer, não mostres a ninguem a tua queixa. Tudo são jogos da belleza universal...

XXXIII ELOQUENCIA COMO é suave o silencio, como é fina discreta a sua deliciosa queixa... Em vão tentarás traduzil-o, amigo. Deixa apenas, em surdina, bater no silencio o coração...

XXXIV VESPERAL O CÉO parece que adormece, o céo profundo... Paira no ar um longo beijo doloroso, caricioso... A tarde cãe.

A sombra desce sobre o mundo. A sombra é um labio silencioso, silencioso...

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