Esthetica a Pudor Epigramas irônicos e sentimentais · Capítulo 6 de 8
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Esthetica a Pudor

Esthetica a Pudor

XXXV ESTHETICA DEIXA o teu pensamento fecundar-se lentamente, como no seio da terra a humilde semente. Deixa-o, modesto e silencioso, crescer como o fruto na arvore, como o fruto no mais alto ramo da arvore! Não o exponhas ao primeiro curioso...

Lembra-te que, um dia, fatalmente, como a flor que se desfolha á-tõa, como o fruto que rola pelo chão, ou a folha que vem e vai, voa e revoa, para cahir, cessado o turbilhão, elle apodrecerá inutilmente, esquecido no chão, no pó anonymo do chão...

XXXVI LITERATURA COMO são lindos os teus alexandrinos, que lindos são, solemnes, elegantes... «Sob o vivo clarão dos poentes purpurinos, Passam, movendo a tromba, os tardos elephantes.» São perfeitos os teus alexandrinos! Mas como têm mais graça as asas dessa abelha,

ou essa fulvida scentelha que turbilhona sem parar! Como são muito mais interessantes que aquelles negros, inuteis elephantes, esses pares de andorinhas que volteiam em curvas longas, lentas pelo ar... Poeta, que lindos são os teus alexandrinos perfilados, solemnes, elegantes.. «Sob o vivo clarão dos poentes purpurinos, Passam, movendo a tromba, os tardos elephantes...»

XXXVII CHEIRO DE TERRA A versos que são como um jardim depois da chuva: deixam em nós a sensação da agua cahindo, cahindo em bolhas tremulas da ponta das folhas, escorrendo da pelle macia das petalas, pingando dos galhos lavados, gota a gota, pingando no ar...

Versos que cheiram á terra molhada, versos que são como um jardim depois da chuva...

XXXVIII PEDAGOGIA ENSINAR a viver ! Que fabula sem graça, que ingenua semsaboria! Pobre novello de fumaça, onda que passa, alma sem rumo, rodopia, rodopia...

XXXIX MONOTONIA DA TARDE TROPICAL NOS jardins do arrabalde os girasões dourados abrem os calices pesados para o poente. Nos jardins solitarios desce a penumbra suavemente, desce a penumbra nos jardins calados. Doçura do crepusculo, Doçura das montanhas e das arvores silenciosas no crepusculo...

Rola no ar morno um perfume acre de hervas queimadas, um perfume voluptuoso de carne e de frutas acidas. Sobre os jardins do arrabalde, surge trémula, trémula, a primeira estrela.

XL AMAVEL EPITAPHIO NÃO chores, não, viajor. Sorri, viajor! Não vês os passaros nos ramos? Não vês as rosas nos hastis? A vida é assim. Um minuto que dansamos, um minuto, dois...

Depois... Sorris, agora, sorris...

XLI PUDOR NÃO digas que a vida é boa nem que é má. Pobre Ephemero, triste Ephemero dolente... A vida não é boa nem é má, a vida é indifferente...

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