Castro Alves: vidinha - Parte 5
E depois dos espetáculos havia ceias; e o poeta não deixava que ela fôsse. O ciúme que o inquieta torna-lhe a vida infeliz, introduz-lhe dor secreta.
Um lhe trazia um presente outro lhe dava um buquê com uma promessa traiçoeira que o enganado não vê. Se ela fugia dos laços logo ficava à mercê.
- Eugênia, falava êle, prêso de sua paixão: eu te amo, pois me inspiras o amor da redenção que me impele noite e dia contra o mal da escravidão.
Preciso do teu amor Eugênia pra me alentar para escrever poesia para viver e sonhar para enfrentar os senhores de escravos, e os dominar.
Enquanto isso falava, Eugênia ouvia os gorjeios daqueles que a desejavam por dinheiro e outros meios. Dalila esquece Ceceu, já não são dêle os seus seios.
Para esquecer essa mágoa o poeta se embriaga, vê definhar a saúde, Meu Deus que noite pressaga desaba sôbre Castro Alves maldição, ruína, praga!
Alta noite, a febre o exalta, corrói-lhe a vida devassa. Percebe que vai morrer, polpa de gênio - argamassa, peito de atlante a sentir a morte perto. Desgraça!
Mas escreve e ama e labuta vem à liça defender pátria, amor, glória, canção, embora veja pender na mão de herói a espada gloriosa até morrer.
Eugênia tu não consentes que eu me entregue à poesia nem descante a liberdade. Em minha vida há um dia que espero com ansiedade: o dia de ver libertados os que sofrem tirania.
Eugênia? Eugênia? Deserto o quarto que os abrigava. Tinha vindo convidá-la a roda que a desviava. Castro Alves só e a morte. Mentira! a Glória ali estava.
A procura da fortuna segue Eugênia sua sina. Castro Alves segue atrás que a vida errante os domina pelo Rio e por S. Paulo. Glória, delírio, ruína!
Mas nem dores nem desgraças fazem dêle prisioneiro. Mesmo traído e doente compõe dramas, versos, versos, compõe as Vozes da África, compõe o Navio Negreiro.
Em S. Paulo a amante o deixa cobre-o de dor e amargura. O poeta vaga a sós finge que caça, procura andar nas matas do Braz e esquecer sua loucura.
Um dia não sabe como um tiro da própria carga fere-lhe o pé como a Aquiles a tísica o passo lhe embarga febre, tosse e hemoptise tinge em sangue a bôca amarga.
É voltar à terra pátria, é voltar desarvorado como o barco que se acolhe ao abrigo desprezado. Meu Deus! Que negra loucura foi êsse amor desgraçado!
Era noite de S. João. Na varanda do Sodré, em seu velho casarão, êle mal se põe em pé, e a fumaça da saudade afoga o homem sem fé.
Recua para morrer dias depois - três e meia da tarde lenta tão bela tão algazarra, tão cheia de aves; finda o poeta como exaurida candeia.
Quer falar não pode mais, quer olhar não vê mais nada. A escuridão o envolveu. Mentira! a morte é a alvorada! Derradeira, Bem-Amada!