O Andar Interditado Voo Desmarcado: Prisioneira · Capítulo 2 de 15
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O Andar Interditado

O São Victor Terminal Norte ficava atrás de um posto de combustível fechado, separado da avenida por uma grade baixa e por duas guaritas vazias. O ônibus entrou por um portão lateral, sem passar pela marquise principal, e parou diante de uma porta de vidro onde uma placa móvel anunciava atendimento exclusivo a passageiros remanejados. Elisa desceu por último, levando a mochila na frente do corpo e o voucher dobrado entre os dedos. O relógio do painel do motorista marcava 00h38. Ela fotografou o letreiro incompleto, a placa da entrada, a traseira do ônibus e o adesivo removível com o número da Litoral Linhas Aéreas. O motorista reclamou da luz do celular. Ela respondeu que precisava comprovar chegada ao hotel. Ele recolheu a prancheta, fechou a porta e deixou o motor ligado.

Na recepção, dois funcionários atendiam os passageiros com uma rapidez rígida. Pediam documento, confirmavam nome em uma lista impressa, destacavam a segunda parte do voucher e entregavam cartões magnéticos em envelopes brancos. Ninguém perguntava preferência de quarto, horário de despertar, necessidade médica ou bagagem retida. Elisa ficou perto do balcão de revistas até observar o padrão. Os passageiros com criança ou remédio iam para quartos no terceiro andar. Os homens sozinhos, para o quarto. Mulheres desacompanhadas recebiam envelopes com números pares no sexto. A senhora da insulina protestou e conseguiu mudar para o segundo depois de abrir a bolsa térmica diante do gerente. Elisa guardou esse detalhe.

Quando chegou sua vez, o recepcionista leu o voucher antes de olhar para ela. Tinha unhas roídas, uma aliança larga e um ponto de suor escuro na gola da camisa. "Documento com foto." Elisa entregou a carteira de motorista e manteve a mão sobre o balcão. Ele digitou o CPF, esperou a tela carregar, mordeu o canto da boca. "A senhora está sem bagagem despachada?" Ela confirmou. "Sem bagagem de mão além dessa mochila?" Elisa perguntou por que aquilo constava no check-in do hotel. O recepcionista pegou um formulário menor, impresso em papel azul-claro, e marcou um quadrado com caneta. "A companhia pede para controle de acomodação." Ela leu de cabeça para baixo: triagem leve, desacompanhada, manter observação.

Elisa estendeu o braço antes que ele recolhesse o formulário. "Preciso de uma via." O homem pressionou o papel contra a bancada. "É interno." Ela abriu o celular, fotografou a folha antes que ele cobrisse tudo com a mão e pediu o recibo de hospedagem. O recepcionista chamou uma mulher de blazer bege, que veio de uma sala atrás do balcão já sorrindo. "Boa noite, senhora Elisa. Entendo o transtorno. A Litoral centraliza a documentação e nos orienta a simplificar para vocês descansarem." A mulher trazia uma pasta com etiquetas coloridas. O nome no crachá era Vanessa Arantes, supervisão noturna. Atrás dela, em uma prateleira baixa, Elisa viu quatro envelopes separados por elástico. No primeiro, escrito a caneta: 6º restrito.

Vanessa entregou o cartão do quarto 608 e um recibo sem valor fiscal. Elisa pediu um quarto no segundo andar. "Tenho problema com elevador", disse. A mentira saiu simples, sem teatro. Vanessa inclinou o rosto com compaixão treinada. "Hoje o segundo está reservado para passageiros com medicação refrigerada e famílias. A senhora ficará no sexto, área silenciosa, monitorada pela equipe. O elevador está funcionando." Elisa pediu então o quarto 610. Vanessa consultou a lista e negou. "O 608 já foi preparado." O envelope branco trazia, além do cartão magnético, um adesivo circular amarelo com o número 41 e uma pulseira plástica azul, dessas usadas em pronto atendimento. Elisa tocou a pulseira com a ponta da unha. "Para quê?" Vanessa fechou o envelope. "Controle de refeição."

Nenhum outro passageiro recebeu pulseira. Elisa viu isso enquanto fingia prender o zíper da mochila. Os cartões passavam de mão em mão, os envelopes iam vazios para os outros hóspedes. Apenas o dela tinha plástico azul. Ela fotografou o conteúdo do envelope dentro da bolsa, sem flash, e guardou a pulseira no bolso interno do casaco em vez de colocá-la. O celular vibrou com uma notificação do banco, sem sinal de internet para abrir. Em seguida, a tela apagou. A bateria marcava 48% segundos antes. Elisa tentou ligar. Nada. Tirou o carregador portátil da mochila, conectou, esperou. O aparelho mostrou o símbolo de carga por meio segundo e morreu outra vez.

O elevador ficava no fim de um corredor revestido por espelhos estreitos. Um segurança segurou a porta para os passageiros do sexto andar: Elisa, o rapaz de boné, uma mulher de terninho escuro e um homem de barba que reclamava de reunião às oito. O segurança apertou o botão com um cartão próprio, embora o painel permitisse seleção comum. O sexto andar piscou em vermelho antes de acender. Elisa observou o crachá dele pelo reflexo: R. Nascimento, apoio patrimonial. Na altura do quarto andar, o elevador parou sem abrir. Um som baixo veio do teto, três bipes espaçados. O segurança tirou um rádio da cintura e disse apenas "subindo quatro". A porta abriu no sexto em um corredor com metade das lâmpadas apagadas.

Havia uma faixa plástica no início do corredor, presa de modo frouxo entre dois pedestais: andar em manutenção, pedimos desculpas pelo transtorno. O rapaz de boné leu a placa e soltou um riso curto. "Área silenciosa, né?" O segurança retirou a faixa para que passassem. A mulher de terninho ficou no 604. O homem de barba, no 606. Elisa, no 608. O rapaz seguiu para o 614, arrastando os pés. O corredor terminava em uma porta corta-fogo com alarme coberto por fita isolante. Ao lado dela, uma câmera de domo apontava para baixo, desligada ou fingindo desligamento. A porta 612 estava entreaberta, presa por uma corrente interna. Nenhuma luz escapava pela fresta.

Elisa esperou Nascimento voltar ao elevador antes de aproximar o ouvido da porta 612. Ouviu água correndo dentro de canos, televisão distante, ar-condicionado velho. Depois, três batidas secas, espaçadas demais para acidente. Ela recuou um passo. A corrente se moveu por dentro. Uma voz de mulher perguntou, quase sem som, "qual voo?" Elisa manteve o rosto fora do alcance do olho mágico. "Curitiba." A mulher riu uma vez, sem humor. "Hoje também?" Antes que Elisa respondesse, o elevador apitou no fim do corredor. A corrente parou. Elisa atravancou a conversa com silêncio e entrou no 608 usando o cartão magnético, que abriu na primeira tentativa.

O quarto cheirava a produto de limpeza forte e enxoval úmido. Havia duas camas de solteiro, uma mesa aparafusada na parede, cortina fechada e telefone fixo sem tecla zero. Elisa deixou a porta encostada com a trava de segurança, acendeu todas as luzes e fez o inventário antes de tocar em qualquer coisa. Fotografou minibar lacrado, cofre aberto, banheiro sem janela, detector de fumaça, tomada perto da cama, aviso de rota de fuga. A planta atrás da porta mostrava o corredor inteiro. O 608 ficava entre a escada de serviço e o 610. O 612 aparecia ao lado de uma área branca sem legenda, maior que dois quartos comuns. No canto da planta, alguém riscara a caneta uma seta apontando para "apoio médico".

Ela tentou carregar o celular em três tomadas. Nenhuma funcionou para o aparelho, embora a luminária acendesse em todas. Retirou o chip, recolocou, apertou os botões laterais, abriu a tampa do carregador portátil com uma moeda. A bateria externa também estava morta. Elisa tirou o cartão de memória do celular e colocou dentro do bolso pequeno da calça. Sem telefone, voltou ao caderno. Anotou nomes, horários, quarto 608, sala 6º restrito, R. Nascimento, Vanessa Arantes, pulseira azul não entregue a outros passageiros. Depois copiou de memória a frase do formulário: triagem leve, desacompanhada, manter observação. A palavra triagem não pertencia a hotel.

O telefone do quarto tocou às 01h06. Elisa deixou chamar cinco vezes antes de atender sem falar. Uma mulher perguntou se estava tudo bem com a acomodação. A voz vinha diferente da supervisora. Elisa pediu o nome. "Cíntia, assistência médica da companhia." A médica disse aquilo com naturalidade, antes mesmo de Elisa mencionar qualquer problema. "A senhora informou desconforto no deslocamento e resistência ao procedimento de check-in. Podemos subir para uma avaliação breve." Elisa olhou para a pulseira azul sobre a mesa. "Quem informou desconforto?" Houve uma pausa curta. "Consta em sistema." Elisa perguntou qual sistema, de hotel, companhia ou serviço médico. A chamada caiu em seguida, sem despedida, sem ruído de desligamento manual.

Ela colocou uma cadeira contra a porta, sem bloquear a abertura por completo. Precisava saber se alguém tentaria entrar. Depois apagou a luz principal e manteve acesa apenas a luminária da mesa. Pela fresta inferior, via a faixa de claridade do corredor. Às 01h19, passos pararam diante do quarto. Um cartão encostou na fechadura. A luz verde piscou, a maçaneta desceu e bateu na trava interna. Elisa ficou ao lado da parede, sem respirar pela boca, segurando a caneta de metal pelo corpo, ponta voltada para baixo, mais ferramenta que arma. Do lado de fora, Nascimento disse baixo: "Ela trancou." Outra voz masculina respondeu: "Registra recusa. Médica sobe depois." Os passos seguiram até a porta 612.

A conversa seguinte chegou em pedaços. Elisa abriu a porta o mínimo possível, com a corrente presa, e viu Nascimento e um homem de jaleco cinza diante do 612. O homem carregava uma maleta rígida. Bateu duas vezes. "Raquel, precisamos trocar sua pulseira." A mulher do quarto respondeu alguma coisa que Elisa não entendeu. O homem mostrou uma prancheta para a câmera do corredor, embora a câmera aparentasse estar desligada. Nascimento destravou a porta com cartão mestre. A corrente segurou. O homem de jaleco suspirou e falou sem elevar o tom: "Você sabe que o relatório fica pior quando você dificulta."

Elisa fechou a porta antes que alguém olhasse para trás. Raquel. O nome entrou no caderno ao lado de 612. Ela riscou uma linha e escreveu abaixo: quarto com corrente interna; equipe médica conhece ocupante; troca de pulseira; relatório. Em seguida, puxou da mochila a cópia da lista do voo 318. Nenhuma Raquel Sotto, nenhum sobrenome parecido. Porém havia, em uma das margens que ela mesma marcara anos antes, o número de uma remessa de bagagem sem passageiro correspondente. A etiqueta terminava em 612. Na época, Sérgio Valente chamou aquilo de duplicidade operacional sem efeito probatório. Elisa dobrou a folha devagar, para não rasgar a parte marcada.

Às 01h47, a luz do quarto piscou duas vezes e apagou. O corredor apagou junto. O ar-condicionado parou. A escuridão veio com um cheiro de poeira aquecida e fiação velha. Elisa pegou a mochila, o caderno, o voucher, a pulseira azul e os cartões de embarque. Tentou a maçaneta. A porta abriu cinco centímetros e prendeu em alguma coisa do lado de fora. Ela empurrou com o ombro. Havia um carrinho de serviço encostado contra a porta, pesado o bastante para impedir saída rápida, leve o bastante para fingir descuido. Pelo vão, viu toalhas empilhadas, frascos de limpeza e uma bandeja com copos descartáveis. Um deles tinha comprimidos brancos no fundo.

A porta 612 bateu uma vez. Depois outra. "Curitiba", chamou a mulher, agora mais clara. Elisa empurrou o carrinho até criar espaço para passar de lado. O corredor permanecia sem luz, exceto por uma lâmpada vermelha perto da escada de serviço. A porta de Raquel continuava presa pela corrente, mas o cartão mestre estava caído no carpete diante dela. Elisa pegou o cartão, colocou no bolso e aproximou o rosto. "Meu nome é Elisa." Do outro lado, a mulher respirava depressa. "Eles sabem." Elisa perguntou quem. Raquel demorou. "A lista sabe primeiro." No fim do corredor, o elevador subiu sem luz no painel, movido por alguém que não precisava chamar.

Elisa voltou para o 608 levando o cartão mestre. Precisava escolher entre a escada de serviço, o quarto 612 e a permanência até a médica subir. Escolheu a única coisa que ainda produzia prova. Enrolou a pulseira azul no recibo do hotel, colocou o conjunto dentro de um copo plástico limpo e escondeu atrás da caixa acoplada do vaso. Depois arrancou da porta o mapa da rota de fuga, dobrou em quatro e guardou junto da lista do 318. Quando saiu do banheiro, a luz voltou. A televisão ligou sozinha no canal interno do hotel, mostrando uma tela azul com o logotipo do São Victor e uma mensagem em letras brancas: prezado hóspede, sua saída temporária foi registrada.

O cartão magnético do 608 já não abria por dentro. Elisa testou duas vezes, embora a porta não precisasse de cartão para sair. A maçaneta girava, a trava recolhia, mas alguma fechadura interna permanecia presa. No telefone, uma luz vermelha piscava. Ela atendeu. Desta vez, Otávio Leme falou do outro lado, sem o barulho do aeroporto ao fundo. "Senhora Elisa, a equipe informou agitação no quarto. Vamos ajudá-la a descansar." Elisa olhou para o mapa arrancado, para o copo escondido no banheiro, para o cartão mestre no bolso. "Você ainda está no aeroporto?", perguntou. Otávio não respondeu. A fechadura fez um estalo metálico. No visor da porta, a luz do corredor revelou uma pulseira azul pendurada na mão de Vanessa.

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