Capítulo 6 - A Fila Foram quantos beijos? · Capítulo 6 de 10
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Capítulo 6 - A Fila

Clara passou três dias sem testar a regra e começou a desconfiar que isso também era uma forma de testá-la.

Na segunda, foi ao trabalho e voltou direto para casa. Na terça, almoçou na copa, embora Janaína insistisse em sair para comer pastel na esquina. Na quarta, recusou um convite para resolver um orçamento presencialmente no hotel onde fora a confraternização. Disse que estava atolada de planilhas, o que era verdade o suficiente para não doer na boca.

Renato via tudo e fingia não ver tudo.

— Você não precisa virar freira administrativa — ele disse na quarta à noite, enquanto abria uma lata de milho.

— Freira administrativa parece cargo de prefeitura.

— Com estabilidade e vale-refeição.

Clara sorriu. Renato também, mas os dois sabiam que a piada não resolvia a frase anterior. Ela estava encolhendo os trajetos. Fazia mercado pelo aplicativo. Evitava entrar em padaria cheia. Escolhia o elevador vazio, mesmo que tivesse que esperar outro. Isso parecia virtude quando contado de longe, mas por dentro tinha cheiro de medo.

Na quinta, a empresa depositou um reembolso errado para Clara. Cinquenta e três reais a mais. Ela poderia avisar por e-mail e resolver na folha seguinte, mas a diretora pediu que passasse no banco conveniado para assinar um recibo, porque a contabilidade era composta por pessoas que ainda confiavam em papel carimbado.

— Banco? — Renato perguntou quando ela contou.

— Banco.

— Com fila?

— Normalmente essa é a proposta.

Ele estava sentado no chão da sala, tentando encaixar a tampa traseira do controle remoto depois de trocar as pilhas. As pilhas certas, finalmente. A tampa não fechava porque ele insistia em colocar uma delas invertida.

— Quer que eu vá junto?

Clara olhou para ele.

— Você pode?

— Posso sair mais cedo.

— Não precisa.

— Eu não perguntei se precisa.

Ela sentou no sofá. O controle estalou na mão dele, enfim fechado.

— Eu acho melhor eu ir sozinha.

Renato apoiou o controle sobre a mesa.

— Por quê?

— Porque se eu só sair de casa com você do lado, a regra vira outra coisa.

— Que coisa?

— Prisão com companhia.

Ele assentiu, embora não gostasse da imagem.

— E se acontecer alguma coisa?

— Eu aviso antes.

Renato olhou para o celular dela, que estava sobre a mesa, virado para cima. Desde a regra, aquele pequeno retângulo tinha virado um animal doméstico difícil: presente, observado, imprevisível.

— Antes de quê?

— Antes de virar coisa.

— Essa frase não ajuda.

— Antes de eu escolher ficar.

Ele aceitou. Era a frase mais próxima da verdade que eles tinham conseguido naquela noite.

No dia seguinte, Clara saiu do trabalho às quatro. Levava uma pasta transparente com o recibo, o crachá ainda preso à calça e o celular no bolso da frente, não na bolsa. O banco ficava a três quadras, numa avenida com lojas de conserto de celular, óticas, uma lotérica e uma banca que vendia capas de controle remoto, carregadores, meias e santos de plástico.

A fila do atendimento ocupava metade da agência. Havia idosos sentados, um rapaz com capacete na mão, uma mulher com criança no colo, dois homens de camisa social reclamando da senha que não chamava nunca. Clara pegou o número e olhou para o painel.

Setenta e dois.

O dela era oitenta e nove.

Sentou no último lugar livre, perto de um ventilador desligado. Abriu a pasta, conferiu o recibo, fechou. Desbloqueou o celular. Nenhuma mensagem de Renato. Isso a aliviou e a ofendeu, duas reações pequenas demais para confessar.

— Esse painel está de enfeite — disse alguém ao lado.

Clara virou o rosto. O homem estava em pé, apoiado na parede, com uma senha dobrada entre os dedos. Tinha cabelo curto, barba por fazer e uma camisa cinza com a marca de uma oficina bordada no peito. Não era bonito de modo óbvio. Parecia cansado, e havia algo familiar no cansaço de pessoas esperando em fila.

— Talvez ele chame quando a gente perder a esperança — Clara disse.

— Então eu já devia ter sido atendido.

Ela sorriu. Só isso. Um sorriso de fila. O tipo de sorriso que se entrega a estranhos para suportar lugares públicos.

O painel chamou setenta e três.

— Avançamos para o futuro — ele disse.

Clara olhou para a senha dele.

— Você é?

— Oitenta e oito.

— Eu sou oitenta e nove.

— Desculpa.

— Pelo quê?

— Vou sair daqui primeiro e abandonar você no sofrimento.

Ela riu baixo. O homem sorriu também, mas não empurrou a conversa. Isso abriu espaço. O silêncio dele foi educado e, por isso mesmo, perigoso.

Clara voltou para o celular.

Podia mandar mensagem para Renato ali. Não havia nada ainda. Um homem fez piada na fila. Ela riu. Fim. Se avisasse cada sorriso, transformaria o casamento numa central de ocorrência. Se não avisasse e a conversa crescesse, já estaria dentro da parte proibida.

O painel chamou setenta e quatro.

O homem da oficina olhou para ela outra vez.

— Você vem sempre aqui ou também foi condenada hoje?

— Condenada.

— Crime?

— Recebi dinheiro a mais.

— E veio devolver?

— Pois é.

— Você é uma pessoa melhor do que eu.

— Ou pior em logística criminal.

Ele riu com vontade, depois pareceu notar que rira alto e baixou os olhos. Clara gostou dessa pequena vergonha. Sentiu a coisa se formar: não paixão, não desejo enorme, não destino. Só a inclinação do corpo para uma possibilidade. O mundo diminuindo em volta de uma conversa que não precisava existir.

Pegou o celular.

Renato atendeu no segundo toque.

— Oi.

Clara fechou os olhos. A voz dele veio normal demais.

— Estou no banco.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Quer dizer... talvez antes de acontecer.

Houve um silêncio curto do outro lado. Ela ouviu a mudança da respiração dele.

— Fala.

O homem da oficina olhou para o painel, sem ouvir.

— Tem um cara na fila. A gente fez piada sobre a demora. Só isso. Mas eu percebi que eu queria continuar conversando.

Renato não respondeu.

— Eu estou te avisando antes — ela disse, odiando a frase enquanto dizia.

— Ele está do seu lado?

— Está perto.

— Ele ouviu?

— Não.

— Você quer o quê de mim agora?

A pergunta bateu seca, não cruel. Clara não tinha resposta pronta.

— Não sei.

— Quer que eu mande você sair?

— Não.

— Quer que eu diga que tudo bem?

— Também não.

— Então você me colocou aqui para quê?

Clara olhou para a senha na mão. Oitenta e nove. Uma coisa boba, impressa em papel fino, e ainda assim parecia prova.

— Para eu não fingir que isso não começou.

Renato soltou o ar devagar.

— Tá.

— Tá?

— Fica na fila. Resolve o recibo. Não conversa mais com ele.

Ela fechou os olhos de novo. A ordem doeu menos do que a possibilidade de ele não dar nenhuma.

— Tá.

— E Clara?

— Oi.

— Não transforma esse tá em obediência bonita. É escolha sua também.

— Eu sei.

— Sabe?

— Estou tentando saber.

— Me liga quando sair.

— Ligo.

Desligou. O homem da oficina olhou para ela sem curiosidade excessiva.

— Tudo certo?

Clara guardou o celular.

— Tudo.

— Marido bravo com banco?

— Marido bravo comigo.

A frase escapou. O homem levantou as sobrancelhas e, pela primeira vez, pareceu realmente vê-la.

— Aí complica.

— Complica.

O painel chamou setenta e cinco.

Ele não fez outra piada. Clara agradeceu por isso e odiou um pouco que ele tivesse sabido parar. O silêncio entre os dois ficou carregado pela escolha, não pela conversa. Ela olhou para a própria mão. A aliança parecia mais amarela sob a luz ruim da agência.

A fila avançou devagar. Em algum momento, uma senhora reclamou que o ar-condicionado estava forte demais. O homem da oficina cedeu o lugar para ela quando uma cadeira vagou. Clara ficou olhando para esse gesto simples e pensou que o desejo dela era uma máquina cruel, capaz de usar até gentileza como combustível.

Quando chamaram oitenta e oito, ele foi ao guichê. Antes de sentar, virou-se para Clara e ergueu a senha como despedida.

— Boa sorte com o crime honesto.

— Obrigada.

Foi tudo.

Nada aconteceu.

Clara repetiu isso mentalmente enquanto ele falava com a atendente, assinava um papel, guardava documentos numa pasta preta. Nada aconteceu. Ele saiu sem olhar de novo. A porta automática abriu, fechou, e o homem desapareceu na avenida.

Quando chamaram oitenta e nove, Clara entregou o recibo, assinou duas vias, devolveu os cinquenta e três reais no caixa e recebeu um comprovante. A atendente grampeou os papéis com uma força irritada.

— Resolvido.

Clara guardou tudo na pasta.

Do lado de fora, ligou para Renato. A avenida estava barulhenta, ônibus freando, vendedores chamando gente para a ótica, alguém distribuindo panfleto de curso técnico.

— Saí — ela disse.

— E?

— Resolvi. Não conversei mais.

— Ele ainda estava aí?

— Saiu antes de mim.

— Você viu para onde?

— Renato.

— Desculpa. Não, não desculpa. Eu estou perguntando.

Clara ficou parada perto da banca de carregadores.

— Eu vi ele sair pela porta. Não segui. Não perguntei nome. Não aconteceu nada.

Renato ficou quieto.

— Você está em casa? — ela perguntou.

— Estou.

— Eu vou para aí.

— Tá.

Ela pegou o ônibus porque precisava de tempo antes da porta de casa. Sentou no fundo, perto da janela. O comprovante do banco estava dentro da pasta, íntegro, ridículo. A cena inteira parecia pequena demais para justificar a tremedeira nas mãos. Um homem fez piada. Ela avisou o marido. O marido mandou não conversar. Ela obedeceu e não obedeceu ao mesmo tempo, porque parte dela ficou ali, imaginando como teria sido se não tivesse telefonado.

No meio do caminho, recebeu mensagem de Renato.

“Você quer que eu faça café?”

Clara olhou para a frase até a tela escurecer.

Respondeu:

“Quero.”

Quando chegou, o café estava pronto e a casa cheirava a pó recém-passado. Renato estava na cozinha, de braços cruzados, olhando para duas xícaras sobre a mesa. Não havia televisão ligada. Não havia panela no fogo. Só as xícaras.

— Oi — ela disse.

— Oi.

Ela colocou a pasta sobre a cadeira.

— Devolvi o dinheiro.

— Parabéns pela honestidade financeira.

A tentativa de piada saiu seca. Clara aceitou mesmo assim. Sentou-se. Renato serviu o café. A mão dele tremia um pouco.

— Você está com raiva?

— Estou com tudo.

— Tudo o quê?

— Raiva, medo, vergonha. Uma coisa horrível que eu não quero dizer.

Clara segurou a xícara sem beber.

— Diz.

Renato sentou em frente.

— Eu fiquei imaginando.

Ela não perguntou o quê. Não precisava.

— Enquanto você estava lá, eu fiquei olhando para o celular e imaginando você na fila. A conversa continuando, ele perguntando seu nome, você rindo baixo, depois saindo antes de ser chamada, ou ficando depois, ou trocando telefone. Eu inventei umas cinco versões. Em algumas eu chegava lá. Em outras eu não chegava nunca.

Clara sentiu frio.

— Eu sinto muito.

— Espera.

Ele colocou a xícara na mesa.

— Teve uma parte que não foi só medo.

Ela ficou imóvel.

— Como assim?

Renato passou a mão no rosto. Parecia envergonhado, mais do que zangado.

— Eu não sei. Eu fiquei preso na imagem. Você falando comigo antes e, ao mesmo tempo, estando lá. Eu fiquei com raiva dele sem saber quem era ele. Fiquei com raiva de você. E fiquei... envolvido. Não de um jeito bonito. Não de um jeito que eu queira defender.

Clara não sabia onde colocar as mãos.

— Você está dizendo que...

— Estou dizendo que a regra não te colocou sozinha numa coisa ruim. Ela me puxou também.

O café esfriava entre eles.

— Renato, eu não queria isso.

— Eu sei.

— Eu não liguei para...

— Para me excitar? Para me torturar? Para me dar função? Eu sei. Mas não quer dizer que não aconteceu alguma coisa aqui também.

Ele tocou o próprio peito, uma vez, sem drama.

Clara olhou para ele com uma mistura de culpa e medo novo. Até então, a história parecia ter uma linha mais simples: ela errava, ele sofria, os dois tentavam sobreviver. Agora a regra tinha aberto uma porta dentro de Renato também, e Clara não sabia se queria ver.

— Isso muda tudo? — ela perguntou.

— Eu não sei.

— Você quer que eu pare de avisar?

— Não.

A resposta veio rápida demais. Os dois perceberam.

Renato fechou os olhos.

— Está vendo?

Clara assentiu devagar.

— Sim.

Ele riu, mas o som veio quebrado.

— A gente criou uma coisa pior do que eu pensei.

— A gente pode desfazer.

— Pode?

Ela queria dizer que sim. Queria muito. Mas a pergunta ficou maior que a vontade.

— Eu não beijei ele — Clara disse, baixo.

— Eu sei.

— Eu voltei.

— Eu sei.

— Isso devia ser bom.

Renato olhou para ela. Pela primeira vez desde a ligação, o rosto dele amoleceu.

— É bom.

— Não parece.

— Porque também é péssimo.

Clara riu sem alegria. Renato estendeu a mão sobre a mesa. Não pegou a dela. Deixou ali, como tinha feito com a lâmpada errada. Clara colocou a mão ao lado.

— Eu queria que a gente tivesse uma vitória simples — ela disse.

— A gente devolveu cinquenta e três reais ao banco.

— Nossa grande obra moral.

Dessa vez ele sorriu de verdade por um segundo. Depois o sorriso caiu, mas não sumiu completamente.

À noite, fizeram omelete porque nenhum dos dois queria cozinhar. Renato queimou a borda. Clara comeu sem reclamar. O celular dela ficou sobre a mesa, virado para cima, e o dele também, como se os aparelhos tivessem sido convocados para testemunhar uma trégua.

Antes de dormir, Renato perguntou:

— Você lembra o rosto dele?

Clara estava escovando os dentes. Enxaguou a boca, cuspiu, demorou a responder.

— Lembro.

— Você queria esquecer?

Ela olhou para o espelho. Renato estava atrás dela, encostado no batente.

— Queria querer.

Ele assentiu. Era uma resposta horrível, e ainda assim não era mentira.

No quarto, deitaram mais perto do que nos outros dias. Não se tocaram primeiro. Depois Renato encostou o pé no dela, por baixo do lençol. Clara ficou quieta, aceitando aquele contato pequeno como quem aceita um copo d'água depois de chorar.

No escuro, ela pensou no homem da fila uma última vez.

Depois pensou em Renato imaginando.

E entendeu que a regra não tinha impedido a queda. Tinha apenas mudado o lugar de onde os dois olhavam para baixo.

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