Capítulo 10 - A Casa dos Fundos Foram quantos beijos? · Capítulo 10 de 10
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Capítulo 10 - A Casa dos Fundos

Três meses depois, Renato voltou a consertar a maçaneta do carro.

Não resolveu. Comprou uma peça errada, perdeu um parafuso no tapete da garagem e ficou vinte minutos deitado de lado, com metade do corpo para fora do carro, dizendo palavras baixas que Clara fingiu não ouvir. No fim, a porta do passageiro continuou emperrando quando esfriava. Renato bateu a palma na lataria, sujo de graxa no pulso.

— Oficina — Clara disse.

— Ainda estou amadurecendo a solução.

Ela sorriu.

— Você está apodrecendo a solução.

Ele apontou a chave de fenda para ela.

— Falta de fé.

Era uma piada antiga. Não a mesma. Nenhuma piada antiga voltava inteira. Agora, quando uma frase conhecida aparecia, os dois a recebiam com cuidado, como móvel restaurado que ainda podia quebrar se alguém sentasse rápido demais.

Clara continuava indo às terças para Lígia. Às vezes saía da consulta quieta e voltava andando duas quadras antes de chamar o aplicativo, só para entender se queria fugir de alguma coisa ou apenas respirar. Renato tinha ido uma vez, depois outra, em condição de presença difícil, sem chamar aquilo de sessão de casal. Sentou na poltrona ao lado dela, respondeu pouco, chorou uma vez sem cobrir o rosto. Depois, no carro, disse que odiava a poltrona de Lígia porque ela fazia barulho quando ele tentava parecer estável.

— A poltrona te desmascara — Clara disse.

— A poltrona é antiética.

Na última vez em que foram juntos, Lígia perguntou o que cada um fazia quando a vontade de controlar o outro aparecia. Renato demorou tanto para responder que Clara pensou que ele não responderia. Depois disse:

— Eu conto quantos segundos ela demora para pegar o celular.

Clara olhou para ele. Renato não desviou.

— E eu conto quantos segundos ele demora para notar — ela disse.

Lígia anotou alguma coisa. Nenhum dos dois pediu para ver.

Não tinham mais a regra antiga. Tinham combinações menores, menos brilhantes e mais chatas. Clara não mantinha conversas ambíguas. Quando sentia o corpo procurando o risco, escrevia no caderno. Nem sempre mostrava a Renato. Às vezes mostrava depois. Às vezes dizia apenas:

— Hoje eu percebi uma coisa e saí antes.

Renato perguntava:

— Quer falar?

Nem sempre ela queria.

Nem sempre ele aguentava não querer saber.

Houve recaídas pequenas, se pequenas fosse uma palavra permitida. Um olhar sustentado tempo demais numa padaria. Uma mensagem de Mauro pelo canal profissional, respondida com secura e encaminhada à diretora. Uma noite em que Clara sonhou com André e acordou culpada, como se sonho fosse contrato. Renato também tinha seus retornos. Dias em que ficava olhando para o celular dela sem disfarce. Dias em que dizia tudo bem com uma voz que não combinava com as palavras. Uma vez, depois de uma discussão curta, saiu para andar e voltou com pão, leite e um buquê barato de flores de mercado.

— Isso é pedido de desculpa? — Clara perguntou.

— É compra mal planejada.

— As flores também?

— Elas estavam perto do caixa e pareciam em pânico.

Ela colocou as flores num copo alto porque não tinham vaso limpo. Duraram quatro dias. O casamento, naquela fase, parecia isso: uma coisa colocada no recipiente possível, sem garantia de durar bonito.

No começo de dezembro, Marcos fez aniversário.

Marcos, o amigo que recebera Renato na noite depois de André, morava com a esposa, Camila, numa casa térrea alugada, com quintal comprido, churrasqueira nos fundos e uma área coberta onde sempre faltava tomada. Clara não queria ir. Renato também não. Disseram um ao outro isso na cozinha, com a sinceridade cansada de quem já não tinha energia para fingir disposição social.

— A gente pode inventar gripe — Clara disse.

— A Camila mandaria sopa.

— Dor nas costas.

— Marcos mandaria contato de fisioterapeuta.

— Viagem espiritual.

Renato pensou.

— Talvez eles respeitem.

Foram.

Levaram arroz de forno numa travessa funda, coberta por papel-alumínio. Clara preparou sem errar sal. Renato provou antes, depois provou de novo, alegando auditoria. No carro, a travessa foi no colo dela. A maçaneta emperrou na saída do prédio e Renato deu a volta para abrir por fora.

— Sua filosofia falhou — ela disse.

— Minha filosofia é processual.

— Sua filosofia é uma porta quebrada.

Ele riu. Clara também. O riso dos dois durou um pouco mais que o necessário, talvez pelo alívio de não doer.

A casa de Marcos já estava cheia quando chegaram. Havia crianças correndo pelo corredor, um cachorro pequeno latindo para ninguém, música antiga saindo de uma caixa na janela da sala. Camila recebeu Clara com um abraço e pegou a travessa como se fosse um recém-nascido.

— Você salvou a mesa.

— Espera provar.

— Se tiver queijo, está salvo.

Marcos abraçou Renato com uma palmada nas costas e olhou para ele por meio segundo a mais. Não perguntou nada. Clara percebeu e gostou dele por isso. Havia pessoas que sabiam guardar uma pergunta no bolso.

Durante a primeira hora, funcionaram bem.

Renato ajudou a arrumar garrafas num balde com gelo. Clara cortou limões na cozinha ao lado de Camila e de uma prima dela que falava alto sobre escola pública, IPTU e o preço absurdo do coentro. Alguém elogiou o arroz de forno. Renato, da área da churrasqueira, apontou para Clara como quem apresentava a autora de uma obra séria. Ela fez uma reverência pequena com a faca na mão. Camila mandou guardar a faca antes que virasse notícia.

Era possível. Difícil, ainda assim possível. Estar numa casa cheia sem que cada corredor fosse ameaça. Rir de uma história de Marcos sobre o dia em que Renato dormira numa aula de cálculo. Ver Renato negar com indignação falsa. Sentir a mão dele nas costas dela quando passou pela sala estreita, não para marcar território, não para vigiar, só para pedir licença no corpo conhecido.

Clara bebeu uma taça de vinho. Depois água. Depois outra água. Queria chegar inteira ao fim da noite. Reparou nisso e quase contou a Renato. Não contou. Algumas vitórias perdiam força quando viravam prestação de contas imediata.

No fim da tarde, a chuva ameaçou e não caiu. O céu ficou baixo, cor de alumínio velho. As crianças foram para o quarto assistir desenho. Os adultos se espalharam entre sala, varanda e quintal. A churrasqueira soltava fumaça fina. Alguém colocou pagode mais baixo. Camila reclamou que aniversário em dezembro era injustiça porque todo mundo chegava já cansado do ano.

Clara foi buscar copos descartáveis na cozinha.

A casa tinha um corredor lateral que levava ao fundo, passando por uma porta estreita entre a cozinha e a área de serviço. Do lado de fora, havia uma torneira, baldes empilhados, um varal recolhido e uma pequena passagem para o quintal dos fundos, onde Marcos guardava ferramentas, sacos de carvão e uma bicicleta velha. Clara atravessou apenas até a prateleira onde Camila dissera que os copos estavam.

Quando voltou com o pacote na mão, encontrou Renato no meio do corredor.

— Te perdi — ele disse.

Não havia acusação na frase. Mesmo assim, os dois ouviram a história antiga dentro dela.

Clara ergueu os copos.

— Fui cumprir missão doméstica.

— Perigosa.

— Quase não voltei.

Renato sorriu, mas ficou olhando para ela. Clara entendeu que ele tinha vindo por hábito de cuidado e por resto de medo. As duas coisas moravam juntas agora. Ela não quis punir nenhuma.

— Estou aqui — disse.

— Eu sei.

— Sabe?

Ele respirou.

— Hoje sei.

Ela tocou a mão dele com o pacote de copos. Renato pegou metade, sem necessidade.

— Divisão de risco — ele disse.

— Copo compartilhado.

Voltaram para a sala. A frase não virou cena. Esse era um dos progressos.

Mais tarde, Marcos fez um brinde torto, com copo plástico e cerveja morna. Agradeceu a presença, reclamou dos quarenta e dois anos, disse que a casa estava aberta para quem quisesse fugir de parente em dezembro. Renato levantou o copo. Clara encostou o dela no dele antes de beber.

— Você está bem? — ele perguntou baixo.

Clara pensou antes de responder.

— Estou.

— Resposta curta.

— Resposta limpa.

Ele aceitou. Não pediu relatório.

Quando escureceu, a festa mudou de forma. As crianças cansaram. Alguns convidados foram embora. A música ficou mais baixa. Camila acendeu luzes amarelas na varanda, e os cantos da casa ganharam aquela intimidade perigosa dos fins de reunião, quando a noite deixou de ser pública e ainda não acabou. Clara ajudou a recolher pratos descartáveis. Renato foi com Marcos buscar gelo na área externa. Alguém derrubou refrigerante perto da porta, e a prima do coentro apareceu com pano e autoridade.

Clara estava colocando talheres usados num saco quando sentiu que alguém a observava.

Não virou de imediato.

O corpo percebeu antes da cabeça, como nas outras vezes, mas a percepção não veio com a mesma pressa. Veio mais baixa, quase triste. Ela levantou os olhos.

O homem estava perto da porta lateral, meio escondido pela passagem para a área de serviço. Não era bonito de um jeito que exigisse descrição. Tinha camisa escura, cabelo molhado de suor na testa, um copo na mão. Talvez fosse vizinho. Talvez amigo de Marcos. Talvez marido de alguém na sala. Clara não sabia. Ele olhou para ela e não desviou depressa.

Clara segurou o saco de talheres.

O primeiro pensamento foi Renato.

Não como polícia. Não como plateia. Como fato.

O segundo pensamento foi Lígia, perguntando onde começava o caminho.

O terceiro não teve palavra.

O homem inclinou a cabeça de leve, quase nada, na direção do corredor lateral. Não sorriu. Não chamou. Apenas deixou no ar uma possibilidade tão pequena que qualquer pessoa poderia negá-la depois.

Clara olhou para a sala.

Renato estava no quintal, de costas, rindo de alguma coisa que Marcos dizia perto da churrasqueira apagada. A luz amarela pegava o perfil dele. Havia um prato na mão, e uma mancha de molho na camiseta. Clara viu tudo com uma nitidez mansa.

Ela poderia chamá-lo.

Poderia atravessar a sala, tocar o braço dele e dizer: aconteceu um antes. Bem aqui. Agora. Poderia fazer isso sem drama, sem pedido de prêmio. Poderia também pegar a bolsa e pedir para irem embora. Poderia ficar onde estava até a sensação passar.

O homem da porta lateral não se mexeu.

Clara deixou o saco de talheres sobre a mesa.

Camila passou atrás dela carregando uma travessa.

— Amiga, você viu se ainda tem guardanapo lá no fundo?

Clara olhou para Camila. A pergunta era inocente. Quase ridícula.

— Eu vejo — Clara disse.

Pegou o pacote vazio da mesa, como justificativa ou tarefa. Não olhou para Renato de novo. Talvez porque se olhasse, voltasse. Talvez porque não quisesse transformar aquele segundo em pedido de socorro. Talvez porque uma parte dela ainda confundisse silêncio com liberdade.

Entrou pelo corredor lateral.

A luz da cozinha ficou atrás. A área de serviço cheirava a sabão em pó, carvão úmido e gordura fria. Havia uma vassoura encostada na parede, dois baldes, o varal recolhido como uma linha sem roupa. Clara ouviu a festa diminuindo a cada passo: risos, copos, uma criança chamando a mãe.

O homem já não estava na porta.

Ou estava mais adiante, perto dos fundos.

Clara parou antes da curva do corredor.

No quintal, Renato riu outra vez. Dessa vez o som veio mais distante, quase misturado à música. Clara tocou a aliança com o polegar. Não como promessa. Não como freio. Como quem confirma que uma coisa existe mesmo quando não resolve.

— Clara? — Camila chamou da cozinha.

— Já vou — ela respondeu.

Não sabia se respondeu alto o bastante.

À frente, a passagem para os fundos estava escura, mas não fechada.

Clara olhou uma vez para a luz da cozinha.

Depois foi.

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