A fronteira de outro mundo
O sol já ia alto no céu quando meu companheiro me despertou de um sono pesado e anunciou que o mingau estava pronto e que ainda havia tempo para um banho. O cheiro grato do bacon chiando entrou pela abertura da tenda.
— O rio continua subindo — disse ele —, e várias ilhas no meio da corrente desapareceram por completo. A nossa ilha está muito menor.
— Ainda resta lenha? — perguntei, sonolento.
— A lenha e a ilha terminam amanhã empatadas — riu ele —, mas há o bastante para nos durar até lá.
Mergulhei da ponta da ilha, que de fato se alterara muito em tamanho e forma durante a noite, e fui levado num instante até o ponto de desembarque diante da tenda. A água estava gelada, e as margens passavam voando como a paisagem vista de um trem expresso. Banhar-se nessas condições era uma operação estimulante, e o terror da noite pareceu ser expelido de mim por algum processo de evaporação no cérebro.
O sol ardia forte; nem uma nuvem se mostrava em parte alguma; o vento, contudo, não havia diminuído um só nada.
Então, de repente, o sentido implícito das palavras do sueco atravessou-me a mente, mostrando que ele já não desejava partir às pressas e mudara de opinião. “O bastante para nos durar até amanhã”: ele supunha que ficaríamos na ilha mais uma noite. Aquilo me pareceu estranho. Na véspera, ele estava tão decidido no sentido contrário. Como se dera a mudança?
Grandes desmoronamentos das margens aconteceram durante o café da manhã, com fortes baques na água e nuvens de borrifo que o vento trazia para dentro da nossa frigideira; meu companheiro falava sem parar sobre a dificuldade que os vapores Viena-Peste deviam ter para encontrar o canal durante a cheia. O estado de sua mente, porém, me interessava e impressionava muito mais que o estado do rio ou as dificuldades dos vapores. De algum modo, ele mudara desde a noite anterior.
Seu modo de agir era diferente, um pouco excitado, um pouco retraído, com certa suspeita na voz e nos gestos. Hoje, em sangue-frio, mal sei como descrevê-lo; naquele momento, lembro-me de estar bastante certo de uma coisa: ele ficara com medo.
Comeu muito pouco no café e, pela primeira vez, esqueceu-se de fumar seu cachimbo. Tinha o mapa aberto ao lado e examinava sem descanso suas marcas.
— É melhor sairmos em uma hora — disse eu pouco depois, procurando uma abertura que de algum modo o trouxesse, ainda que indiretamente, a uma confissão parcial. Sua resposta me perturbou.
— Claro, se nos deixarem.
— Quem nos deixará? Os elementos? — perguntei depressa, fingindo indiferença.
— Os poderes deste lugar terrível, sejam eles quem forem — respondeu, mantendo os olhos no mapa. — Os deuses estão aqui, se é que estão em alguma parte do mundo.
— Os elementos sempre são os verdadeiros imortais — respondi, rindo tão naturalmente quanto consegui, embora soubesse muito bem que meu rosto mostrava meus sentimentos reais quando ele ergueu os olhos, grave, e falou através da fumaça:
— Teremos sorte se sairmos daqui sem outro desastre.
Era exatamente isso que eu temia, e me obriguei a formular a pergunta direta. Era como consentir que o dentista arrancasse o dente; em algum momento teria de acontecer, e o resto era fingimento.
— Outro desastre! Por quê? O que aconteceu?
— Para começar, o remo de governo desapareceu — disse ele, em voz baixa.
— O remo de governo desapareceu! — repeti, muito excitado, pois aquele era nosso leme, e o Danúbio em cheia sem leme era suicídio. — Mas o que...
— E há um rasgo no fundo da canoa — acrescentou, com um pequeno tremor verdadeiro na voz.
Continuei olhando para ele, capaz apenas de repetir as palavras diante de seu rosto, de um modo um tanto tolo. Ali, no calor do sol e sobre a areia ardente, senti uma atmosfera gelada descer ao nosso redor. Levantei-me para segui-lo, pois ele apenas assentiu gravemente com a cabeça e abriu caminho até a tenda, a poucos passos do outro lado da fogueira. A canoa ainda estava ali, como eu a vira pela última vez à noite, com as costelas para cima; os remos, ou melhor, o remo, ao lado dela sobre a areia.
— Só há um — disse ele, abaixando-se para apanhá-lo. — E aqui está o rasgo na tábua do fundo.
Estive a ponto de lhe dizer que algumas horas antes eu havia notado claramente dois remos; um segundo impulso me fez reconsiderar, e nada disse. Aproximei-me para ver.
Havia no fundo da canoa um rasgo comprido e fino, feito com precisão, de onde uma lasca estreita de madeira fora retirada limpa e inteiramente; parecia que o dente de uma pedra aguda ou de algum tronco submerso a havia roído no comprimento, e o exame mostrou que o buraco atravessava a madeira. Se a tivéssemos lançado à água sem percebê-lo, inevitavelmente teríamos afundado.
De início, a água faria a madeira inchar e fechar o rasgo; uma vez no meio da corrente, porém, a água entraria em volume, e a canoa, que nunca ficava mais que dois dedos acima da superfície, encheria e afundaria muito depressa.
— Aí está uma tentativa de preparar uma vítima para o sacrifício — ouvi-o dizer, mais para si mesmo que para mim. — Duas vítimas, na verdade — acrescentou, enquanto se curvava e passava os dedos pela fenda.
Comecei a assobiar, coisa que faço sempre, sem perceber, quando fico inteiramente desnorteado, e fiz questão de não dar atenção às palavras dele. Estava decidido a considerá-las tolas.
— Isso não estava aí ontem à noite — disse ele pouco depois, endireitando-se depois do exame e olhando para qualquer lugar menos para mim.
— Devemos tê-la arranhado ao desembarcar, claro — parei de assobiar para dizer. — As pedras são muito afiadas.
Calei-me de repente, pois naquele instante ele se virou e encontrou meus olhos em cheio. Eu sabia tão bem quanto ele que minha explicação era impossível. Para começo, não havia pedras.
— E há isto também para explicar — acrescentou, em voz baixa, entregando-me o remo e apontando para a pá.
Uma emoção nova e estranha espalhou-se sobre mim com frio quando a tomei e a examinei. A pá estava raspada por toda parte, raspada de modo perfeito, como se alguém a tivesse lixado com cuidado, deixando-a tão fina que a primeira remada vigorosa a quebraria junto ao encaixe.
— Um de nós andou dormindo e fez isso — disse eu, sem força —, ou então... ou então foi desgastada pelo fluxo constante de partículas de areia lançadas contra ela pelo vento, talvez.
— Ah — disse o sueco, afastando-se e rindo um pouco —, você consegue explicar tudo.
— O mesmo vento que apanhou o remo de governo e o lançou tão perto da margem que ele caiu na água com o próximo pedaço de barranco que desabou — gritei atrás dele, absolutamente decidido a encontrar uma explicação para tudo o que me mostrasse.
— Entendo — gritou ele de volta, virando a cabeça para olhar-me antes de desaparecer entre os arbustos de salgueiro.
Sozinho com aquelas provas desconcertantes de ação pessoal, creio que meus primeiros pensamentos tomaram a forma de uma frase simples: um de nós deve ter feito aquilo, e certamente não fui eu. O segundo pensamento decidiu o quanto era impossível supor, em todas aquelas circunstâncias, que qualquer um de nós o tivesse feito. A ideia de que meu companheiro, amigo confiável de uma dúzia de expedições semelhantes, pudesse ter participado conscientemente daquilo não merecia um instante de consideração.
Parecia igualmente absurda a explicação de que aquela natureza imperturbável e densamente prática houvesse enlouquecido de repente e se ocupado de propósitos insanos.
Ainda assim, o fato permanecia: aquilo que mais me perturbava e mantinha meu medo ativamente vivo, mesmo sob aquele clarão de sol e beleza selvagem, era a certeza clara de que alguma alteração curiosa se dera em sua mente. Ele estava nervoso, tímido, desconfiado, consciente de acontecimentos sobre os quais não falava, atento a uma série de fatos secretos e até então impronunciáveis, esperando, em suma, um clímax que ele aguardava e, eu julgava, aguardava muito em breve. Essa noção cresceu intuitivamente em mim, mal sei como.
Fiz um exame apressado da tenda e de seus arredores, mas as medições da noite permaneciam as mesmas. Notei então, pela primeira vez, profundas cavidades formadas na areia, em forma de bacia e de várias profundidades e tamanhos, desde a dimensão de uma xícara de chá até a de uma tigela grande. O vento, sem dúvida, era responsável por essas pequenas crateras, assim como fora responsável por levantar o remo e arremessá-lo na direção da água.
O rasgo na canoa era a única coisa que parecia inteiramente inexplicável; e, afinal, era concebível que alguma ponta aguda o tivesse aberto quando desembarcamos.
O exame que fiz da margem não ajudou essa teoria; apesar disso, agarrei-me a ela com a parte cada vez menor da minha inteligência que eu chamava de razão. Uma explicação de algum tipo era necessidade absoluta, assim como alguma explicação funcional do universo é necessária, por mais absurda que seja, à felicidade de todo indivíduo que procura cumprir seu dever no mundo e enfrentar os problemas da vida. A comparação pareceu-me, naquele momento, um paralelo exato.
Pus logo o piche para derreter, e pouco depois o sueco juntou-se a mim no trabalho, embora, nas melhores condições possíveis, a canoa não pudesse estar segura para viagem antes do dia seguinte. Chamei casualmente sua atenção para as cavidades na areia.
— Sim — disse ele —, eu sei. Estão por toda a ilha. Mas você consegue explicá-las, sem dúvida!
— Vento, claro — respondi sem hesitação. — Você nunca viu aqueles pequenos redemoinhos na rua, que torcem e giram tudo em círculo? Esta areia é solta o bastante para ceder, só isso.
Ele não respondeu, e trabalhamos em silêncio por algum tempo. Eu o observava às escondidas o tempo todo, e tinha a impressão de que ele também me observava. Parecia, além disso, estar sempre atento a alguma coisa que eu não ouvia, ou talvez a alguma coisa que esperava ouvir, pois a todo instante se virava e fitava os arbustos, o céu e a água visível pelas aberturas entre os salgueiros.
Às vezes, até levava a mão ao ouvido e a mantinha ali por vários minutos. Não me disse nada sobre isso, e não fiz perguntas. Enquanto isso, ao vê-lo consertar a canoa rasgada com a habilidade e a destreza de um indígena, fiquei contente em notar sua absorção no trabalho, pois havia em meu coração um temor vago de que ele falasse do aspecto alterado dos salgueiros. Se ele tivesse notado aquilo, minha imaginação já não bastaria como explicação.
Por fim, depois de uma longa pausa, começou a falar.
— Coisa esquisita — acrescentou, com uma voz apressada, como se quisesse dizer algo e livrar-se logo daquilo. — Coisa esquisita. Quero dizer, sobre aquela lontra ontem à noite.
Eu esperava algo tão completamente diferente que ele me pegou de surpresa, e ergui os olhos depressa.
— Mostra como este lugar é solitário. Lontras são criaturas muito ariscas...
— Não é isso que quero dizer, claro — interrompeu. — Quero dizer... você acha... achou mesmo que era uma lontra?
— O que mais poderia ser, em nome do céu? O que mais?
— Sabe, eu a vi antes de você, e no começo pareceu... muito maior que uma lontra.
— O pôr do sol, visto contra a corrente, aumentou o tamanho dela, ou algo assim — respondi.
Ele me olhou distraído por um momento, como se a mente estivesse ocupada com outros pensamentos.
— Tinha olhos amarelos extraordinários — continuou, meio para si mesmo.
— Isso também era o sol — ri, um tanto alto demais. — Suponho que agora você vai se perguntar se aquele sujeito no barco...
Decidi de súbito não terminar a frase. Ele outra vez estava no ato de escutar, virando a cabeça para o vento, e alguma coisa na expressão de seu rosto me fez parar. O assunto morreu, e continuamos a calafetação. Aparentemente, ele não notara minha frase interrompida. Cinco minutos depois, porém, olhou para mim por cima da canoa, o piche fumegante na mão, o rosto extremamente grave.
— Eu me perguntei mesmo, se quer saber — disse devagar —, o que era aquela coisa no barco. Lembro-me de pensar, naquele momento, que aquilo não era um homem. A coisa toda pareceu erguer-se de repente da água.
Ri outra vez em seu rosto, em tom alto, mas desta vez havia impaciência, e também uma ponta de raiva, no que eu sentia.
— Escute aqui — exclamei —, este lugar já é esquisito o bastante sem que a gente saia caçando coisas imaginadas! Aquele barco era um barco comum, e o homem nele era um homem comum, e os dois desciam a corrente na maior velocidade possível. E aquela lontra era uma lontra; vamos parar de brincar de tolos com isso!
Ele me olhou fixamente com a mesma expressão grave. Não parecia nem um pouco ofendido. Tomei coragem a partir de seu silêncio.
— E, pelo amor de Deus — continuei —, não fique fingindo que ouve coisas, porque isso me deixa aos pulos, e não há nada para ouvir além do rio e deste maldito vento velho e trovejante.
— Seu tolo! — respondeu, numa voz baixa e chocada. — Seu perfeito tolo. É exatamente assim que todas as vítimas falam. Como se você não entendesse tão bem quanto eu! — zombou, com desprezo na voz e uma espécie de resignação. — A melhor coisa que você pode fazer é ficar quieto e tentar manter a mente o mais firme possível. Essa tentativa fraca de enganar a si mesmo só torna a verdade mais dura quando você é obrigado a encará-la.
Meu pequeno esforço terminou, e não encontrei mais nada a dizer, pois eu sabia muito bem que suas palavras eram verdadeiras, e que o tolo era eu, não ele. Até certo ponto da aventura, ele estivera facilmente à minha frente, e creio que senti irritação por ficar de fora, por ser assim provado menos psíquico, menos sensível que ele diante daqueles acontecimentos extraordinários, e meio ignorante, o tempo todo, do que se passava bem debaixo do meu nariz. Ao que parecia, ele soubera desde o princípio.
Naquele momento, contudo, eu ainda não compreendia a importância de suas palavras sobre a necessidade de haver uma vítima, e sobre o fato de nós mesmos estarmos destinados a satisfazer essa exigência. Dali em diante abandonei todo fingimento; dali em diante, também, meu medo aumentou sem cessar até o clímax.
— Mas você está certíssimo sobre uma coisa — acrescentou, antes que o assunto passasse —: é mais sábio não falarmos disso, nem sequer pensarmos nisso, porque o que se pensa encontra expressão em palavras, e o que se diz acontece.
Naquela tarde, enquanto a canoa secava e endurecia, passamos o tempo tentando pescar, testando o vazamento, recolhendo lenha e observando a enorme cheia em ascensão. Massas de madeira arrastada passavam às vezes perto das margens, e nós as pescávamos com longos ramos de salgueiro. A ilha diminuía visivelmente à medida que as margens eram arrancadas com grandes mordidas e baques na água. O tempo permaneceu brilhantemente claro até por volta das quatro horas; então, pela primeira vez em três dias, o vento deu sinais de enfraquecer.
Nuvens começaram a juntar-se no sudoeste, espalhando-se dali lentamente pelo céu.
A diminuição do vento trouxe grande alívio, pois o rugido, os golpes e o trovão incessantes haviam irritado nossos nervos. Ainda assim, o silêncio que veio por volta das cinco horas, com a cessação súbita, era de certo modo igualmente opressivo. O estrondo do rio passou a ocupar tudo sozinho; enchia o ar de murmúrios profundos, mais musicais que os ruídos do vento, porém infinitamente mais monótonos.
O vento tinha muitas notas, subindo, descendo, sempre batendo alguma espécie de grande melodia elementar; já a canção do rio se mantinha entre três notas, quando muito, notas pedais abafadas que carregavam uma qualidade lúgubre, estranha ao vento, e que de algum modo, em meu estado nervoso de então, pareciam tocar muito bem a música da perdição.
Foi extraordinário, também, como a retirada súbita da luz forte do sol arrancou da paisagem tudo o que contribuía para a alegria; e como aquela paisagem particular já conseguira transmitir a sugestão de algo sinistro, a mudança, naturalmente, tornou-se ainda mais indesejada e perceptível.
Para mim, sei que o aspecto escurecido se tornou nitidamente mais alarmante, e mais de uma vez me vi calculando quanto tempo depois do pôr do sol a lua cheia se ergueria no leste, e se as nuvens que se reuniam interfeririam muito na iluminação da pequena ilha.
Com aquela quietude geral do vento, embora ele ainda se permitisse breves rajadas ocasionais, o rio pareceu-me ficar mais negro, e os salgueiros, mais densamente agrupados. Estes, por sua vez, mantinham uma espécie de movimento independente, farfalhando entre si quando nenhum vento mexia, e sacudindo-se de modo estranho desde as raízes para cima.
Quando objetos comuns se carregam assim de sugestão de horror, estimulam a imaginação muito mais que coisas de aparência incomum; e esses arbustos, amontoados junto de nós, assumiam para mim, na escuridão, uma aparência de estranha deformidade que lhes dava, de algum modo, o aspecto de criaturas vivas e intencionais. Sua própria banalidade, eu sentia, ocultava aquilo que havia de maligno e hostil contra nós. As forças da região se aproximavam com a chegada da noite.
Concentravam-se sobre nossa ilha e, mais particularmente, sobre nós. Pois era assim, de algum modo, nos termos da imaginação, que minhas sensações de fato indescritíveis naquele lugar extraordinário se apresentavam.
Eu dormira bastante no começo da tarde e me recuperara um pouco da exaustão de uma noite perturbada; isso, porém, pareceu apenas tornar-me mais suscetível que antes ao encanto obsessivo daquela assombração. Lutei contra ele, rindo de meus sentimentos como absurdos e infantis, com explicações fisiológicas muito óbvias; apesar de todos os esforços, eles ganhavam força em mim, até que passei a temer a noite como uma criança perdida numa floresta deve temer a aproximação da escuridão.
Durante o dia, havíamos coberto a canoa com cuidado usando uma lona impermeável, e o único remo restante fora amarrado firmemente pelo sueco à base de uma árvore, para que o vento também não o roubasse. A partir das cinco horas, ocupei-me com a panela de ensopado e com os preparativos do jantar, pois era minha vez de cozinhar naquela noite.
Tínhamos batatas, cebolas, pedaços de gordura de bacon para dar sabor, e um resíduo geral espesso de ensopados anteriores no fundo da panela; com pão preto quebrado dentro, o resultado ficou excelente, seguido por um cozido de ameixas com açúcar e uma infusão de chá forte com leite em pó. Uma boa pilha de lenha estava perto, e a ausência de vento facilitava minhas tarefas.
Meu companheiro ficou sentado com preguiça, observando-me, dividindo sua atenção entre limpar o cachimbo e dar conselhos inúteis, privilégio admitido do homem de folga. Passara a tarde muito calado, ocupado em calafetar novamente a canoa, reforçar as cordas da tenda e pescar madeira arrastada enquanto eu dormia.
Não havíamos trocado mais palavras sobre coisas indesejáveis, e creio que suas únicas observações diziam respeito à destruição gradual da ilha, que ele declarou estar nem bem um terço menor que quando desembarcamos.
A panela acabara de começar a borbulhar quando ouvi sua voz chamando-me da margem, para onde ele se afastara sem que eu percebesse. Corri até lá.
— Venha escutar — disse ele —, e veja o que acha disso.
Mantinha a mão em concha junto ao ouvido, como tantas vezes antes.
— Agora você ouve alguma coisa? — perguntou, observando-me com curiosidade.
Ficamos ali, escutando atentamente juntos. No começo, ouvi apenas a nota profunda da água e os silvos que subiam de sua superfície turbulenta. Os salgueiros, por uma vez, estavam imóveis e silenciosos. Então um som começou a alcançar meus ouvidos, fraco, peculiar, algo como o zumbido de um gongo distante. Parecia vir até nós, através da escuridão, do ermo de pântanos e salgueiros da margem oposta.
Repetia-se em intervalos regulares, mas certamente não era o som de um sino nem o apito de algum vapor distante. Não consigo compará-lo a nada tanto quanto ao som de um gongo imenso, suspenso muito alto no céu, repetindo sem cessar sua nota metálica abafada, suave e musical, à medida que era golpeado vez após vez. Meu coração acelerou enquanto eu escutava.
— Ouvi isso o dia inteiro — disse meu companheiro. — Enquanto você dormia esta tarde, ele veio por toda a ilha. Fui atrás, mas nunca consegui chegar perto o bastante para ver, para localizá-lo corretamente. Às vezes estava acima da cabeça; às vezes parecia vir debaixo da água. Uma ou duas vezes, também, eu poderia jurar que não estava fora de mim, mas dentro de mim mesmo, você entende, do modo como se supõe que um som na quarta dimensão venha.
Eu estava intrigado demais para prestar muita atenção às suas palavras. Escutei com cuidado, tentando associar aquilo a qualquer som conhecido e familiar que me ocorresse, mas sem sucesso. Também mudava de direção, chegando mais perto e depois afundando completamente numa distância remota. Não posso dizer que sua qualidade fosse agourenta, pois para mim soava distintamente musical; ainda assim, admito que ele pôs em movimento uma sensação angustiante que me fez desejar nunca tê-lo ouvido.
— O vento soprando naqueles funis de areia — disse eu, decidido a encontrar uma explicação —, ou talvez os arbustos esfregando uns nos outros depois da tempestade.
— Vem do pântano inteiro — respondeu meu amigo. — Vem de todos os lugares ao mesmo tempo. — Ignorou minhas explicações. — Vem dos arbustos de salgueiro de algum modo...
— Mas agora o vento parou — objetei. — Os salgueiros mal poderiam produzir ruído por si mesmos, poderiam?
Sua resposta me assustou, primeiro porque eu a temera, e depois porque soube intuitivamente que era verdadeira.
— É porque o vento parou que agora podemos ouvi-lo. Antes ele estava encoberto. É o grito, acredito, dos...
Disparei de volta para o fogo, avisado pelo som do borbulhar de que o ensopado estava em perigo, e decidido ao mesmo tempo a escapar de mais conversa. Eu estava resolvido, se possível, a evitar a troca de opiniões. Temia, além disso, que ele começasse a falar dos deuses, ou das forças elementares, ou de alguma outra coisa inquietante, e queria manter-me bem controlado para o que pudesse acontecer mais tarde.
Havia outra noite a enfrentar antes que escapássemos daquele lugar angustiante, e ainda não se sabia o que ela poderia trazer.
— Venha cortar pão para a panela — chamei, mexendo vigorosamente a mistura apetitosa. Aquela panela de ensopado representava sanidade para nós dois, e o pensamento me fez rir.
Ele veio devagar e pegou o saco de provisões na árvore, remexendo em suas profundezas misteriosas; em seguida esvaziou todo o conteúdo sobre a lona aos seus pés.
— Depressa! — gritei. — Está fervendo.
O sueco explodiu numa gargalhada que me assustou. Era um riso forçado, não artificial exatamente, mas sem alegria.
— Não há nada aqui! — gritou, segurando as costelas.
— Quero dizer pão.
— Sumiu. Não há pão. Eles o levaram!
Larguei a colher comprida e corri até ele. Tudo o que o saco continha estava espalhado sobre a lona, mas não havia pão.
O peso morto inteiro do meu medo crescente caiu sobre mim e me sacudiu. Então comecei a rir também. Era a única coisa a fazer; e o som do meu riso também me fez compreender o dele. A tensão da pressão psíquica causava aquilo: essa explosão de riso anormal em nós dois; era um esforço de forças reprimidas procurando alívio; uma válvula de segurança temporária. Em ambos, cessou de modo repentino.
— Que estupidez criminosa a minha! — exclamei, ainda decidido a ser coerente e encontrar uma explicação. — Esqueci completamente de comprar um pão em Pressburg. Aquela mulher tagarela me tirou tudo da cabeça, e devo tê-lo deixado no balcão ou...
— A aveia também está bem menor que esta manhã — interrompeu o sueco.
Por que diabos precisava chamar atenção para isso?, pensei, irritado.
— Há o bastante para amanhã — disse, mexendo com força —, e podemos comprar muito mais em Komorn ou Gran. Em vinte e quatro horas estaremos a milhas daqui.
— Espero que sim, por Deus — murmurou ele, guardando as coisas de volta no saco —, a menos que nos reclamem primeiro como vítimas para o sacrifício — acrescentou, com uma risada tola.
Arrastou o saco para dentro da tenda, por segurança, suponho, e ouvi-o resmungar consigo mesmo, mas de modo tão indistinto que me pareceu natural ignorar suas palavras.
Nossa refeição foi, sem dúvida, sombria, e comemos quase em silêncio, evitando os olhos um do outro e mantendo o fogo claro. Depois lavamos as coisas e nos preparamos para a noite; uma vez que começamos a fumar, com as mentes livres de qualquer tarefa definida, a apreensão que eu sentira o dia inteiro tornou-se cada vez mais aguda. Não era então medo ativo, creio, mas a própria vagueza de sua origem me angustiava muito mais do que aconteceria se eu pudesse dar-lhe um nome e encará-la de frente.
O som curioso que comparei à nota de um gongo tornou-se agora quase incessante e encheu a quietude da noite com um tinido fraco e contínuo, mais que com uma série de notas distintas. Em certo momento estava atrás de nós, em outro à frente. Às vezes eu imaginava que vinha dos arbustos à nossa esquerda; depois, dos tufos à direita. Mais frequentemente pairava direto sobre nossas cabeças, como o zumbido de asas.
Estava realmente em toda parte ao mesmo tempo: atrás, à frente, dos lados e acima de nossas cabeças, envolvendo-nos por completo. O som desafia de fato a descrição. Nada dentro do meu conhecimento se assemelha àquele zumbido abafado e incessante que subia do mundo abandonado de pântanos e salgueiros.
Ficamos fumando em silêncio relativo, a tensão aumentando a cada minuto. O pior traço da situação parecia-me ser o fato de não sabermos o que esperar; assim, nenhuma preparação de defesa era possível. Nada podíamos antecipar. Minhas explicações feitas à luz do sol, além disso, voltavam agora para me assombrar com sua natureza tola e inteiramente insatisfatória, e ficava cada vez mais claro para nós que algum tipo de conversa franca com meu companheiro seria inevitável, gostasse eu ou não.
Afinal, teríamos de passar a noite juntos e dormir lado a lado na mesma tenda. Percebi que não conseguiria ir muito mais longe sem o apoio de sua mente, e, para isso, claro, uma conversa franca era indispensável. Enquanto pude, porém, adiei esse pequeno clímax e tentei ignorar ou rir das frases ocasionais que ele lançava no vazio.
Algumas dessas frases, além disso, eram infernalmente inquietantes para mim, pois vinham corroborar muito do que eu mesmo sentia. E corroborar, o que as tornava muito mais convincentes, a partir de um ponto de vista totalmente diferente. Ele compunha frases curiosas e as arremessava a mim de modo tão inconsequente, como se sua linha principal de pensamento permanecesse secreta até para ele, e esses fragmentos fossem simples pedaços impossíveis de digerir. Livrava-se deles falando. A fala o aliviava.
Era como vomitar.
— Há coisas ao nosso redor, tenho certeza, que tendem à desordem, à desintegração, à destruição, nossa destruição — disse uma vez, enquanto o fogo ardia entre nós. — Saímos de alguma linha segura em algum ponto.
E, em outro momento, quando os sons de gongo se aproximaram, soando muito mais alto que antes, diretamente sobre nossas cabeças, disse como se falasse consigo mesmo:
— Acho que um gramofone não registraria nada disso. O som não me chega pelos ouvidos. As vibrações me alcançam de uma maneira completamente diferente, e parecem estar dentro de mim, que é precisamente o modo como se poderia supor que um som de quarta dimensão se fizesse ouvir.
Fiz questão de não responder. Sentei-me um pouco mais perto do fogo e espiei a escuridão ao redor. As nuvens se acumulavam por todo o céu, e nenhum vestígio de luar passava. Tudo estava muito quieto também, de modo que o rio e os sapos dominavam sem concorrência.
— Há nele algo — continuou — que está completamente fora da experiência comum. É desconhecido. Só uma coisa o descreve de verdade: é um som não humano; quero dizer, um som fora da humanidade.
Tendo se livrado desse pedaço indigesto, permaneceu quieto por algum tempo; mas ele expressara tão bem meu próprio sentimento que foi um alívio ter o pensamento lançado para fora e limitado pelas palavras, impedido de vagar perigosamente de um lado a outro dentro da mente.
A solidão daquele acampamento no Danúbio, poderei esquecê-la algum dia? A sensação de estar absolutamente sozinho num planeta vazio. Meus pensamentos corriam sem cessar para cidades e lugares frequentados pelos homens. Eu teria dado a alma, como se diz, pelo toque daqueles povoados bávaros pelos quais havíamos passado às dezenas; pelas banalidades normais e humanas; camponeses bebendo cerveja, mesas sob as árvores, sol quente e um castelo em ruínas nas rochas atrás da igreja de telhado vermelho.
Até turistas teriam sido bem-vindos.
Ainda assim, o pavor que eu sentia não era um medo comum de fantasmas. Era infinitamente maior, mais estranho, e parecia surgir de algum senso ancestral e obscuro de terror, mais profundamente perturbador que qualquer coisa que eu tivesse conhecido ou sonhado. Havíamos nos desviado, como disse o sueco, para alguma região ou algum conjunto de condições em que os riscos eram grandes, embora ininteligíveis para nós; onde as fronteiras de algum mundo desconhecido nos cercavam de perto.
Era um ponto mantido pelos habitantes de algum espaço exterior, uma espécie de fresta de onde podiam espiar a Terra, eles mesmos invisíveis; um ponto em que o véu entre os dois lados se gastara um pouco. Como resultado final de uma permanência longa demais ali, seríamos carregados para além da fronteira e privados daquilo que chamávamos nossas vidas, embora por processos mentais, não físicos. Nesse sentido, como ele dissera, seríamos as vítimas de nossa aventura: um sacrifício.
Aquilo nos atingia de modos diferentes, conforme a medida da sensibilidade e das forças de resistência de cada um.
Eu o traduzia vagamente numa personificação dos elementos poderosamente perturbados, investindo-os com o horror de um propósito deliberado e maléfico, ressentido por nossa intrusão ousada em seu lugar de criação; meu amigo, por sua vez, lançava aquilo de início na forma pouco original de uma invasão a algum antigo santuário, algum lugar em que os velhos deuses ainda reinavam, onde as forças emocionais de antigos adoradores ainda se agarravam, e a porção ancestral dele cedia ao antigo encanto pagão.
De todo modo, ali estava um lugar sem poluição humana, mantido limpo pelos ventos contra influências humanas grosseiras, um lugar onde agentes espirituais se achavam ao alcance e agressivos. Nunca, antes nem depois, fui tão atacado por sugestões indescritíveis de uma região além, de outro esquema de vida, outra revolução sem paralelo com a humana. No fim, nossas mentes sucumbiriam sob o peso do encanto terrível, e seríamos atraídos através da fronteira para o mundo deles.
Coisas pequenas testemunhavam a influência espantosa do lugar, e agora, no silêncio ao redor do fogo, deixavam-se notar pela mente. A própria atmosfera se revelara um meio de ampliação capaz de distorcer todo sinal: a lontra rolando na corrente, o barqueiro apressado fazendo sinais, os salgueiros em mudança; todos haviam perdido seu caráter natural e revelado algo de seu outro aspecto, tal como existiam além da fronteira, naquela outra região.
E esse aspecto alterado, eu sentia, já não valia apenas para mim, mas para a raça. Toda a experiência em cuja margem tocávamos era desconhecida por completo da humanidade. Era uma nova ordem de experiência, e, no sentido verdadeiro da palavra, não terrena.
— É o propósito deliberado e calculado que reduz a coragem da gente a zero — disse o sueco de repente, como se de fato acompanhasse meus pensamentos. — De outro modo, a imaginação poderia valer muito. Mas o remo, a canoa, a comida diminuindo...
— Já não expliquei tudo isso uma vez? — interrompi com ferocidade.
— Explicou — respondeu, seco. — Explicou mesmo.
Fez também outras observações, como de costume, sobre o que chamava de clara determinação de providenciar uma vítima; mas, tendo agora organizado melhor meus pensamentos, reconheci que aquilo era simplesmente o grito de sua alma assustada diante do conhecimento de que estava sendo atacado numa parte vital, e de que seria de algum modo tomado ou destruído.
A situação pedia uma coragem e uma calma de raciocínio que nenhum de nós conseguia alcançar, e nunca antes tive consciência tão clara de duas pessoas dentro de mim: uma que explicava tudo, e outra que ria dessas explicações tolas, embora estivesse horrivelmente amedrontada.
Enquanto isso, na noite espessa, o fogo baixava e a pilha de lenha diminuía. Nenhum de nós se moveu para repor o estoque, e a escuridão, por consequência, chegou muito perto de nossos rostos. A poucos passos além do círculo de luz da fogueira, tudo era negro como tinta. De vez em quando uma rajada solta punha os salgueiros a estremecer ao nosso redor, mas, fora esse som pouco acolhedor, reinava um silêncio profundo e opressivo, quebrado apenas pelo gorgolejo do rio e pelo zumbido no ar acima.
Ambos sentíamos falta, creio, da companhia gritante dos ventos.
Por fim, num momento em que uma rajada solta se prolongou como se o vento estivesse para erguer-se outra vez, alcancei meu ponto de saturação, o ponto em que se tornava absolutamente necessário encontrar alívio em fala clara, ou então me trair por algum excesso histérico cujo efeito sobre nós dois seria muito pior. Chutei o fogo até fazê-lo subir em chama e virei-me abruptamente para meu companheiro. Ele ergueu os olhos com um sobressalto.
— Não consigo disfarçar mais — disse. — Não gosto deste lugar, nem da escuridão, nem dos ruídos, nem das sensações terríveis que tenho. Há algo aqui que me vence por completo. Estou apavorado, e esta é a verdade simples. Se a outra margem fosse diferente, juro que eu teria vontade de nadar até lá!
O rosto do sueco ficou muito branco sob o bronzeado profundo do sol e do vento. Ele me encarou e respondeu em voz baixa, embora a voz traísse sua enorme excitação por uma calma anormal. Por aquele momento, ao menos, ele era o homem forte entre nós. Era mais fleumático, para começar.
— Não é uma condição física da qual possamos escapar correndo — respondeu, no tom de um médico diagnosticando uma doença grave. — Precisamos ficar quietos e esperar. Há forças por perto capazes de matar uma manada de elefantes num segundo com a mesma facilidade com que você ou eu esmagaríamos uma mosca. Nossa única chance é permanecer perfeitamente imóveis. Talvez nossa insignificância nos salve.
Coloquei uma dúzia de perguntas na expressão do rosto, mas não encontrei palavras. Era exatamente como ouvir a descrição precisa de uma doença cujos sintomas haviam me confundido.
— Quero dizer que, até agora, embora conscientes de nossa presença perturbadora, eles não nos encontraram, não nos localizaram, como dizem os americanos — continuou. — Estão tateando como homens à procura de um vazamento de gás. O remo, a canoa e as provisões provam isso. Acho que nos sentem, mas não conseguem realmente nos ver. Precisamos manter nossas mentes quietas; são nossas mentes que eles sentem. Precisamos controlar os pensamentos, ou está tudo acabado para nós.
— Morte, você quer dizer? — balbuciei, gelado pelo horror de sua sugestão.
— Pior. Muito pior — disse. — A morte, conforme a crença de cada um, significa aniquilação ou libertação das limitações dos sentidos, mas não envolve mudança de caráter. A gente não se altera de repente só porque o corpo se foi. Isto significa uma alteração radical, uma mudança completa, uma perda horrível de si mesmo por substituição, muito pior que a morte, e nem sequer aniquilação.
Acampamos por acaso num ponto em que a região deles toca a nossa, onde o véu entre as duas se gastou — horrores! Ele estava usando minha própria frase, minhas palavras exatas —, de modo que eles sabem que estamos em sua vizinhança.
— Mas quem sabe? — perguntei.
Esqueci o tremor dos salgueiros na calma sem vento, o zumbido acima, tudo, exceto o fato de que eu esperava uma resposta que temia mais do que posso explicar.
Ele baixou a voz imediatamente para responder, inclinando-se um pouco sobre o fogo, com uma mudança indefinível no rosto que me fez evitar seus olhos e olhar para o chão.
— Durante toda a minha vida — disse —, tenho tido uma consciência estranha e vívida de outra região, não muito afastada do nosso mundo em certo sentido, mas inteiramente diferente em espécie, onde grandes coisas acontecem sem cessar, onde personalidades imensas e terríveis passam apressadas, empenhadas em vastos propósitos diante dos quais os negócios da Terra, a ascensão e a queda das nações, os destinos dos impérios, o fim dos exércitos e continentes, são todos como pó na balança. Vastíssimos propósitos, quero dizer, que tratam diretamente da alma, e não indiretamente de meras expressões da alma...
— Sugiro que agora... — comecei, buscando detê-lo, sentindo-me como se estivesse diante de um louco. Ele me atropelou de imediato com a torrente que precisava sair.
— Você pensa — disse — que é o espírito dos elementos, e eu pensei talvez que fossem os velhos deuses. Agora lhe digo que não é nem uma coisa nem outra. Esses seriam seres compreensíveis, pois têm relações com os homens, dependem deles para culto ou sacrifício; já esses seres que agora estão ao nosso redor nada têm absolutamente a ver com a humanidade, e é mero acaso que seu espaço aconteça justamente neste ponto tocar o nosso.
A simples concepção, que suas palavras de algum modo tornaram tão convincente enquanto eu as ouvia ali, na quietude escura daquela ilha solitária, pôs-me a tremer um pouco por inteiro. Achei impossível controlar meus movimentos.
— E o que você propõe? — comecei de novo.
— Um sacrifício, uma vítima, poderia nos salvar, distraindo-os até que pudéssemos escapar — prosseguiu —, assim como os lobos param para devorar os cães e dão ao trenó outra oportunidade de avançar. Mas... não vejo agora chance de outra vítima.
Fitei-o sem compreensão. O brilho em seus olhos era terrível. Depois de um instante, continuou.
— São os salgueiros, claro. Os salgueiros mascaram os outros, mas os outros estão tateando à nossa procura. Se deixarmos nossas mentes revelar medo, estaremos perdidos, inteiramente perdidos. — Olhou para mim com uma expressão tão calma, tão decidida, tão sincera, que já não tive dúvida alguma quanto à sua sanidade. Era são como qualquer homem jamais foi. — Se resistirmos durante a noite — acrescentou —, talvez consigamos sair à luz do dia sem sermos notados, ou melhor, sem sermos descobertos.
— Mas você realmente acha que um sacrifício poderia...
Aquele zumbido semelhante ao gongo desceu muito perto sobre nossas cabeças enquanto eu falava, mas foi o rosto assustado do meu amigo que de fato me calou.
— Silêncio! — sussurrou, erguendo a mão. — Não os mencione mais do que puder evitar. Não se refira a eles pelo nome. Nomear é revelar; é a pista inevitável, e nossa única esperança está em ignorá-los, para que eles nos ignorem.
— Mesmo em pensamento? — Ele estava extraordinariamente agitado.
— Especialmente em pensamento. Nossos pensamentos fazem espirais no mundo deles. Precisamos mantê-los fora de nossas mentes a todo custo, se for possível.
Juntei o fogo com o ancinho para impedir que a escuridão tomasse tudo para si. Nunca desejei o sol como o desejei então, naquela negrura terrível da noite de verão.
— Você ficou acordado a noite passada inteira? — continuou de repente.
— Dormi mal um pouco depois da aurora — respondi de modo evasivo, tentando seguir suas instruções, que eu sabia instintivamente serem verdadeiras —, mas o vento, claro...
— Eu sei. Mas o vento não explica todos os ruídos.
— Então você também ouviu?
— As pequenas passadas incontáveis se multiplicando, eu ouvi — disse ele, acrescentando após um momento de hesitação —, e aquele outro som...
— Quer dizer, acima da tenda, e a pressão sobre nós de algo imenso, gigantesco?
Ele assentiu de modo significativo.
— Era como o começo de uma espécie de sufocamento interior? — perguntei.
— Em parte, sim. Pareceu-me que o peso da atmosfera havia sido alterado, aumentado enormemente, de modo que seríamos esmagados.
— E aquilo — continuei, decidido a pôr tudo para fora, apontando para cima, onde a nota semelhante a gongo zumbia sem cessar, subindo e descendo como vento. — O que você faz daquilo?
— É o som deles — sussurrou, grave. — É o som do mundo deles, o zumbido na região deles. A separação aqui é tão fina que ele vaza de algum modo. Mas, se escutar com cuidado, verá que não está tanto acima de nós quanto ao nosso redor. Está nos salgueiros. São os próprios salgueiros zumbindo, porque aqui os salgueiros foram feitos símbolos das forças que estão contra nós.
Eu não conseguia acompanhar exatamente o que ele queria dizer com isso, mas o pensamento e a ideia em minha mente eram, sem dúvida, o pensamento e a ideia dele. Eu compreendia o que ele compreendia, apenas com menor poder de análise. Estava a ponto de lhe contar, enfim, minha alucinação das figuras ascendentes e dos arbustos em movimento, quando ele de repente aproximou novamente o rosto do meu através da luz do fogo e começou a falar num sussurro muito sério.
Espantou-me por sua calma e coragem, por seu aparente controle da situação. Aquele homem que durante anos eu julgara sem imaginação, pesado!
— Agora escute — disse. — A única coisa que podemos fazer é continuar como se nada tivesse acontecido, seguir nossos hábitos comuns, ir para a cama e assim por diante; fingir que nada sentimos e nada notamos. É uma questão inteiramente da mente, e quanto menos pensarmos neles, maiores serão nossas chances de escapar. Acima de tudo, não pense, pois o que você pensa acontece!
— Está bem — consegui responder, simplesmente sem fôlego com suas palavras e com a estranheza de tudo aquilo. — Está bem, vou tentar, mas me diga uma coisa antes. Diga-me o que você acha dessas cavidades no chão ao nosso redor, esses funis de areia.
— Não! — gritou, esquecendo-se de sussurrar em sua excitação. — Não ouso, simplesmente não ouso pôr esse pensamento em palavras. Se você ainda não adivinhou, fico contente. Não tente. Eles o puseram em minha mente; esforce-se ao máximo para impedir que o ponham na sua.
Baixou outra vez a voz até um sussurro antes de terminar, e eu não o pressionei por explicação. Já havia em mim tanto horror quanto eu conseguia suportar. A conversa terminou, e fumamos nossos cachimbos atarefadamente em silêncio.
Então algo aconteceu, algo aparentemente sem importância, como costuma acontecer quando os nervos estão num estado de tensão muito grande, e essa pequena coisa, por breve espaço, deu-me um ponto de vista inteiramente diferente. Aconteceu de eu olhar para baixo, para o meu sapato de areia, do tipo que usávamos na canoa, e alguma coisa ligada ao buraco na ponta me fez lembrar de repente a loja londrina onde eu os comprara, a dificuldade do vendedor para ajustá-los aos meus pés e outros detalhes daquela operação desinteressante e prática.
Logo em seguida, veio uma visão saudável do mundo moderno e cético em que eu costumava circular em casa. Pensei em rosbife e cerveja, automóveis, policiais, bandas de metais e uma dúzia de outras coisas que proclamavam a alma da normalidade ou da utilidade. O efeito foi imediato e espantoso até para mim.
Psicologicamente, suponho, era simplesmente uma reação súbita e violenta depois da tensão de viver numa atmosfera de coisas que, para a consciência normal, devem parecer impossíveis e inacreditáveis. Mas, fosse qual fosse a causa, por um momento ela ergueu o encanto de sobre meu coração e deixou-me, pelo curto espaço de um minuto, livre e sem medo algum. Olhei para meu amigo do outro lado.
— Seu maldito velho pagão! — exclamei, rindo alto em seu rosto. — Idiota imaginativo! Idólatra supersticioso! Seu...
Parei no meio, tomado de novo pelo antigo horror. Tentei abafar o som da minha voz como algo sacrílego. O sueco, claro, também o ouvira: o grito estranho no alto da escuridão e aquela queda súbita no ar, como se algo tivesse se aproximado.
Ele ficara branco como cinza sob o bronzeado. Estava de pé diante do fogo, rígido como uma vara, olhando para mim.
— Depois disso — disse, numa espécie de desamparo frenético —, precisamos ir embora! Não podemos ficar agora; precisamos levantar acampamento neste instante e seguir pelo rio abaixo.
Falava, percebi, de modo inteiramente desordenado, com palavras ditadas por terror abjeto, o terror a que resistira por tanto tempo, mas que afinal o agarrara.
— No escuro? — exclamei, tremendo de medo depois de minha explosão histérica, mas ainda percebendo nossa posição melhor que ele. — Loucura completa! O rio está em cheia e só temos um remo. Além disso, descemos apenas mais fundo no território deles! Não há nada adiante por cinquenta milhas além de salgueiros, salgueiros, salgueiros!
Ele tornou a sentar-se num estado de semicolapso. As posições, por uma dessas mudanças caleidoscópicas que a natureza ama, inverteram-se de repente, e o controle de nossas forças passou para minhas mãos. Sua mente, enfim, alcançara o ponto em que começava a enfraquecer.
— Que coisa na Terra o possuiu para fazer aquilo? — sussurrou, com o assombro do terror verdadeiro na voz e no rosto.
Contornei o fogo até seu lado. Tomei ambas as suas mãos nas minhas, ajoelhei-me ao lado dele e olhei direto para seus olhos assustados.
— Faremos mais uma boa chama — disse, firme —, e então vamos nos deitar para a noite. Ao nascer do sol, partiremos a toda velocidade para Komorn. Agora, recomponha-se um pouco e lembre-se do seu próprio conselho sobre não pensar no medo.
Ele não disse mais nada, e vi que concordaria e obedeceria. Em certa medida, também, foi uma espécie de alívio levantar e fazer uma excursão à escuridão em busca de mais lenha. Mantivemo-nos próximos um do outro, quase nos tocando, tateando entre os arbustos e ao longo da margem. O zumbido acima nunca cessava, mas parecia-me ficar mais alto à medida que aumentávamos a distância em relação ao fogo. Era um trabalho de dar arrepios.
Remexíamos no meio de um tufo bastante espesso de salgueiros, onde alguma madeira arrastada por uma cheia anterior ficara presa no alto dos ramos, quando meu corpo foi agarrado por uma força que me fez quase cair sobre a areia. Era o sueco. Havia tombado contra mim e me segurava para se apoiar. Ouvi sua respiração entrar e sair em arquejos curtos.
— Olhe! Pela minha alma! — sussurrou, e pela primeira vez em minha experiência soube o que era ouvir lágrimas de terror numa voz humana. Apontava para o fogo, a uns quinze metros de distância. Segui a direção de seu dedo e juro que meu coração falhou uma batida.
Ali, diante do brilho fraco, alguma coisa se movia.
Eu a vi através de um véu que pendia diante dos meus olhos como a cortina de gaze usada no fundo de um teatro, um pouco turva. Não era uma figura humana nem um animal. Dava-me a estranha impressão de ser grande como vários animais reunidos, cavalos, dois ou três, movendo-se devagar.
O sueco também obteve uma impressão semelhante, embora a expressasse de outro modo, pois achou que tinha a forma e o tamanho de um tufo de salgueiros, arredondado no topo e movendo-se por toda a superfície, enrolando-se sobre si mesmo como fumaça, disse depois.
— Eu a vi descer pelos arbustos — soluçou para mim. — Olhe, por Deus! Vem para cá! Ah, ah! — soltou uma espécie de grito assobiado. — Eles nos encontraram.
Lancei um olhar aterrorizado, que me permitiu apenas ver que a forma sombria balançava em nossa direção através dos arbustos, e então caí para trás com um estalo entre os ramos. Estes, claro, não sustentaram meu peso, de modo que, com o sueco por cima de mim, tombamos numa massa em luta sobre a areia. Na verdade, mal sabia o que estava acontecendo.
Eu só tinha consciência de uma sensação envolvente de medo gelado, que arrancava os nervos de sua cobertura de carne, torcia-os para cá e para lá, e os recolocava trêmulos. Meus olhos estavam apertadamente fechados; algo em minha garganta me sufocava; uma sensação de que minha consciência se expandia, estendendo-se pelo espaço, deu lugar rapidamente a outra sensação: a de que eu a perdia por completo e estava prestes a morrer.
Um espasmo agudo de dor passou por mim, e percebi que o sueco me segurava de um modo que me feria terrivelmente. Foi a maneira como se agarrou a mim ao cair.
Mais tarde, ele declarou que foi a dor que me salvou; fez-me esquecê-los e pensar em outra coisa justamente no instante em que estavam prestes a encontrar-me. Ocultou minha mente deles no momento da descoberta, ainda a tempo de escapar de sua terrível apreensão. Ele próprio, diz, desmaiou no mesmo instante, e isso o salvou.
Só sei que, em momento posterior, impossível dizer se muito ou pouco depois, encontrei-me saindo a custo da rede escorregadia de ramos de salgueiro, e vi meu companheiro de pé diante de mim, oferecendo uma mão para me ajudar. Olhei para ele atordoado, esfregando o braço que ele me torcera. De algum modo, nada me vinha para dizer.
— Perdi os sentidos por um ou dois momentos — ouvi-o dizer. — Foi isso que me salvou. Fez-me parar de pensar neles.
— Você quase partiu meu braço em dois — disse eu, expressando meu único pensamento coerente no momento. Uma dormência veio sobre mim.
— Foi isso que salvou você! — respondeu. — Entre nós dois, conseguimos desviá-los para uma pista falsa em algum lugar. O zumbido cessou. Foi embora, pelo momento, ao menos!
Uma onda de riso histérico me tomou outra vez, e desta vez espalhou-se também para meu amigo: grandes rajadas curativas de riso convulso que trouxeram consigo uma tremenda sensação de alívio. Voltamos para o fogo e pusemos a lenha sobre ele, de modo que as chamas se ergueram de imediato. Então vimos que a tenda havia caído e jazia numa massa emaranhada no chão.
Erguemo-la e, durante o processo, tropeçamos mais de uma vez e prendemos os pés na areia.
— São aqueles funis de areia — exclamou o sueco, quando a tenda estava de pé outra vez e a luz do fogo iluminava o chão por alguns metros ao redor. — E veja o tamanho deles!
Em volta de toda a tenda e ao redor da fogueira, onde havíamos visto as sombras em movimento, havia cavidades profundas em forma de funil na areia, exatamente semelhantes às que já havíamos encontrado pela ilha, só que muito maiores e mais fundas, formadas de modo perfeito, e largas o suficiente, em alguns casos, para receber meu pé e minha perna inteiros.
Nenhum de nós disse palavra. Ambos sabíamos que dormir era a coisa mais segura que podíamos fazer, e fomos para a cama sem mais demora, depois de jogar areia sobre o fogo e levar para dentro da tenda o saco de provisões e o remo. A canoa, também, apoiamos de tal modo na extremidade da tenda que nossos pés a tocavam, e o menor movimento a perturbaria e nos acordaria.
Para qualquer emergência, também fomos outra vez dormir vestidos, prontos para uma partida súbita.