Universo da obra
Universo da obra
A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo, fumava o seu conchita , com o olhar, ora na calçada, ora no espelho fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher.
O leão pensava:
--Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo.
Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria. Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o sorriso da moça.
Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:
--Que passo gracioso! É o andar da garça!
Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com effeito a fineza.
Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar:
--Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que esse andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?... Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado! Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher, sómente para que ella instituisse o beija-pé . Como eu seria cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito!
O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho fronteiro. Era Laura.
Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado?
A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado. Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um estado de perturbação indizivel.
--Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.
--Nada! balbuciou a moça.
A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria si caminhasse sobre rico tapete.
--Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões fluminenses?
O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito pensativo.
--É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar, atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a serpente tentadora da mulher.
Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava, e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de cortejal-a, ou antes a seu pésinho.
--Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.
Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante, na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas differentes lojas e casas de modas.
Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada:
--Trouxe?
--Sim, senhora; está ahi dentro.
--Bem!
O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse:
--Podiamos ir agora ao Passeio Publico ?
--Tão tarde! replicou Laura.
--Deixa-te disso! observou a mãi da moça.
--Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos.
--Não ha nada de novo.
--Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.
--Viste sim!
--Mas não reparei n'uma cousa!...
--Em que!
--Uma cousa. Depois direi.
Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que chegasse até o portão do Passeio Publico . As senhoras desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado ao seu.
Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do Passeio Publico . Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não se movêra.
A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.
Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da Quitanda; não havia duvida.
O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.
O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo que deixara no chão o mimoso pésinho.
Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o portão.
Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos.
--É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio de graça não podia enganar.
No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices; e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão de contentamento.
O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza, economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes.
Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas, sorriu.
--Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com luxo!
A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles, encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de Amelia.
Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro.
Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio.
Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois.
Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas palavras, no meio de uma conversa com o leão.
--Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite commigo.
Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua physionomia.
--É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu Horacio.
--Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia.
--Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa?
--É muito natural.
--Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse...
--Diga.
--Eu teria ciumes, D. Amelia.
A moça corou.
--Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo.
Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é tão risonha, que não illude.
--Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que o comprehenda.
Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia.
A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios.
Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte:
--Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu a primeira.
Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher.
Leia A Pata da Gazela, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance urbano clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.