Leia agora
A Pata da Gazela

Universo da obra

A Pata da Gazela

Capítulo 17 · A Pata da Gazela

A Pata da Gazela: Capítulo XVII

17 de 19 ≈ 14 min de leitura

Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.

Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.

Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem confusa de seus pensamentos.

Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente desejavam.

O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso forçado:

--Elle tem razão!

A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento.

O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de Leopoldo.

--Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido alguma cousa de bom para mim.

--Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro propicio, sob cuja influencia nasceste.

--Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.

--Ah! e sob o meu influxo benefico?

--Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!...

--Lembro-me.

--O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia. Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do collegio.

--Neste caso dou-te meus parabéns.

--E tu como vais com o sorriso ?

--Sem novidade.

--Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella estava só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina.

--Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo.

--Em uma victoria?

--Sim.

--A outra era mais baixa?

--Não affirmo.

--Adeus.

O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do encontro no Passeio Publico , onde vira o signal impresso na arêa pelo mimoso pézinho.

Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas reflexões, e chegava á este resultado.

--Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no Passeio Publico . Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.

O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e contemplou a botina.

A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.

Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia consummada.

No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista. A questão era de tempo.

Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade da familia.

Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza; mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados que a cercavam.

Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de madre-silvas.

Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores, modas, e mil futilidades.

Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.

Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu com tenue resistencia.

--Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?

A moça fez um gesto afirmativo.

--Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do Salles. Recorda-se?

--Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?

--Duvida, Laura?

--Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha pedido.

--Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se lembra da dureza com que me tratava.

--E por isso consolava-se com Amelia?

--Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!

--Quem lhe disse!

--Essa frieza.

--E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no semblante do mancebo.

--Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...

--Ah!...

Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.

Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma almofada preta.

O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.

Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades da retirada.

Cortejou e sahiu.

A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador sempre feliz.

Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de dez annos?

De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a situação em que se achava.

--Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante.

Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia, a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos ardente, ou mais positiva.

Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!...

Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para o resto da existencia.

Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de um tilbure, que tomara no largo do Machado.

Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer.

De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do Ouvidor passou por elle; era o coupé do Salles. O rosto encantador de Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.

Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.

Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo, afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo consideral-a impossivel.

Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella parada do carro, e não se enganava.

--Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.

--Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.

--Ficou atraz.

--Podemos ir a pé.

Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.

As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.

Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão que a moça pisava.

Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés até o colo da perna.

Horacio ficou fulminado.

Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.

Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça, passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já tinha partido a trote largo.

Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto. Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:

«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na perna um'alma!»

A Pata da Gazela

Sinopse

Leia A Pata da Gazela, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance urbano clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657988103753594795351
A Pata da Gazela

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Pata da Gazela

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Pata da Gazela Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 17 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Pata da Gazela

Capa de A Pata da Gazela
Continue a leitura A Pata da Gazela: Capítulo XVII Capítulo 17 · 17 de 19 · ≈ 14 min
Todos os capítulos 19 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir