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A Pata da Gazela

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A Pata da Gazela

Capítulo 6 · A Pata da Gazela

A Pata da Gazela: Capítulo VI

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Seriam duas horas da tarde.

Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que molhára as calçadas.

Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor.

Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.

Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de subir, levantára demais a saia.

Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro. O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina.

Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza.

O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de uma moça.

Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou, embora passasse de relance diante de seus olhos.

Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca immediatamente.

É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua virtude ambigua e seu mesquinho talento.

O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o effeito, de uma monstruosidade moral.

Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante, que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo!

Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam.

A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na elegancia e delicadeza.

A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos, e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido pelo enthusiasmo.

É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral, opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par com a eloquencia?

O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua admiração por esse membro nobre da creatura racional.

Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.

Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé não era um enfant gaté , um benjamim acostumado á essas delicias; desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes prodigalidades.

O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do cabedal, como do trabalho.

Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?

O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante.

--Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando.

O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o sorpreso:

--Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana?

--É verdade!

--Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar os companheiros.

O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados.

Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.

Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão.

Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com semelhante pata de elephante?

Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade. Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo; não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era uma posta de carne, um cepo!

Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé até o calcanhar.

Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio, deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel.

A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias.

Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a apparencia de uma botina elegante.

A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto, porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela botina superior, podiam abrigar-se.

Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o tamanho do calçado.

Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão, incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação do amor proprio.

Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á portinhola do carro, na rua do Ouvidor.

--Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto.

--Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de casa rica.

--É só embrulhar.

Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho.

--Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.

--Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos.

Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua duvida!

--A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança!

A Pata da Gazela

Sinopse

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