Universo da obra
Universo da obra
Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso á janella.
Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.
Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada. Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.
A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza, sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se, a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.
Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo leão?
A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto, o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi maior, porque venceu o vencedor.
Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.
Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão fingida.
A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.
Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino. Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais alerta ella ficava para não commetter a minima falta.
Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa de Salles, no domingo em que estamos.
Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, o seguinte dialogo:
--Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.
--Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.
--Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.
--Que tenho eu de mais?
--Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!
--O que é então?
--Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.
--Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor soffrido?
--A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!
A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.
--Entende agora, D. Amelia?
--Não! murmurou tremula.
--Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr de longe o objecto de minhas adorações?
O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
--Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.
--Eu não!
--A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.
Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das senhoras que chegavam.
Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça, emquanto lhe apertava a mão.
--Não seja cruel!
--Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de ressentimento.
Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por um bigode fino e elegante!
Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.
O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração. Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.
Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do vestido, disse em tom supplicante:
--Me deixa vêr?
--Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.
--Quando cessará este capricho?
--Nunca.
Horacio teve um assomo de impaciencia.
--Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de mostral-o a uma pessoa.
--A quem? perguntou a moça irritada.
--A seu marido.
Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não passavam de um galanteio.
--Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a condição de não mostrar.
--Havemos de discutir essa condição.
--Vamos mudar de conversa?
--Como quizer; temos muito tempo para continual-a.
Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das senhoras, tomou parte na conversação geral.
--Já sabem a novidade, minhas senhoras?
--Qual dellas? Ha tantas.
--A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira mão, de caminho para aqui.
--Algum casamento, aposto.
--E eu sei de quem.
--Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.
--Aonde?
--No Cassino?
--No Club?
--Em casa do Azevedo.
--É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
--Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
--Quando é o dia?
--No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de Troia.
--Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.
--Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos, inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços, parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide para pendurarem a lyra.
Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço, com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida, abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.
Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á seu lado:
--Amelia ficou lograda!
--Como?
--Creio que Horacio está justo com outra.
--Quem lhe disse?
--A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.
--É verdade. Com quem será?
--Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na escola dos maridos .
Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos assucarados, como confeitos do carnaval.
Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas.
Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se. Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais excitou a attenção da moça maliciosa.
Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o jacta est alea por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que tornasse a passar.
Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do casamento?
Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.
--O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que se chama familia.
Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou nessas reminiscencias a prova de sua opinião.
--O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob hypotheca?
Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o conduziu á casa.
Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se cada vez mais da resolução que havia tomado.
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