Leia agora
A Pata da Gazela

Universo da obra

A Pata da Gazela

Capítulo 18 · A Pata da Gazela

A Pata da Gazela: Capítulo XVIII

18 de 19 ≈ 11 min de leitura

Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas apenas a differença de dezoito mezes.

Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.

Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as zombarias do mundo.

Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.

Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual dependia a felicidade da filha.

Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava extremecidamente, morreu ignorando o segredo.

Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.

A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar de seus 18 annos, seus pés eram de menina.

Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do vestido.

Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu intento.

Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, Laura esqueceu a sua.

Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da prima, chegava a invejar o seu infortunio.

Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro. Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.

Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista. Facil foi portanto illudil-o.

Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.

As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela necessidade, foi obrigada a acceital-o.

Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.

Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta, obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado por baixo da janella.

A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas palavras.

Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.

A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.

O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho, um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa nova, original e extravagante.

Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma.

Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.

Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como purificada dos desejos do seductor.

Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem.

A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.

Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D. Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia com uma profunda convicção:--«Sinto-me capaz de amar o horrivel, sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo ainda mesmo encarnado no aleijão.»

--Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça com tristeza.

No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu mimoso pésinho.

O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga, para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.

Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se. Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella sublime abnegação.

Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava.

A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella sinão uma fantazia?

O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu,

No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo depois do baile.

Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio suave.

Em um momento de pausa, disse Amelia.

--O senhor, passou por nossa casa na terça-feira?

--É verdade. Porque pergunta?

--Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.

--Não me animava.

--Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa.

--Tenho receio de ser importuno.

--Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui, estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum trabalho de lã.

--E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar interrogador.

--Ninguem! respondeu Amelia em tom grave.

Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça. Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe annuviara a phisionomia?

Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça:

--Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito interessante? disse ella.

--Não se póde saber?

--O senhor, póde. Foi a historia de um sorriso , disse Amelia sublinhando a palavra com um gesto faceiro.

--Quem lhe contou? Foi elle...

--Foi o senhor.

--Eu?

--O senhor mesmo. Já não se lembra?

--Quer gracejar?

--O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella do toucador.

Leopoldo adivinhou.

--Então ouviu tudo?

--Tudo!...

--E... perdoou-me?

--Não; não tinha de que, mas...

E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço.

--Mas comprehendi!

Nesse momento D. Leonor chamou Amelia.

A Pata da Gazela

Sinopse

Leia A Pata da Gazela, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance urbano clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657988103753594795351
A Pata da Gazela

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Pata da Gazela

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Pata da Gazela Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 18 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Pata da Gazela

Capa de A Pata da Gazela
Continue a leitura A Pata da Gazela: Capítulo XVIII Capítulo 18 · 18 de 19 · ≈ 11 min
Todos os capítulos 19 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir