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A Pata da Gazela

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A Pata da Gazela

Capítulo 13 · A Pata da Gazela

A Pata da Gazela: Capítulo XIII

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A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte concorrêra ao sumptuoso baile.

Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se encontram reunidas.

Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa via lactea.

Amelia acabava de sentar-se.

Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza de seu trajo.

Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões de rosa, borrifados de gôttas de orvalho.

Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para disputar as admirações da noite.

--Dançaremos a primeira: disse Horacio.

A moça corou.

--Sim.

Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado. Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava antipathia.

Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma. Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do mancebo.

De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava; a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura, tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por uma especie de pudor, proprio das almas virgens.

Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo forte.

--Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?

--Para que? Estamos tão bem aqui.

--D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.

--Como quizeres.

As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e comprimentou.

Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o.

--Terei a felicidade de dansar uma quadrilha....

--Qual?

--A ultima!

--A ultima? repetiu Amelia rindo-se.

--Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando seu pensamento com o olhar.

--Então a sexta.

A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e formou-se o turbilhão.

Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o fim de embaraçar o vestido da moça.

--Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada.

-- Barbara, non hai cor ! replicou-lhe Horacio com as palavras do romance.

--O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.

--O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora para movel-o em meu favor. Sim?

--Não: respondeu a moça agastada.

--Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha ciumes delle? perguntou Horacio gracejando.

A moça olhou-o com expressão.

--Tenho sim, tenho ciumes!

Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou Leopoldo sentado á uma das mesas.

--Oh! por cá tambem, Leopoldo?

--É verdade; contra meus habitos.

--Está esplendido! Não achas?

--Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.

--Porque pensas assim?

--Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim, que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das fadas.

--Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de um encanto inexprimivel.

--Que condão será esse tão poderoso?

--Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e submisso.

--Mas no fim de contas o que é?

--Um pésinho!

Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era possivel exprimir na linguagem humana. Um pésinho , era aquelle ente adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha da natureza.

Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa fórma.

--Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste mundo uma cousa que me illumina a existencia.

--A gloria?... aposto.

--Um sorriso, apenas.

Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.

--Vais dansar? perguntou o leão.

--Agora não.

--Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te contarei a historia de meu pésinho.

--Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.

--Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo.

Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma.

--Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por acaso sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina!

«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras; adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o coração, como aquella botina.

«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que Deus só concedeu á creatura racional.

«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel de um genio tardo e paxorrento.

«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar que ella revelou-se deusa; et vera incessu patuit dea .

«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que abala até a ultima fibra.

«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave.

«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao ignoto deo de minhas adorações.»

Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.

--Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...

--É esta a tua historia?

--Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.

--Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...

--Não a amo?

--Não!

--Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de mim?

--Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.

--A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.

Leopoldo levantou os hombros.

--Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente. Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico; á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores, ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil: tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te habituaste á adorar.

Horacio soltou uma risada:

--Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas fazer disso uma regra geral!...

--Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz.

--Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza.

--Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia.

--Ah! é verdade. A historia de teu sorriso?

--Sim.

A Pata da Gazela

Sinopse

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