Leia agora
A Pata da Gazela

Universo da obra

A Pata da Gazela

Capítulo 14 · A Pata da Gazela

A Pata da Gazela: Capítulo XIV

14 de 19 ≈ 10 min de leitura

O Almeida accendeu outro charuto:

--«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda. Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso.

«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua alma reflectida na minha.

«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos labios o sorriso, que era emanação de seu ser.

«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando mostrou-me um pé deforme.

--Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso.

--O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio!

--É curioso!

--Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do que vi. Era repulsivo; isto basta.

«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e vehemente.

«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda mais.

«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão; bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste, esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma illusão.»

--Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu imaginar uma tal coincidencia!

--É verdade!

Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.

Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de velludo verde.

--Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.

--Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.

Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?

Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois vinha encontral-a desdenhosa e fria.

--Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento. Contaram-lhe alguma ou ella imaginou!

O moço resolveu sondar o coração da noiva:

--A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse.

--Illude-se!

--Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais.

Deram alguns passos silenciosos:

--Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o cavalheiro com um sorriso ineffavel.

A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.

Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação o sim , que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a.

--Amanhã?...

A moça fez com a cabeça um gentil aceno.

--Não irei.

--Obrigada.

--Não devo ir.

--Porque?

--Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.

--Ah!

--Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a...

--Cuida?...

Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que entreabria o céo de uma alma candida.

--Então amanhã?... disse Horacio.

--Vai?

--E si eu pedir?

--Experimente!

Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda emoção.

Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras pulsações de um coração virgem.

Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações inebriantes de um primeiro amor.

Na sala dansava-se a sexta quadrilha.

--Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora amortecido pela reflexão.

Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos.

--E não tenho razão?...

Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia, a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um verme, que as babuja.

Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida, dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas faltava-lhe abnegação para tanto.

Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um grupo, chegou-se.

--Chame, papai. São horas!

Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua filha, Amelia dirigiu-se ao toucador.

Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom bem expressivo de intimidade.

--Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz commovida.

--Pois é com elle...

O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime eloquencia do pudor.

--Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.

--Não!

--Como o Sr. diz este não !

Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando pronunciára aquelle simples monosyllabo.

--Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade.

--Porque?

Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina de velludo do toucador, voltou-se:

--Ha de me dizer! insistiu.

--É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto da moça á fimbria do vestido.

Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula, occultou-a.

--Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as senhoras sahissem do toucador.

--Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente.

O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia. Lembrara-se do aleijão.

A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do mimoso pésinho?

--Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza material?...

Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.

Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se retirava, encontrou Horacio na porta.

--A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo.

--O que?

--Adeus!

A Pata da Gazela

Sinopse

Leia A Pata da Gazela, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance urbano clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657988103753594795351
A Pata da Gazela

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Pata da Gazela

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Pata da Gazela Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 14 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Pata da Gazela

Capa de A Pata da Gazela
Continue a leitura A Pata da Gazela: Capítulo XIV Capítulo 14 · 14 de 19 · ≈ 10 min
Todos os capítulos 19 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir