Universo da obra
Universo da obra
O Almeida accendeu outro charuto:
--«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda. Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso.
«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua alma reflectida na minha.
«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos labios o sorriso, que era emanação de seu ser.
«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando mostrou-me um pé deforme.
--Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso.
--O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio!
--É curioso!
--Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do que vi. Era repulsivo; isto basta.
«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e vehemente.
«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda mais.
«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão; bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste, esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma illusão.»
--Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu imaginar uma tal coincidencia!
--É verdade!
Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de velludo verde.
--Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
--Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.
Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?
Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois vinha encontral-a desdenhosa e fria.
--Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento. Contaram-lhe alguma ou ella imaginou!
O moço resolveu sondar o coração da noiva:
--A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse.
--Illude-se!
--Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais.
Deram alguns passos silenciosos:
--Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o cavalheiro com um sorriso ineffavel.
A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.
Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação o sim , que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a.
--Amanhã?...
A moça fez com a cabeça um gentil aceno.
--Não irei.
--Obrigada.
--Não devo ir.
--Porque?
--Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.
--Ah!
--Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a...
--Cuida?...
Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que entreabria o céo de uma alma candida.
--Então amanhã?... disse Horacio.
--Vai?
--E si eu pedir?
--Experimente!
Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda emoção.
Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras pulsações de um coração virgem.
Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações inebriantes de um primeiro amor.
Na sala dansava-se a sexta quadrilha.
--Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora amortecido pela reflexão.
Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos.
--E não tenho razão?...
Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia, a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um verme, que as babuja.
Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida, dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas faltava-lhe abnegação para tanto.
Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um grupo, chegou-se.
--Chame, papai. São horas!
Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua filha, Amelia dirigiu-se ao toucador.
Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom bem expressivo de intimidade.
--Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz commovida.
--Pois é com elle...
O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime eloquencia do pudor.
--Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.
--Não!
--Como o Sr. diz este não !
Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando pronunciára aquelle simples monosyllabo.
--Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade.
--Porque?
Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina de velludo do toucador, voltou-se:
--Ha de me dizer! insistiu.
--É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto da moça á fimbria do vestido.
Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula, occultou-a.
--Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as senhoras sahissem do toucador.
--Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente.
O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia. Lembrara-se do aleijão.
A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do mimoso pésinho?
--Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza material?...
Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.
Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se retirava, encontrou Horacio na porta.
--A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo.
--O que?
--Adeus!
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