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A Pata da Gazela

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A Pata da Gazela

Capítulo 16 · A Pata da Gazela

A Pata da Gazela: Capítulo XVI

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Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles.

Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.

O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia seguinte.

Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu que o melhor era confiar-se á inspiração do momento.

No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante.

As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades.

Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer. Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de seus labios.

--Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!

A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo.

--Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa.

--Não; Amelia não tem querido.

--Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva.

--Então não sabe? acodiu D. Leonor.

--Porque não se offereceu occasião; disse Amelia.

--Mas tem recebido visitas?

--Algumas.

--O Leopoldo não appareceu!

--Não frequenta nossa casa; respondeu a moça.

--Ah! cuidei?

--Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes.

--Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador.

Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava alheia a conversação.

--Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora.

--Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes.

--De onde, si não é segredo?

--Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe ás quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia.

--Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.

--O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de aborrecer-se.

--Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante.

--Alguma cousa.

--E Leopoldo era seu par?

--Era.

--Par constante?

--Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo, porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos.

--Optimo systema! Assim não se repara?

--Em que?

--Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos.

--Isso se entende naturalmente com as moças que têm noivo arranjado , retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia.

A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg, Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de provêr-se dessa virtude evangelica.

Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia com que a moça dedilhava.

--A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos romances de Balsac, verdadeiros lirios do valle , que vivem de orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: tenho a infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos espiritos, no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos effluvios celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, intelligencia grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do primeiro tartufo deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou banqueiro... Estou incommodando-a talvez?

--Não; acabe.

A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Horacio.

--A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem privados de uma distracção que tanto lhes agrada!

--Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de D. Clementina?

--Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido; a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo, passar as noites no Club ou no Alcazar.

Amelia soltou uma risada.

--Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume.

--Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos, outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á sombra da mulher que amei.

--Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança; disse Amelia com ironia.

--Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della!

--Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra: sahirá ainda mais perfeita.

--Ainda não perdi a esperança de encontral-a.

O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja.

A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons vivos.

Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios da moça revellavam certa crispação nervosa.

Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o casus belli . Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle tanto desejava.

--Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?

--Si quizeres.

--Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada.

--Foi logo depois do baile do Azevedo.

--Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o senhor não frequenta essas reuniões de gente pobre.

--Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros; respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio.

Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a resistir; o rompimento era infallivel e prompto.

--Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel.

Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio atirou á moça rapidamente estas palavras:

--Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei mais aqui.

Amelia estremeceu.

Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão:

--Desejo que se divirta muito amanhã.

--Aonde? perguntou D. Leonor.

--Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia?

A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta violenta, mas rapida.

Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez do porte, que uma vibração intima erigira.

--Vou sem falta!

Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do vestido, cortejou profundamente.

--Seja muito feliz.

Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha recalcado desde muitos dias.

A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas; cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se desfolhava da flôr viçosa de sua alma.

Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem esse travo do coração que chamamos saudade e sabem quanto é cruel o momento de separação.

Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a mutilação moral.

Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia, quem a desfolhara.

Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a submergiam.

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Sinopse

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