Universo da obra
Universo da obra
Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo por tanto tempo sonhado.
--Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de beijar aquelles dous mimos da natureza!
Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do momento.
Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais cedo.
Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor.
Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira.
Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á moda.
Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo, adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e amante.
Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.
Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que era; respeita em sua pessoa o homem amado.
Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia.
Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem, quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos amores?
Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II.
Desapontado, voltou Horacio sobre os passos.
--Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!...
Sorriu-se o leão.
--Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente. Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem.
Outro sorriso frisou o labio do leão.
--Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e espuma.
Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas continha estas palavras:
«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.»
Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles; esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta. Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A moça lhe permittiria fallar-lhe.
Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio cerrado, ninguem apparecia.
O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança de encontrar pessoa a quem interrogasse.
As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma agitação.
Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de qualquer explicação não era rasoavel.
A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore.
Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava no interior.
Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.
Elle via, e duvidava.
Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas nenhum tão imprevisto e curioso.
A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador dos salões.
Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo.
Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama que ahi se agitava desde muito.
Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz no seio do Creador.
Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido, não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva.
Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram os minutos em agradavel conversação.
Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido; porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o tremor involuntario que agitava seu lindo talhe.
--É meu presente! disse ella com timidez.
E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com fita azul.
Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile.
O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos.
Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios balbuciaram uma palavra.
--Calce!
Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva.
O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da janella, que fechou-se.
Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine.
Leu ao acaso; era a fabula do leão amoroso .
--É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella.
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