O Que Veio com Jupíter

Universo da obra

O Que Veio com Jupíter

Capítulo 1 · O Que Veio com Jupíter

Capítulo Um

Os dias mais comuns eram os que mais me agradavam. Quando nada acontece e você pode simplesmente chegar em casa, tirar os sapatos e se sentar no sofá, olhando para o nada e descansar. Não sou uma pessoa de surpresas e nunca fui, traço que adquiri na infância, se estendendo para adolescência e vida adulta. Criei uma rotina fácil de seguir, fugindo de qualquer improviso do destino ou pegadinha do acaso.

Acordar, levantar, tomar café, me aprontar e sair para o trabalho. No caminho, poucos rostos diferentes, poucos conhecidos. Se passar os olhos com calma, perceberá alguns com seus livros em mãos, compenetrados a cada página e outro voltando na anterior como se tivessem perdido alguma informação. Tem aqueles que ficam incansavelmente no celular e nem mesmo olham para o lado. Uns com cafés, tentando beber quando correm e por muitas vezes, derramando entre as mãos. Nos veículos, pessoas com a cabeça encostada no banco e dormindo o sono tranquilo de um longo caminho. Cansados do trajeto de um dia exaustivo e espremidos entre aqueles de pé.

Poderia dizer que eu sigo uma vida simples e tranquila. Monótona. Chata para alguns, com certeza. Mas não permitindo que o novo e inesperado me surpreenda, garanto que não passe por qualquer constrangimento ou desgosto. Aprendi a viver assim depois de algumas desilusões e me mantenho até hoje, com meus quase quarenta anos. E não me arrependo...

Bem, talvez um pouco. Queria ter tido a vontade de me formar em algo que não fosse tão previsível e trabalhar com qualquer coisa diferente do que faço. Não que eu não goste de ser mecânico, afinal, passei os melhores anos ao lado do meu pai aprendendo tudo sobre automóveis. Ele era feliz me ensinando e eu descobrindo como um carburador funcionava. Porém, ter seguido os passos dele e assumir a sua oficina trouxe a certeza de que eu não nasci para ser extraordinário em nada.

Alguns amigos, se casaram e formaram uma família, tendo filhos, cachorros e animais como o “Periconha” (periquito mais maconha do Hugo dos Santos, meu antigo melhor amigo) que cantarolava e repetia as palavras de baixo calão que ele falava.

Hugo e eu nos afastamos quando meu pai me pegou dando “um tapinha” escondido na praça perto de casa. Eu já era maior de idade, mas estava em uma fase complicada. A mulher que eu amava estava indo embora e por isso terminei com a minha namorada, para correr atras de quem eu queria realmente. E deu tudo errado. Ela foi morar com o pai em outra cidade e nunca mais nós nos vimos. Já com o meu único amigo, o afastamento foi completamente normal, ele ia para o curso de inglês e do pré-vestibular e eu ficava enfurnado na oficina, deixando todo e qualquer conhecimento que eu tinha sobre outras coisas de lado.

 Quando penso nos momentos com Angélica, que era dona de longos cachos castanhos da mesma cor dos olhos, boca pequena e um nariz um pouco torto, a pele marrom média como terra fértil recém molhada pela chuva, com um brilho discreto que capturava a luz, sempre sinto o vazio que deixá-la ir me causou, afinal, eu que causei todo o sofrimento para ela tomar essa atitude. Mesmo sendo um relacionamento estranho por ela ser filha da minha madrasta, nós vivemos momentos realmente emocionantes. Nosso romance começou quando eu tinha dezesseis e ela dezessete. Coisa de adolescente, troca de olhares, palavras que nunca eram ditas de fato, toques discretos e abraços longos. O primeiro beijo só veio acontecer quando ficamos maior de idade.

Nunca fomos criados como irmãos, ela sempre foi a filha da Suzana e eu do Naldo. Ainda assim, algumas pessoas achavam estranho o fato da gente se gostar, como se fosse um pecado ou um crime. Meu pai nunca deu ordens para ela e a Suzana para mim. Era bem estipuladas as regras para cada um e todos percebiam a diferença de criação quando estávamos juntos. Angélica era extrovertida, cativava quem se aproximava e gostava de fazer apresentações em público, semelhante a mãe dela. Já eu, introvertido, nunca saia de casa sem ser obrigado e não gostava de fazer grupos ou ter que conversar neles. Acabamos nos complementando e quando viramos adultos, ultrapassamos os limites da amizade, tendo um breve caso amoroso. No meu vigésimo segundo aniversário, depois de uma briga por causa das festas que ela gostava de ir e que sempre me pedia para acompanhar, mas eu negava, ela começou a namorar com um dos populares que estudou com a gente e então decidi deixar de lado tudo que tivemos.

Um ano depois eu conheci a Jéssica e começamos a namorar um mês depois que fiz vinte e quatro anos. Angélica havia decidido ir morar com o pai dela e fazer a faculdade por lá, mas tivemos uma última noite juntos três dias antes dela ir embora e a Jéssica descobriu, nós discutimos e não consegui terminar o relacionamento, estava em dúvida.

João Carlos, meu irmão mais novo foi um grande amigo quando ela partiu. Nos aproximamos bastante naquela época. Depois, quando ele se casou com o Fabricio acabamos nos distanciando naturalmente. Meu pai sempre aceitou bem a sua sexualidade e eu também. Ele tinha sete anos a menos que eu, então essa diferença sempre foi um divisor entre nós. Filho da Suzana e do meu pai, por tanto, tínhamos poucas semelhanças. Ele era um pouco mais branco que eu, o cabelo era escorrido em um castanho claro, seu rosto sempre foi bonito e quando adolescente, nunca teve espinhas, o que me dava inveja. O garoto exemplar da família, estudou, se formou em História e era professor de criancinhas pequenas.

Mesmo morando no apartamento que eu e meu pai vivemos antes dele se casar novamente, me mantenho distante de qualquer aparição midiática ou exposição, já que Águas de São Pedro tem uma população de no máximo três mil pessoas e todos se conhecem ou conhecem alguém que conhece alguém.

Nos mudamos para o centro, uma casa próxima a rotula da Praça Doutor Otavio de Moura, onde fumei o baseado pela primeira e única vez. Íamos para a escola a pé, o que levava um pouco mais de dez minutos. E quando meu irmão, Hugo e Angélica matavam aula, iam até o Boulevard, que era a cinco minutos de distância. Eu por não gostar de fazer as coisas fora da minha rotina, não ia com eles. Preferia acobertar e quase nunca conseguia por ser um péssimo mentiroso. E como uma cidade pequena, muito unida e curiosa sobre a vida dos outros, tudo era descoberto, nada passava despercebido. Por isso, constantemente, ficávamos de castigo.

Depois de dezesseis anos, a casa era ocupada apenas por meu pai e Suzana. Dos três quartos, um virou uma sala de ginastica, outro para hospedes e o deles se transformou em uma suíte, com banheiro privativo. Como era de um piso, o quintal preenchia bastante espaço e depois que Joca adotou o cachorro, construíram um muro alto em volta da casa inteira.

Zayn, o labrador (quase) adestrado, virou o novo favorito deles e meu irmão era proibido de ir lá sem ele. Colocou no cachorro o nome de um dos cantores da sua banda favorita da adolescência, One Direction e dizia que o latido era aguda igual as “high notes” que o cantor fazia e obviamente que Joca não ouvia bem os latidos do próprio cachorro. Comeu metade dos móveis dele quando era filhote, sem falar no TCC do Fabricio quando estava prestes a se formar em medicina, porém, era um bom companheiro.

Eu sempre os via passeando pela sacada do meu apartamento, afinal meu apartamento era a seis minutos de distância da casa deles. E como a família fazia questão de morar perto, o de Joca ficava na rua ao lado da minha, sentido ao Boulevard. Por isso, mesmo tendo carteira de motorista, dispensava o uso de carro e nem mesmo tinha um. Às vezes eu usava os que iam para a oficina, testando pela cidade.

Águas de São Pedro nunca mais foi a mesma depois da chegada de um novo morador. Nem eu fui. Júpiter mudou minha vida completamente, só me restava descobrir se para melhor.

O Que Veio com Jupíter

Sinopse

Alfredo levava uma vida tranquila, um tanto solitária, marcada por rotinas previsíveis e um certo orgulho de sua independência. Aos 40 anos, sua maior preocupação era manter as plantas vivas e evitar ligações longas com o pai. Mas tudo muda quando um adolescente bate a sua porta e diz ser seu filho. Júpiter que tem 16 anos, cabelos rebeldes, opiniões fortes e uma mochila cheia de perguntas. Agora, por força do destino, Alfredo terá que cuidar do garoto por três semanas inteiras.

Entre pizzas mal assadas, conversas atravessadas e tentativas desajeitadas de se conectar, pai e filho vão tropeçando um no outro e aprendendo, aos poucos, que família não é sobre saber tudo, mas sobre estar disposto a tentar. Uma história leve e afetuosa sobre reencontros, aprendizados improváveis e o estranho e maravilhoso processo de virar pai... mesmo que um pouco atrasado.

O Que Veio com Jupíter

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

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