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Ânsia Eterna

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Ânsia Eterna

Capítulo 7 · Ânsia Eterna

Sob as estrelas

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A Olavo Bilac O padre Júlio voltava do Seminário, de coroa aberta e de batina, pronto para servir a Deus na sua vila mineira, alcandorada sobre precipícios de verdura e rochedos abruptos. Alto, branco e esguio, figura mística de quem sonha e perscruta mistérios, ele derramava o olhar pelas penedias da encosta, tachonadas de flores de quaresma, sem ânimo de perguntar pela sua amada de outrora, o seu único amor, aquela pobre Ianinha, tão ardente e apaixonada, que o enlaçava nos seus braços flexíveis como hastes de hera, queimando-o com o fulgor dos seus olhos negros de mineira inculta e imaginosa. Juntavam-se de noite nos campos, ela fugida do casebre da avó cabocla, ele da casa do tio padre. Amavam-se sob as estrelas. Ianinha sabia contos do sertão, histórias de feiticeiras e lobisomens, que lhe contava risonha, achando graça nos seus terrores. Ele beijava-lhe a garganta túmida, pedindo-lhe que se calasse. Tinham começado a mocidade juntos, ela era mais moça, mas muito mais precoce; ele adorava-a de joelhos, já um pouco voltado para o culto divino. De repente interrompeu-se o idílio: o tio padre exigiu que o sobrinho fosse para o Seminário. Das fugas noturnas só eram sabedoras as estrelas. Júlio, tímido, obedecendo à vontade do velho e impelido mesmo pelo seu espírito religioso, despediu-se da amante com resignação. Ela é que teve transportes de louca, que se colou a ele como uma cobra a um tronco, dizendo-lhe que o amava, que lhe dera a sua

virgindade, a sua alma, que a vida era aquilo, a liberdade, o beijo, o amor! A tentação foi vencida, Júlio deixou-a sozinha, soluçando alto, na noite escura e silenciosa. Agora, olhando para aquelas penedias, para aqueles vales enormes, pensava que antes a Ianinha tivesse morrido... e era essa a sua esperança! Queria ser puro, queria ser santo. Voltara-se para o Céu com fé arrojada; detestava o mundo e a carne. Vinha emundar a alma naquele mesmo desterro que enchera de beijos e abraços pecaminosos. Nos seus êxtases a figura de laninha atravessava-lhe por vezes a mente, como uma tentação diabólica e terrível, mostrando-lhe a alvura dos dentes, a negrura das madeixas revoltas, a rijeza dos seios morenos... Excomungava-a, amaldiçoava-a, enchia-se de cilícios, e caía chorando, contrito, esmagado pelo remorso, numa alucinação dolorosa, sem achar meio de se purificar daquele passado que o assombrava. Antes a Ianinha houvesse morrido... Para saber isso, e com medo de o perguntar, Julio foi ao cemitério, que era um canteiro, de pequeno. Ajoelhou-se em frente de cada sepultura. De quem era esta? de quem era aquela? perguntava. O coveiro sabia os nomes de todos os enterrados. Morria-se tão pouco, ali! Uma era da tia Zefina, outra do Simeão, outra... Eram todos velhos, muito velhinhos já. A Ianinha, então, vivia ainda! Júlio corou, com vergonha daquele pensamento cruel. O nome da moça queimar-lhe-ia os lábios, se o dissesse, e, estava certo, toda a gente tomaria conta do seu segredo. Não, não perguntaria por ela. E, abstrato, ajoelhou-se junto de uma sepultura coberta de flores selvagens. – Esta é de uma criança, explicou o coveiro; não deveria estar enterrada em sagrado, mas enfim... O padre ergueu o rosto longo e pálido, numa interrogação muda. – É do filho de uma cabocla, Ianinha. A peste não o batizou. De mais a mais ninguém sabe quem era o pai. O povo afirma que era o diabo. Dizem que a voz do povo é a voz de Deus... Quem sabe?

Júlio baixou os olhos para a terra, cruzando as mãos com força sobre o coração. O seu rosto, alvo e macilento, nada dizia, mas a batina estremecia ao arquejar do busto curvado. Sabia bem... do fundo daquela terra subia alguma coisa que o chamava, que o solicitava e lhe dizia: “és meu!” Aquelas flores selvagens não eram uma inscrição, um nome que lhe acusava a paternidade? O dia caía gloriosamente. Franjas de ouro e mantos de púrpura arrastavam-se pelo horizonte em nuvens grossas, embebidas de luz. Pelas penedias escarpadas as bromélias erguiam os penachos cor de fogo; piteiras enormes eriçavam os despenhadeiros, e, lá em baixo, o rio passava numa curva, caudalosamente, refletindo o céu rubro, vermelho ele próprio como uma onda de sangue. Toda a terra parecia vitoriosa, erguendo as suas montanhas colossais, a sua vegetação estupenda, o seu cheiro de força, de amor e de fertilidade. Júlio teve ímpetos de escavar a terra, arrancar de lá o corpo daquele desconhecido, filho do seu amor e da sua carne, de chorar sobre os seus ossos despidos, de colar-lhe na caveirinha branca os seus lábios profanos, de lhe dizer que havia ternura no seu coração que debalde procurava tornar seco e estéril, que amava nele a sua virilidade; a sua juventude, e aquela pobre Ianinha... Nisto levantou-se, frio e assustado. Como podia ele, religioso, padre, pensar na tentação da carne, naquela criatura que estilara peçonha e dor por toda a sua vida, aquela cúmplice do demônio, que assaltava sem temor os ninhos das corujas, mostrando ao luar o negror das madeixas e a alvura dos dentes no riso selvagem? Antes fosse ela a morta... Demais, não a enterrara ele para todo o sempre na lembrança? Nessa noite Júlio não dormiu. Voltava sem as ler as folhas do Breviário. Lá fora o vento soprava em roncos e uivos e a lua sumia-se em nuvens fumacentas. Se erguia o olhar, via sorrir-lhe o doce Jesus, do regaço materno, na parede em frente. Uma criança, uma flor de carne e de sonho; que divina coisa!

E ele tivera um filho, e não o vira nunca, e não o amara, e não o repousara sobre o seu coração frágil, morada do pecado e da vergonha, e não lhe beijara os pés acetinados, nem a boquinha já roxa pela morte! Na solidão do seu quarto rezava pelo filho, aquela alma pagã criada pelo seu beijo, porque, sabia-o bem, a Ianinha não tivera outro amante; era ele o seu dono, o senhor absoluto e muito amado, o deus supremo daquela selvagem, filha da terra e amiga da terra, para quem a natureza era a única bíblia a que abria a sua alma simples. E ele voltava querendo achá-la morta! Encostado à mesa, junto ao leito vazio, o padre compunha em mente as feições do filho, dava-lhe vulto, sentia nele o melhor da sua alma, o mais elevado dos seus ideais... Súbito, um toque de sino vibrou rebelde e agudo na noite silenciosa, o padre ergueu-se, lívido. Que seria aquilo? Eram duas horas, o vento abrandara. Houve um rumor de asas algodoadas fugindo espavoridas do campanário. A vila dormia tranquilamente. Mas veio outra badalada do sino, tangida com nervo e raiva, atravessar o espaço negro como um grito de dor. Àquele toque sucederam outros e outros, desordenados, como se o pobre sino da aldeia tivesse enlouquecido ou abrigasse no seu velho bojo todas as bruxas e duendes dos campos. O padre, assustado, amparou-se ao crucifixo, ergueu-o e caminhou resoluto para a porta, que abriu de par em par. O campanário ficava à esquerda, dominando o vale enorme, todo cheio de sombra. Júlio seguiu para ali, com a cruz erguida e os lábios murmurando preces. Pareceu-lhe distinguir um vulto branco agitando-se na treva como um fantasma. Elevou bem alto o Cristo, e a poucos passos a sua voz forte retumbou num esconjuro formidável que abalou a terra. O sino emudeceu; mas o vulto branco lá estava, desenhando uma curva pálida na escuridade. O padre chegou-se para o campanário, audaciosamente, sentindo-se bem apoiado no crucifixo e na sua fé religiosa. A poucos passos estacou: a lua rompera o crepe das nuvens e iluminava Ianinha seminua, com a cabeça deitada para trás, o cabe -

lo pendente, os olhos perdidos na abóbada estrelada. Ela ali estava, segura à corda do sino, aquele velho sino de aldeia, tão meigo, tão acostumado a só falar de paz às montanhas solitárias. Ianinha quedou-se imóvel, sentindo Júlio perto, mas com medo de olhar-lhe para a batina. Depois falou, num queixume, murmurando as palavras. Disse que tivera dele um filho, lindo como os amores, que lá estava no cemitério muito sossegadinho. Júlio estremeceu; os braços estenderam-se-lhe para prendê-la, os lábios moveram-se-lhe para beijá-la; mas conteve-se, hirto, de cruz alçada, livrando-se da tentação... Ianinha chorou: aquele tempo antigo fora tão bom! O campo aí estava, aberto a todos os seres, fértil, com os hinos das aves e o perfume das plantas. A vida rebentava à toa em cada canto. Em troncos velhos viçavam lianas e parasitas; em corolas de flores aninhavam-se milhares de insetos; e os ninhos estavam povoados, e as tocas rescendiam a paz amorosa, e toda a terra desabrochava à espera de que eles fossem também, como noutros tempos, amar-se sob as estrelas. Pecar? Não era pecado! Que seria o mundo, sem a perpetuação do amor! Ianinha arrancava aquilo da sua imaginação caudalosa, lamentando-se por não ter nascido sob outra forma, por não ter a vida libérrima da ave, do inseto ou da flor! E estava formosa, formosa como nunca. Mas o padre sentia o peso do crucifixo nas mãos geladas. Certamente que no fundo da sua alma alguma luta havia que lhe cerrava os beiços e lhe iluminava a fronte larga e lívida. Mas a palavra de amor não lhe saía da garganta. Voltou para dentro, de cruz erguida, com as faces banhadas de lágrimas. Consumou o sacrifício: entregava-se a Deus. Lá fora o sino voltou a badalar na noite negra, desordenada, furiosamente, como se o próprio diabo o tangesse! Depois tudo emudeceu. As aves voltaram para o campanário; uma barra de luz indecisa abriu-se frouxamente no horizonte, e, só, no meio da noite, o cadáver da Ianinha, enforcado na corda do sino, olhava de face para o vale enormíssimo todo cheio de aromas e de treva.

Ânsia Eterna

Sinopse

Ânsia Eterna, de Júlia Lopes de Almeida, é uma coletânea clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 30 contos com fonte pública validável na Biblioteca Digital do Senado Federal, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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