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Ânsia Eterna

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Ânsia Eterna

Capítulo 12 · Ânsia Eterna

In extremis

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– Estás pronta, Laura? Perguntou o doutor Seabra, entrando no quarto de toilette da esposa. – Estou... só me faltam as luvas... Como me achas? – Linda! Ele não mentia: a mulher parecia-lhe ainda mais formosa e mais fresca, com o seu vestido azul claro, muito leve e o chapeuzinho de rendas finas bem pousado na cabeleira loira, de ondas largas. Ela sorriu, contente, pulverizando-se com white rose1; ele franziu as sobrancelhas grisalhas, percebendo, através da carnação delicada da sua mulherzinha um íntimo estremecimento de vaidade satisfeita. – O carro está na porta? Perguntou a moça com modo distraído, mirando-se toda num grande espelho e a passar, num último toque vaporoso, o pompom de veloutine2 pelo pescoço branco e perfeito. – Está... e lá tens o ramo de rosas que pediste... – Como és bom!... – Hoje as corridas devem ser muito animadas. O tempo está lindo! ... Levas a pequenina? – Não. Mamãe toma conta dela, já a mandei para lá ... Sabes? Estou hoje com tanto leite! Tenho medo de manchar o vestido ... que vergonha se... – Escuta, interrompeu ele; antes de irmos para o Derby, parece- -me que deveríamos entrar um pouco em casa do Bruno Tavares.... O doutor Seabra sentara-se atrás da mulher e contemplava-a no espelho, com olhar perscrutador e vigilante. Viu-a estremecer; fez uma pausa; ela suspendeu o pompom, à espera da conclusão. Ele acabou por fim. 1 Perfume feminino 2 Tipo de tecido de lã aveludado

– O Bruno está muito mal... creio mesmo que não escapará! Laura voltou-se, muito pálida, com os olhos esgazeados e os beiços trêmulos. O marido baixou o olhar, entristecido. Havia muito tempo já que ele sabia quanto amor a esposa consagrava ao Bruno. O seu ciúme de marido não explodira nunca, mas concentrava-se, cada vez mais amargo, no fundo do coração. O outro era moço, ele já se avizinhava da velhice; o outro era um sonhador, um idealista, simpático à imaginação ardente de Laura; ele era um homem da ciência, materialista, descrente, já sem forças para encantar ninguém. Conhecia, estudava sem tréguas o espírito e o coração da mulher e confiava nela. Laura era honesta, dedicada, e abafava com ânimo forte o seu amor pecaminoso, nas dobras de um manto de virtude e de sacrifício. Ele sabia que o Bruno não se declarara nunca, mas que, o que os lábios calavam respeitosamente, diziam o olhar, a sua pele quente, o som de sua voz moça e o arrojo da sua fantasia de apaixonado! Quantas vezes o doutor Seabra, fingindo ler os seus livros de estudo auscultava de longe aqueles dois corações, que se conservavam ali, um em frente do outro, mudos e ternos, enquanto as bocas falavam de poesia e de flores, de luar e de música, de aves e de estrelas, de tudo que brilha, que alegra, que entusiasma e que une as almas apaixonadas. Eles liam juntos, contavam-se cenas da infância, alegremente, com interesse mútuo; e o doutor Seabra passava as páginas secas do seu livro tremulamente, com os olhos úmidos e o coração pesado. Tinha medo de intervir, calava os seus receios, esperando sempre uma solução ou um meio de levar a sua Laura para outras terras, sem mostrar o seu zelo, com vergonha de parecer ridículo ou de ofender a esposa. Ela era trêfega, graciosa, mas firme. Mesmo naquele dia, ele compreendia bem que toda a sua gentileza se dirigia ao outro, que esperava encontrar nas corridas, na arquibancada... Eram para o outro a doçura do seu ramo de rosas, o mimo das suas rendas finas, o colorido branco da sua toilette primaveril! Voavam para o outro todo o seu pensamento, toda a sua vontade, toda a sua alegria! Laura continuava pálida, suspensa.

– Quem me disse isto foi o médico; continuou o marido. Como és amiga da família lembrei-me que desejarias, talvez, ir lá... – Sim!... Vamos, vamos! Desceram. O dia estava esplêndido, passavam carros cheios de moças para as corridas. Sorria o sol, doirando o espaço, e o rumor de um domingo festivo alegrava as ruas. Laura sentou-se muito calada, apertando nas mãos com desespero o seu ramo de flores. O marido sentia-lhe a dor através do silêncio e do olhar parado de quem vê fantasmas... Tinha pena dela, dessa pobre amante virtuosa, sonhadora e casta. Falecia-lhe a coragem de perturbar-lhe a mágoa e o pensamento com uma palavra ou um simples gesto. Aquela piedade singular enchia-o de pasmo, a ele mesmo! Ela parecia-lhe agora um pouco sua filha, embora a adorasse como mulher! Era tão moça, tão inexperiente, mas tão meiga, tão dócil, que se julgava com o supremo direito de a conduzir com carinho, na solicitude amável de um pai. Compreendia a firmeza do caráter da moça, sabia que ela preferiria morrer a enganá-lo grosseiramente e que toda a sua paixão por Bruno era feita de imaginação e de sonho! A culpa não era deles, mas sua, que já tinha cabelos brancos, as falas amortecidas, o espírito inquietado por atribulações diferentes. A morte daquele pobre rapaz era um alívio para o seu coração. Desaparecido ele, teria morrido a causa do seu ciúme amargo e irremediável. Laura continuaria por longo tempo a amá-lo nas suas orações, através das estrelas, mas o tempo viria sossegadamente atenuar-lhe as saudades... e tudo acabaria em doce paz. Se o outro não sucumbisse... ele então arrastaria a esposa para bem longe, sem que ela desconfiasse porque, temendo entretanto a luta e descrente da vitória! Sentia que o pensamento dos dois unir-se-ia sempre através das distâncias, arrastados pelo mesmo ideal, pelo mesmo ardor e pela mesma esperança! Sim, só a morte, a morte bendita, poderia cortar com as suas asas frias aquele amor nascente...

Quando o carro parou, Laura desceu sem esperar auxílio e correu para a casa do Bruno. Dentro havia um silêncio triste, um ar de túmulo... A mãe do moço apareceu-lhes chorando. O filho desenganado pelos médicos; e descreveu os horrores da febre que o levava assim, rapidamente. – De mais e mais ele nega-se a todo o alimento, – dizia a pobre senhora; – só consegue tomar leite... Os médicos mandam-no tomar leite de peito, tenho chamado amas... umas não querem dar-lhe o seio, outras recusam-se a tirar o leite com a bomba! E o meu filho morre... meu filho morre! Laura olhou para o esposo; conservavam-se mudos um em frente ao outro. A dona da casa levou-os por fim para o quarto do doente. O moço, enterrado entre as dobras dos lençóis, parecia dormir se não movesse continuadamente os lábios muito secos. Exalava-se todo o seu corpo um calor intensíssimo de febre. A irmã mais velha vigiava-o solicitamente, sentada ao pé do leito. – Já veio a ama, mamãe? Perguntou ela com voz chorosa. – Ainda não! Bruno não abriu os olhos, mas uma ligeira contração arrepanhou-lhe as faces. O doutor Seabra estremeceu. Parecia-lhe a morte! Laura voltou-se de novo para o marido, com o rosto transtornado e o olhar interrogativo. Ele vacilou um momento; depois fez-lhe um sinal afirmativo, muito vago, quase imperceptível! A moça ajoelhou-se rapidamente e desabotoou com os dedos nervosos e tateantes o seu lindo vestido de seda azul claro. O marido curvou-se, trêmulo, com as narinas dilatadas e o coração opresso; arrependido do seu consentimento, ia talvez dizer – não! mas Laura tirara o seio túmido branco, onde as veias estendiam tênues fios azulados e encostava o bico róseo à boca ardente e seca do moribundo. Ela, muito curvada, encobria a meio o busto do enfermo, ele engolia o leite a largos tragos, sofregamente, descerrando a pouco e pouco os olhos.

A comoção de Laura era imensa! Salvar o seu amor, o seu amante sonhado, a sua esperança, com o leite da sua carne, o sangue da sua vida, era um gozo de inextinguível doçura! Não era a volúpia, a paixão sensual que vibrava no seu corpo frágil de mulher moça, mas uma piedade, uma ternura que lhe alagava a alma, de tal jeito que a fazia amar agora o moço, como uma mãe adora o filho pequenino... Ele abriu completamente os olhos: reconheceu-a... houve um sorriso entre ambos, um clarão de verdade! Mas a febre exigia mais leite e ele continuou a chupar com sofreguidão a carne da mulher que nem em sonhos profanara nunca, dizendo-lhe com o olhar tudo que tinha sempre calado – que a amava... que a amava!... até que a prostração veio de novo cerrar-lhe as pálpebras e que ele adormeceu profundamente, sem contrações, com um sorriso de paz nos lábios satisfeitos... Laura escondeu o seio, trêmula e feliz... Só o doutor Seabra compreendeu que aquele sono do moço era o último, e foi com piedade e comoção que viu Laura levantar-se e dizer-lhe, toda dele, atirando-se aos seus braços, com ar vitorioso e sincero: – Obrigada, meu querido... como tu és bom!

Ânsia Eterna

Sinopse

Ânsia Eterna, de Júlia Lopes de Almeida, é uma coletânea clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 30 contos com fonte pública validável na Biblioteca Digital do Senado Federal, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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