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Ânsia Eterna

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Ânsia Eterna

Capítulo 8 · Ânsia Eterna

A primeira bebedeira

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– Não saias hoje, meu filho! A noite está tão feia! Que necessidade tens tu de te expor ao tempo? – Descanse, minha mãe, que eu voltarei cedo... – Mas repara que é hoje o dia do meu aniversário, que há de vir alguém ver-me, e a tua ausência será censurada... – Descanse, minha mãe, que eu voltarei cedo... – A noite está escura e o caminho é tão mau... – Descanse, minha mãe... – Que voltarás cedo, não é assim? Pois faze o que quiseres, na certeza de que me dás um desgosto... Adeus! – Até já, mamãe. E o moço saiu. Caía uma chuva miudinha, peneirada, leve, e no céu tenebroso não luzia uma estrela. De longe em longe a luz de um lampião iluminava um bocado da rua barrenta, ladeada de mato, sem calçada. Sentia-se o respingar delicado das gotinhas de chuva nas folhas, e ao longe nuns charcos, umas rãs coaxavam. Ao cabo de um quarto de hora o moço batia com a bengala nas grades de um jardim. Ouviu abrir-se e fechar-se rapidamente uma porta; depois, uns passos ligeiros quebrando a areia do jardim e uma voz doce dizer-lhe: – Não posso demorar-me agora... meu tio está em casa! – Que importa? E eu não deixei minha mãe, hoje, dia de seus anos? – Ah! mas isso é diferente... Os homens fazem tudo que lhes apraz!... – Mas eu tenho muito que lhe dizer, Albertina! – Volte logo, às dez horas... falar-lhe-ei da janela...

– Escute... – Não posso... estão-me chamando, adeus! E o vulto embuçado da bela Albertina tornou a desaparecer entre os arbustos do jardim. Depois ouviu-se de novo abrir e fechar rapidamente uma porta, e ficou tudo silencioso. Contrariado, o moço lembrou-se da promessa que fizera a mãe; mas, como voltar, se a Albertina lhe dizia que a fosse ver às dez horas? Decididamente era preferível fazer a vontade à última. A mãe que se resignasse... Para não esperar ali, na rua, tolamente, lembrou-se de ir passar uma hora no botequim do bairro, onde tinha a certeza de encontrar amigos. Assim foi. Junto a uma mesinha de pedra conversavam alto, rindo, três colegas seus, rapazes ainda muito novos, imberbes como ele, afetando um ar de estroinas, de boêmios românticos, convictos de gozarem assim a sua mocidade, apenas desabrochada e já tanto murcha pelas extravagâncias. Logo que o viram entrar, fizeram os outros grande algazarra; manifestaram espanto, atirando ao ar frases bombásticas salpicadas de adjetivos flamejantes e das mais conhecidas locuções latinas. Abriram- -lhe lugar e encheram-lhe o cálice de conhaque. Estabelecida a palestra, o da direita ofereceu-lhe charutos, o da esquerda apresentou-lhe um fósforo aceso, e o que estava em frente renovou-lhe o conhaque do cálice. E este criticava-o por achá-lo acanhado, esquerdo; aquele, porque mostrava pouca prática das rapaziadas alegres; aquele outro, porque lhe percebia na fraseologia uma chateza das palestras familiares, inspiradas pelos conselhos da mamãe nos sertões caseiros. – Um pouco de atrevimento, um pouco ao menos! Meu caro! – Dizia um; e logo outro: – Audaces fortuna juvat... – Isto de homens maricas só servem para uma coisa: envergonhar a espécie! – Apoiado... – Apoiado! Aquelas advertências humilhavam o rapaz. Realmente ele começava a achar-se ridículo, parvo e infeliz. Não encontrava justifica-

ção para a sua timidez; daria tudo para convencer os colegas de que era folgazão e gozava a vida; de que tinha proezas, e não obedecia à família tanto quanto supunham. Chegou mesmo a falar na independência do seu caráter, na sua maneira altiva de tratar os superiores e nos recursos monetários que não lhe faltavam nunca... Ia bebendo. – Bravo! À tua saúde! – Bravo! – Bravo! Os copos esvaziavam-se, os olhos brilhavam e as palavras escorriam fluentes, entre casquinadas de risos e tilintar de vidros. Entraram depressa em assuntos de amor: um confessou fazer a corte a uma velha que lhe dava presentes, e mostrou, vaidoso e risonho, o alfinete da gravata cravejado de pedras finas. – Quando a desenganares avisa-me, – dizia um outro; – ando muito falto de joias. Sucessivamente foram-se desenrolando, entre o fumo e o cheiro forte do álcool, as histórias amorosas de todos eles, até que chegou a vez da Albertina. O nome da pobre moça foi inúmeras vezes repetido, e, como alguém duvidasse da veracidade do conto, o rapaz tirou do bolso uma carta, e, abrindo-a com um gesto decidido, bateu com ela na mesa, sobre o cognac entornado. – Dá cá! deixa-me ver quantos erros traz... – pediu-lhe um dos companheiros. Ele entregou o papel e, recostando-se na cadeira, ouviu risonho e triunfante toda a carta da moça, declamada num tom enfático, embora por vezes muito arrastado. Choviam comentários; rebentavam a cada período gracejos brutais; e ele, que até então resguardara honestamente, com toda a delicadeza e cuidado, o seu amor expunha-o agora, sem vexame, aos companheiros indiscretos, gabando-se muito! – E que tal, é rica?– perguntava um. – E é formosa?– inquiria outro. Ele ia respondendo afirmativamente a todos, rindo-se, com o olhar quebrado, os braços sobre a mesa, a voz alterada e o copo entre

os dedos. De vez em quando parecia compreender a realidade; queria então reagir, lutar, esconder o seu amor num melindroso recato; mas a cabeça pendia-lhe para o peito, as ideias bailavam-lhe no espírito como folhinhas num redemoinho de vento, e tudo quanto era digno, justo, e que habitualmente guardava concentradamente no coração, consentia que girasse agora, de um modo grosseiro, nesse pequeno círculo de amigos insensatos! Varriam-se-lhe depressa todos os escrúpulos! O conhaque ia arrastando as sutilezas da sua alma, afogando os seus deveres, enegrecendo a sua consciência. Deu-lhe para falar. Contou a sua vida íntima, segredos de família que não transpareciam cá fora: o pai fugira por dívidas; um tio roubara em casa de um amigo... Arremedou depois a voz da Albertina e a maneira da mãe ralhar com a criada. Os outros já lhe não prestavam atenção, iam bebendo, silenciosamente, até que o dono do botequim os pôs na rua. A chuva cessara; corria uma viração forte, embalsamada do aroma das chácaras. Os amigos seguiram abraçados, cantando alto, para a esquerda; ele subiu a rua, não errando, milagrosamente, o caminho de casa. Mal seguro nas pernas, dobrando frequentemente os joelhos, cambaleante, ora na calçada, ora no meio da rua, aproximou-se da morada de Albertina, que o esperava a um canto da varanda. Vendo-o naquele estado, ela, sem dizer nada, escondeu-se e fechou horrorizada a janela. Ele pôs-se então a gritar de baixo que não estava bêbado, que não estava! Caluniava-o quem afirmasse isso! E como a Albertina não se resolvesse a aparecer, ele desatou a chorar alto, muito alto, num berreiro desesperador. Passou assim algum tempo, até que, já cansado, continuou o seu caminho. A calçada acabara-se; o solo agora era desigual, barrento, coberto de 1ama e de posas d’água. Por um prodígio estranho conseguiu conservar o equilíbrio; Ia de bordo em bordo, muito agoniado, com grandes tonturas e dores de cabeça. Ao pé de casa havia uma ladeirinha escorregadia... ali não se pôde suster, os joelhos dobraram- -se-lhe, vieram-lhe ao mesmo tempo os vômitos, e ele caiu. Palpitavam-lhe com força as artérias das fontes, martelando-lhe pancadas dolorosas; não podia mover o corpo, muito pesado; e começava de ter a percepção da sua vergonha. Um cão lambeu-lhe e

bafejou-lhe a cara; a viração fria da noite pareceu-lhe depois cortar com uma chicotada a face, molhada da baba do animal. Estava assim, coberto de imundície, quando a mãe surgiu, com um xale pela cabeça, à porta da habitação, a observar se o filho viria perto ou não; dando com ele, assim caído, julgou-o doente ou ferido, e ajoelhou-se depressa a apalpá-lo. Chamou-o devagar, cariciosamente; não ouvindo resposta, abaixou-se mais, procurando, trêmula, escutar-lhe a respiração; mas, ao chegar a cabeça à boca do filho, recuou espavorida, sentindo o cheiro do álcool. Ele fitava nela os olhos, pasmadamente. Não passava ninguém; fazia frio, estava escuro, e latiam ao longe os cães; no entanto a pobre mulher esforçava-se por erguer nos seus braços débeis o corpo pesado do filho, e o seu maior desejo era poder abrigá-lo no seio escondendo-o de todas as pessoas e de todas as coisas! Conseguiu levá-lo sozinha, através do corredor escuro, para o seu quarto; deitou-o, deu-lhe remédios, e enquanto ele dormia, ressonando alto, ela, numa agonia muda, vigiava a porta, para que alguém não fosse surpreendê-lo assim...

Ânsia Eterna

Sinopse

Ânsia Eterna, de Júlia Lopes de Almeida, é uma coletânea clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 30 contos com fonte pública validável na Biblioteca Digital do Senado Federal, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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