Universo da obra
Universo da obra
(DAS MEMÓRIAS DE UM ESTUDANTE) ... nas férias desse mesmo ano, decidi visitar a família, meu pai e duas irmãs, na pequena vila do meu nascimento, em São Paulo. Revoltado pela injustiça dos lentes, que me reprovaram no meu quarto ano de medicina, resolvi ir para o mato escrever em sossego contra eles. A vingança seria tremenda. Parti num dia de muito calor; ia indisposto e sonolento. Dando um puxão ao meu boné para os olhos, dispunha-me a adormecer quando vi sentarem-se na minha frente duas senhoras. Uma era alta, a outra baixa; uma esbelta, a outra atarracada. A baixa levava sobre o vestido de merino 1 preto um guarda-pó de linho com reversos de cor, chapéu de palha havana e luvas de meia pardas. Era mulher de uns quarenta e poucos anos, morena, luzidia e de lunetas de aro: tipo vulgar, burguês. A esbelta trajava com elegância um vestido simples de riscadinho cinzento, sem folhos nem fitas, guarnecidos de pespontos, com um casaco justo que lhe denunciava a formosa linha do corpo e um colarinho à inglesa, muito unido ao pescoço. Chapéu do mesmo tom que pareceria mais um chapéu de homem se não lhe tivessem pespegado na frente uma grande ave de asas abertas. Desço a essas minudências de toilette porque elas constituíram logo para mim um ponto de estudo. A maneira de vestir indica fatalmente a maneira de pensar de uma mulher. E entre aquelas duas... que abismo! Que extraordinária diferença! Era caso realmente para meditação. Eu observava ora uma, ora outra. 1 Lã de carneiro de raça espanhola. Sua lã é apreciada por ser muito fina.
As luvas de meia de algodão pardas da baixa faziam-me adivinhar mãos curtas, grossas, ágeis, afeitas à vassoura, à agulha, calejadas da tesoura, marcadas por queimaduras de calda ou água a ferver; as luvas de pelica da alta, justas e bem abotoadas, faziam-me sonhar com umas finas mãos muito macias e brancas, acostumadas a correr pelo teclado de um piano de Erard, a folhear os livros de Bourget, ou dos Goncourt, e a acariciar um angorá de preço, no aconchego tépido de um divã de seda. Os sapatos de entrada baixa da gorda, mostrando-lhe as meias cruas engelhadas nos tornozelos grossos, faziam declarações terrivelmente indiscretas: que aqueles pés tinham calos e unhas encravadas, que se punham assim à vontade pela obrigação de longas caminhadas enfadonhas e cansativas. As botinas de pelica da outra, lustrosas e estreitas, diziam o contrário. Estavam ali dentro pés mimosos, acetinados, habituados à valsa e à fábrica Ferry. Na larga cara da morena, úmida de suor e salpicada do carvão da máquina, li como num livro aberto: atividade, despretençao, pouca inteligência e uma pontazinha de gênio. Na cara da companheira é que não pude ler nada! Levava-a encoberta por um largo véu claro, que passava e repassava em torno da cabeça, escondendo-lhe totalmente as feições. Era clara, loira, trigueira, rosada ou pálida? Não o podia eu então saber. Devia ser loira, que é o tipo requintadamente aristocrático. Aquela singularidade mesmo de um véu tão espesso, coisa perfeitamente explicável numa viagem em trem de ferro em tempo de seca e de pó, contribuiu para tornar mais curiosa e interessante a figura patrícia daquela senhora. Eu estudava-a e, a proporção que a estudava, ia-me apaixonando! Ah! Não se riam! Que diabo há de fazer um rapaz de dezenove anos durante um dia inteiro de viagem, quando o acaso lhe atira para diante dos olhos uma estampa tão sedutora? Apaixonei-me, sim; mas não foi também tão subitamente como à primeira vista pode parecer! Fui-me apaixonando minuto a minuto, lentamente, primeiro pelos pezinhos, depois pelas mãos, depois pela distinção do porte, e finalmente pelo rosto que eu não via, o que não obstava a que o soubesse de uma brancura de leite e rosas, iluminado por um par de olhos rasgados, úmidos, prometedores de inefáveis
doçuras. E, assim como eu percebera o caráter da outra pela cara, percebi pelo conjunto gracioso desta, o seu gênio também. Era recatada, tímida, honesta, altiva, indolente – tanto quanto o exigisse a sua alta posição na sociedade –, rica e solteira. Encobria-se assim (e já eu fazia as minhas conjecturas!) porque, viajando sem o pai, acanhava - -se de se dar a conhecer a toda a gente, evitando comentários; uma prudência louvável. Seria casada? Também podia ser: o papel de pai identificava-se com o de marido, sem que por isso o dela sofresse alterações: irmã ou filha da outra é que não era; isso jurava eu. O meu olhar fixava-se por tal forma na sua gentilíssima figura, que ela principiava a inquietar-se. “Sou um grosseiro” dizia eu de mim para mim; mas não conseguia desviar a vista. Ali mesmo formei logo tenção de escrever um livro a que poria o título – AS MULHERES; livro esquisito, original, farfalhante como as sedas de Lyon. Era essa desconhecida quem me suscitava tão boa ideia. Abençoada fosse ela! Propunha-me (julgava-me habilitado para isso) a descrever os caracteres das mulheres que eu dali por diante encontrasse, só pelas suas manifestações exteriores. Na missa, no baile, na casa, no teatro, na maneira de ajoelhar, de abrir o livro, de dançar, de mover o leque, de receber uma visita ou de assistir a um drama, julgava eu, ainda inexperiente das suas dissimulações, que as poderia definir clara e positivamente, estampando-as depois com todos os cambiantes nas páginas do meu volume. Seria dedicado o meu trabalho à bela e misteriosa companheira de viagem, de quem então eu já deveria saber o nome. O nome! Como se chamaria ela? E andei à procura de um nome de mulher loira: Laura... Mathilde... Alice... Lucia... Aurora! Entretanto, chegamos a São Paulo. Anoitecia; os lampiões de gás espalhavam pontinhos de ouro pela cidade. Acabava-se o meu romance tristemente... não me podia resignar a isso. E, apanhando à pressa a minha mala, acompanhei as duas senhoras através da gare2. Um sujeito aproximou-se delas, e curvando-se diante da mais alta, recebeu algumas ordens, rapidamente, depois acompanhou-as à 2 Estação de trem.
rua, abriu a portinhola de um carro particular e voltou. Elas partiram, e eu, numa resolução digna dos meus dezenove anos, acompanhei-as noutro carro, até vê-las entrar numa casa apalaçada, ao lado de um jardim. A minha vila que me perdoe, e que me perdoe a minha família e que se regozijem os meus lentes ameaçados! Esqueci-os e instalei - -me por largos dias no Grande Hotel! As manhãs e as tardes gastava- -se ou em passeio diante daquela grande casa sempre fechada, misteriosa como o véu, aristocrática como a dama. Por fim, num desespero de namorado infeliz, encostava-me à grade e ficava horas esquecidas olhando para dentro, sem medo de me tornar suspeito para a criadagem ou para a polícia, a ver cair lentamente, como lágrimas de sangue, as pétalas carnudas das camélias vermelhas. Tanto maior era a obstinação daquela senhora em se não mostrar, quanto mais veemente era o meu desejo de a ver. Passados não sei quantos dias, lobriguei numa manhã a companheira de viagem, a gorda, a sacudir um tapete numa janela; cumprimentei-a, sorri-me, fiquei atrapalhado, com vontade de perguntar alguma coisa, mas evitando praticar semelhante asneira. Ela compreendeu-me de certo, porque teve a amabilidade de convidar-me para descansar. – A senhora baronesa ainda está recolhida, disse com malícia; mas isso não o priva de entrar e tomar uma canequinha de café. Recusei e segui. Para encurtar razões: escrevi um dia à baronesa, e mandei-lhe a carta. Nessa tarde recebi um cartão dela consentindo que eu lhe fosse beijar a mão. Entrei na sua casa transportado de jubilo e já com o prólogo do meu livro feito para lhe mostrar... Nessa parte da minha obra, escrita em noites de febre um tanto romanesca, pusera eu, entre muitos adjetivos e frases modernas perfeitamente desconexas, num estilo à la diable3, toda a minha alma e aspiração de glória. Tinha antíteses medonhas, quadros terríveis em que a dúvida se divertia a queimar um pobre coração, revolvendo-o nas chamas de um amor intensíssimo! E por sobre isso tudo, uns salpicos de 3 à moda do diabo, endiabrado.
opoponax, que era o aroma em voga, e uns sonhos ideais, cheios de coisas mansas e doces melancolias, com que eu contava apossar-me do coração da bela baronesa. E era só imaginar o brilho dos seus olhos lânguidos quando me dissesse entusiasmada e feliz: – Como é belo! Fizeram-me esperar numa sala, em que ocupava a principal parede um barbaças condecorado. Estava ali havia uns bons dez minutos quando um criado veio dizer-me que a senhora baronesa rogava- -me o obséquio do ir ter com ela a uma outra sala. Fui. Estava de pé e veio receber-me sorrindo com tristeza, e talvez também com um pouco de ironia... Ai de mim! Por que tirara ela o longo véu piedoso?! Era velha, a baronesa, velha e feia; mas bem velha e bem feia! Fiquei atônito, tendo a estupidez de deixar transparecer na fisionomia a minha amarga decepção; e ela, para vingar-se daquele imperdoável movimento, deixou-me logo cair no ouvido estas palavras agudas como punhais: – Meu menino, não se canse jamais em seguir as mulheres... que usarem véus muito espessos!
Ânsia Eterna, de Júlia Lopes de Almeida, é uma coletânea clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 30 contos com fonte pública validável na Biblioteca Digital do Senado Federal, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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