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Ânsia Eterna

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Ânsia Eterna

Capítulo 24 · Ânsia Eterna

Pela pátria

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Os tiros lá fora repetiam-se, tremendos e abaladores. D. Catarina, muito lívida, segurava com os dedos magros, de encontro ao peito fundo e côncavo, o seu triste xale de viúva, escutando sozinha a agonia do coração... Morava em Niter ói, num bairro afastado, e na sua pequena sala térrea, de uma nudez de ascetério, o seu corpo magro e esguio, todo coberto do preto, andava desnorteadamente, como um mastro sem velas batido na borrasca. Corria assim de canto a canto, de parede a parede, de janela a janela, sem parar, sem perceber senão que os seus dois rapazes lá estavam na guerra, o mais velho no exército, o mais novo na esquadra... A luz pálida do crepúsculo desfazia-se aos poucos. Coisas e seres retraíam-se num silêncio expectante. O troar da artilharia calava todas as outras vozes; nos intervalos caía sobre a terra uma mudez pesada e absoluta; mas o estampido vinha depressa fazer vibrar a natureza inteira. E o ar ficava por momentos trêmulo, como que dolorido pela passagem daquele som formidável e assassino. D. Catarina tinha esgotado todo o fervor religioso da sua alma. A prece j á lhe sa ía dos l ábios frios como um débil perfume de flor murcha. Perdera as for ças na ansiedade e no pranto; o coração n ão lhe destilava a água purificada da lágrima, que escorrera toda, deixando só no fundo os resíduos de sangue negro e envenenado, geradores da raiva. D. Catarina odiava a terra em que nascera e que lhe roubava agora os filhos, execrava ainda mais os homens e a lei e tudo! Era ignorante, embora inteligente e imaginosa; e na curta parábola em que o seu espírito se abalançava, não podia atingir esses preceitos divinos,

que se escrevem com sangue e que os homens leem corrente na sua alta sabedoria... A honra? O brio da na ção? Palavras! Ela n ão sabia sen ão que amava os filhos, que os tinha criado com terno apego e grande sacrifício, pedindo honestamente e humildemente ao Senhor Deus dos exércitos, que fizera as estrelas do c éu, as águas dos rios, os cedros altivos e as areias do mar, que, na sua força prodigiosa, de tantas maravilhas lhe concedesse a simplíssima gra ça de a fazer morrer bem velhinha, deixando neste mundo os seus dois filhos... os seus dois únicos filhos! Tinha caído a noite. D. Catarina procurou reagir. Acendeu a lâmpada, compôs na alcova próxima as roupas e as camas dos seus rapazes. Para quê? Eles não viriam... mas era um hábito, e ela obedecia com submissão a todos os seus velhos costumes. Ergueu depois a vela à altura dos retratos deles, que se destacavam na parede calada, em dois quadrinhos moldurados de veludo escuro. O mais velho era um soldado garboso, claro e bonito como o pai, de olhos rasgados e peito franco e largo. O outro, ainda muito novo, puxara ao tipo da mãe: era magro, trigueiro, de rosto comprido e lábios simpáticos. D. Catarina beijou ambos com igual ternura, confundindo-os no mesmo enleio e no mesmo cuidado. Voltou depois para a saleta, abrindo os ouvidos aos rumores de fora... Que estranho rumor seria agora aquele que percebia ao longe, no ar imóvel da noite? Fincou o olhar na treva. Ninguém! A estrada devia estar deserta. Tornou a entrar e foi sentar-se a um canto, com os cotovelos pontudos firmados nos joelhos e o rosto sumido entre as mãos. Caíra por fim numa atonia que lhe amolentava o esp írito e petrificava o corpo; nem um leve estremecimento lhe agitava os músculos. Permaneceu por longas horas em igual postura, olhando para o mesmo ponto. A pouco e pouco ideias desencontradas foram nascendo e fugindo simultaneamente no cérebro de devota extinta. Deus e o diabo surgiam juntos na mesma luz indecisa que se embatia em sombras, que mudava e que desaparecia. Santa Catarina, sua patrona, a virgem

douta, vinha também, na sua nudez pálida de martirizada, atravessar-lhe a mente num clar ão frouxo e frio. E depois outros santos, e grandes heresias, procissões fant ásticas, mal definidas, indeterminadas, arrastavam-se lentamente, mudando de feitio e mudando de cor, esfacelando-se, extinguindo-se... D. Catarina permanecia surda a todas as bulhas exteriores, numa abstração de louca. O clamor recrudescera, recrudescera e avizinhava-se. Os estalidos da fuzilaria crepitavam já perto. De vez em quando ribombava o canhão, atroador, medonho. O solo e as casas tremiam ent ão, abalados pelo estampido que o eco repetia em ondula ções soluçadas. O clamor da guerra abafava tudo, terrivelmente, dolorosamente! Entretanto, alguém vinha pela rua solitária, batendo a calçada com passos apressados. D. Catarina, prostrad íssima, continuava em igual postura, olhando para o mesmo ponto... Bateram; ela então, acordando daquele marasmo de extenuada, ergueu-se de chofre e correu para a porta. O coração saltava-lhe em ímpetos violentos, sufocadores. – Meu filho! Era o João, o mais velho, o soldado. A mãe estendeu-lhe os braços, sorrindo, enlevada, numa grande ventura. Ele não respondeu ao afago; e pálido, abstrato, sem ter nem mesmo levado a mão respeitosamente ao boné, foi direito à mesa e apoiou-se nela, deixando-se cair numa cadeira. – Como você vem sujo de pólvora e como est á cansado! Meu adorado filho, que medo que eu tinha! Agora fico pensando no outro... o meu Pedrinho... você sabe dele? João voltou-se para a mãe com ar espantado. – Diga, você viu seu irmão? O soldado não respondeu; fixava a mãe com olhar parvo, muito aberto, como se não compreendesse o que ela lhe dizia. Vinha fugido, com a farda rasgada, aberta no peito, as mãos negras de pólvora, o rosto transtornado. D. Catarina apavorou-se. Estaria doido, o João? Ameigando a voz ela pediu-lhe que repousasse e ofereceu-lhe de comer.

Que não; respondeu ele com um gesto. – Então... O espírito da mãe clareou-se de repente: o filho vinha s ó para dizer-lhe: vivo! E, já com medo de tornar a perdê-lo, instou para que fosse descansar. – Não posso... venho fugido. D. Catarina relanceou a vista por toda a sala, procurando esconder o filho, receosa de que o vissem de fora. – Não quero esconder-me, tornou ele, percebendo-lhe a intenção; eu volto para l á... Eles conseguiram vir à terra... temos lutado muito! Os revoltosos desembarcaram? – Sim. – Então viu Pedrinho? João abaixou afirmativamente a cabeça. – Nossa Senhora! Por que é que o não trouxe? O soldado calou- -se, suspirando baixo. A mãe repetia as perguntas, atropeladamente: – Diga! Diga! Ele falou com voc ê? Está bom? Não o feriram? Meu filho! Que saudade! Ele é t ão fraco... é preciso que ele venha; quero os dois aqui, vá busca-lo... Não, não! Eu nem sei o que digo... Espere... vou eu! De repente D. Catarina estacou diante do rosto mudo e pálido do filho. Parou-lhe o coração no peito. – Por que é que você não diz nada? O mesmo silêncio contrafeito. – Responde, João! Pedrinho está vivo?! A palavra custava a romper por elite os lábios do soldado, e foi ainda com um aceno de cabeça que ele disse que não. D. Catarina caiu de joelhos com as mãos juntas. – Misericórdia! Misericórdia! Mataram meu filho!

Depois, erguendo-se, exigiu do outro que lhe dissesse tudo, e instava: – Quem foi que o matou? Você não viu? Por que não defendeu seu irmão? Diga, quem foi que o matou, diga, diga! João olhou para a espada, que lhe pendia do lado batendo-lhe na perna. A mãe não entendeu e repetiu: – Meu adorado Pedrinho! Mas você não fala, João! Diga quem foi que o matou, diga tudo! – Fui eu... D. Catarina recuou espavorida; depois, avan çando para o filho, bateu-lhe no peito, bem sobre o coração e bateu-lhe na cara, muitas vezes e com muita força. Toda ela vibrava na convulsão do desespero, e a voz que a dor tinha desafinado e enrouquecido, uivava e rugia a um tempo, como um cão que se lamenta ou uma fera que ataca. – Maldito! Matar seu irmão! Você que mamou nos mesmos peitos, saiu do mesmo ventre, nasceu do mesmo amor! Amaldiçoado... Caim! D. Catarina esmurrava o próprio corpo, à proporção que falava; e o filho ouvia-a calado, tr êmulo. A mã e teimava por arrancar-lhe uma palavra ao menos e repetiu num desespero: – Diga tudo, maldito. Por que foi que você o matou, por quê? – Pela pátria! – Pela pátria! Repetiu ela, rindo, raivosamente. A pátria sou eu! Eu que sofri, e que vivia do vosso amor! Isto não é guerra por amor da pátria: eu sei o que dizem por aí. Eu sei! Infame, maldito... Some- -te da minha vista, Caim! Caim! D. Catarina caiu sem um soluço. Jo ão levantou-a, fê-la voltar a si e, de joelhos, chorosamente, contou-lhe tudo. Matara o irmão na treva, na desordem da luta, corpo a corpo. Por que viera o Pedro para ele com tanta fúria e arreganho? Matara quem o queria matar, defendera-se... porque, jurava, só conhecera a voz do irmão ao ouvir-lhe o ai derradeiro. Foi ent ão que procurando fixa-lo, viu-o deitado de costas, com os braços abertos e o peito estreito arquejando no desprender da vida.

D. Catarina repetiu: – Amaldiçoado! João concluiu: viera despedir-se da mãe, pedir-lhe que lhe perdoasse... Mais nada. Voltava para o combate. A mãe não procurou retê-lo, e ele saiu chorando. O soldado não voltou à casa materna... D. Catarina começou a perdoar-lhe quando teve medo de perdê-lo. Um dia, já muito sobressaltada, saiu para ir buscá-lo, num alvoroço, sem saber como perguntar por ele; mas logo no meio da estrada esbarrou com uns soldados que lhe disseram cruamente a verdade: o João tinha sido baleado e fora levado com outros, num montão de cadáveres. O dia estava sombrio, uma manhã cinzenta e chuviscosa. Os soldados passaram. D. Catarina ficou imóvel, com os olhos na onda verde que vinha desfazer-se na escumilha fofa da espuma, à beira do caminho silencioso. Ela tinha-o amaldiçoado... lembrava-se daquilo. O Jo ão estava decidido a morrer... fora-lhe solicitar o perdão e só tinha ouvido em troca as palavras: – Maldito! Caim! O vento agitava-lhe o xale preto, que se abria em asas de corvo, e D. Catarina, alongando a vista, julgou ver ao longe os espectros dos filhos, com os braços hirtos, muito erguidos para o céu inclemente e as bocas articulando sem voz, num esforço medonho: – Pela pátria! Pela pátria! Batendo então com as mãos inclinadas no peito fundo, D. Catarina, no seu egoísmo materno, respondeu-lhes, gritando em arrancos de louca: – Calai-vos, ingratos! A pátria sou eu! Sou eu! Sou eu!

Ânsia Eterna

Sinopse

Ânsia Eterna, de Júlia Lopes de Almeida, é uma coletânea clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 30 contos com fonte pública validável na Biblioteca Digital do Senado Federal, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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