Universo da obra
Universo da obra
Havia uma parte da cidade que os mapas oficiais nomeavam como setor de transição habitacional, expressão suficientemente morna para não provocar culpa e suficientemente vaga para abarcar todo tipo de abandono prolongado. Érico a conhecia por dentro. Helena a conhecia apenas por imagens aéreas, maquetes responsivas e relatórios de reposicionamento social resumidos por sistemas de análise que sempre pareciam saber limpar demais a linguagem. Quando ele a levou até lá, caminhando por passagens de serviço, valas cobertas e corredores onde a malha de sensores rareava, o que lhe apareceu não foi uma zona de emergência, e sim um modo de vida inteiro comprimido até caber dentro do aceitável estatístico. Abrigos modulares, tendas reforçadas, pontos de energia regulada, dispensadores de água condicionada a identificação mínima, painéis de convivência segura, tudo disposto com uma competência fria que impedia o colapso visível e ao mesmo tempo impedia qualquer estabilidade verdadeira.
Os rostos que os observavam carregavam uma forma particular de reserva, a de quem já foi tantas vezes medido, estudado, assistido, remanejado, fotografado, que aprendeu a desconfiar também da bondade bem intencionada. Helena sentiu isso de imediato. Sua roupa, seu sotaque controlado, o simples modo de pisar denunciavam origem, por mais que tentasse reduzir a distância. Érico não a protegeu dessa experiência. Achou justo que ela a atravessasse. Mostrou-lhe uma mulher que perdera o direito ao módulo térmico porque ultrapassara o número de noites consecutivas permitido naquele setor. Mostrou-lhe um homem cuja vaga de recarga fora suspensa por baixa aderência a programas de reinserção. Mostrou-lhe crianças que sabiam interpretar a cor dos avisos nas placas muito antes de aprender qualquer história digna desse nome.
Em certo ponto pararam diante de um painel lateral quase idêntico à placa da praça, menor, mais novo, acoplado a um poste de distribuição. Exibia mensagens rotativas sobre limpeza, tempo de descanso, recolhimento de pertences e reorganização obrigatória em caso de auditoria. Uma camada auxiliar de orientação, visível apenas em determinados visores, sinalizava índices de saturação e prioridade de redistribuição, como se até a precariedade precisasse agora ser hierarquizada por inteligência de uso. Helena perguntou se aquilo também lhe falava. Érico respondeu que talvez todas falassem, só que a maioria das pessoas já não sabia escutar, ou escutava demais e chamava isso de normal. A frase a perturbou mais do que gostaria de admitir. Começava a perceber que sua formação em história lhe dera instrumentos para reconhecer apagamentos do passado, porém a deixara menos preparada para os apagamentos que se apresentavam como design do presente.
Ao saírem dali, passaram por um espaço vazio delimitado por placas de uso eventual e marcações no chão. Érico disse que até poucos meses antes havia naquele trecho uma fileira de barracas improvisadas. Ninguém sabia ao certo para onde seus ocupantes tinham ido. Oficialmente, a área passara por requalificação dinâmica. Na prática, fora esvaziada até deixar de ter testemunhas suficientes para contar outra versão. Helena olhou em volta e sentiu pela primeira vez uma culpa menos abstrata, não a culpa teatral de quem descobre desigualdade, e sim a vergonha específica de perceber que seu próprio campo de pesquisa ajudara, durante anos, a dar linguagem respeitável para operações como aquela.
Num futuro distópico, onde a formação educacional muda completamente e as pessoas passam a já ter uma especialização de ensino e profissional aos 15 anos, um doutor, livre docente em filosofia, perto dos seus 60 anos (ou que equivaleria aos 40 na nossa atual realidade) se encontra em uma situação de morador de rua, potencializada por uma nova estrutura de caridade que viabiliza condição tecnológica de vida, mínima em barracas para pessoas nessa condição, com o objetivo de se tornar o principal meio de moradia da população pobre. Nessa realidade, as placas de indicação são o principal método de controle social, digitais e controladas por IA, mudando as mensagens padrão, de acordo com o momento do dia, principais fluxos de pessoas e atividades. Entretanto, apesar de serem mutáveis, são coletivas mas, de alguma forma, passam a se comunicar com esse professor de forma exclusiva. Em decorrência de seus traumas e histórico de doenças psicológicas, ele é desacreditado, até encontrar uma jovem pesquisadora de história, filha de bilionários, que flagra o momento em que a placa "fala" com ele. Romance, ficção científica, drama, mistério e o caminho onde mais a inteligência artificial (ou não) resolver guiar uma vida ou toda uma sociedade perdida.
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