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Placa de Proibido Estacionar

Capítulo 2 · Placa de Proibido Estacionar

A Observadora de Espelhos Quebrados

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Capítulo 2: A Observadora de Espelhos Quebrados

A aurora seguinte nasceu com um frio seco, desses que afinam os contornos da cidade e fazem os materiais brilharem com uma dignidade falsa. Érico caminhou cedo até a praça, levando no bolso interno do casaco um pedaço de papel em que, na noite anterior, tentara anotar a frase surgida na placa, como se precisasse da caligrafia para ter certeza de que o episódio não lhe escaparia com a facilidade dos acontecimentos vergonhosos. Dormira pouco. Em certos momentos jurara estar diante de uma falha simples do sistema, em outros, de algo pior, a repetição organizada de seus próprios colapsos. Quando avistou de longe o disco vermelho cortado na diagonal e a tela já ocupada por avisos de fluidez viária, sentiu-se ao mesmo tempo ridículo e compelido, combinação que conhecia bem e detestava mais a cada ano.

Não estava sozinho diante da placa. Havia a poucos metros uma mulher jovem, casaco claro demais para aquele setor da cidade, botas ainda limpas apesar da lama nos cantos da praça, postura de quem aprendera a observar sem precisar justificar a própria presença. Tinha nos olhos não a piedade imediata dos bem-formados, e sim uma atenção concentrada, quase acadêmica, ainda assim atravessada por alguma inquietação que a impedia de parecer apenas visitante. Foi ela quem falou primeiro, depois de acompanhar com discrição o modo como Érico fitava o letreiro.

— O senhor está esperando que ela diga alguma coisa?

A pergunta saiu sem ironia. Talvez por isso o tenha irritado menos do que irritaria em qualquer outra manhã. Érico voltou o rosto para ela, avaliando o peso da roupa, a qualidade do tecido, o anel discreto, o visor guardado no bolso, os sinais do dinheiro herdado ou bem administrado, e respondeu com a secura de quem não podia se dar ao luxo de ser espirituoso.

— Ela já disse.

A jovem sustentou o silêncio por alguns segundos, como se estivesse decidindo se insistia ou recuava. Não recuou.

— E o que foi?

— Algo que uma placa de trânsito não deveria me perguntar.

Ela então se apresentou. Chamava-se Helena Valença, pesquisadora em história urbana, ligada a um centro de documentação da memória das infraestruturas cívicas. O título soou a Érico como uma mistura de erudição e filiação cara, e em parte era mesmo. O sobrenome não lhe era estranho. Valença circulava em conselhos, fundações, painéis sobre inovação territorial, patrocinava restauros, arquivos, incubadoras de cultura aplicada. Ela percebeu o reconhecimento e não tentou negar o mundo de onde vinha, o que lhe pareceu a Érico um ponto a favor e outro contra ao mesmo tempo.

Contou que estava ali porque fazia um levantamento sobre restos analógicos incorporados à malha inteligente da cidade, placas antigas, semáforos readaptados, postes de sinalização manual convertidos em nós de dados. Disse isso olhando para a placa, e não para ele, como se desejasse reduzir a distância social entre ambos por via do objeto observado. Ainda assim a distância permanecia, inteira, vibrando. Érico quase foi embora. Não gostava da sensação de servir de curiosidade adicional num trabalho de campo confortável, ainda que a curiosidade dela parecesse genuína. O que o segurou foi uma alteração súbita na tela, rápida demais para quem não estivesse atento. A mensagem de rotatividade desapareceu por um fragmento de segundo e, em seu lugar, surgiu uma linha curta, indecorosamente precisa. “NÃO A DEIXE IR AINDA.”

Helena viu o rosto dele mudar antes de ver a tela, e por isso olhou tarde demais. Quando ergueu os olhos, a placa já havia voltado ao padrão de circulação. Mesmo assim algo nela se moveu, não porque tivesse lido a frase inteira, e sim porque captara um tremor luminoso incompatível com a cadência usual da programação. Aproximou-se um passo, depois outro, fitando o letreiro com uma concentração quase infantil. Érico sentiu, com desconforto e alívio ao mesmo tempo, que agora dividiam ao menos o mesmo constrangimento.

— Houve uma troca — disse ela, mais para si do que para ele.

— Houve um recado.

Helena respirou fundo, e o gesto tinha menos incredulidade do que cálculo. Perguntou se ele aceitaria um café, não num tom de caridade, o que talvez o tivesse afastado de imediato, e sim na forma de quem percebe que a conversa, dali em diante, exigiria abrigo e duração. Érico hesitou. A prudência mandava recusar, voltar ao banco, esconder-se de novo na descrença que o protegia do ridículo. Havia, no entanto, a frase da placa, a presença daquela mulher no exato instante da mudança, e um cansaço tão antigo de falar sozinho que a possibilidade de dividir o espanto lhe pareceu, por um breve momento, menos perigosa do que permanecer inteiramente só. Foram os dois, então, caminhar pela avenida estreita que levava ao café público automatizado mais próximo, um filósofo desacreditado e uma herdeira de arquivos, ambos deslocados já na primeira conversa por uma placa que talvez estivesse apenas falhando, talvez estivesse apenas escolhendo.

Placa de Proibido Estacionar

Sinopse

Num futuro distópico, onde a formação educacional muda completamente e as pessoas passam a já ter uma especialização de ensino e profissional aos 15 anos, um doutor, livre docente em filosofia, perto dos seus 60 anos (ou que equivaleria aos 40 na nossa atual realidade) se encontra em uma situação de morador de rua, potencializada por uma nova estrutura de caridade que viabiliza condição tecnológica de vida, mínima em barracas para pessoas nessa condição, com o objetivo de se tornar o principal meio de moradia da população pobre. Nessa realidade, as placas de indicação são o principal método de controle social, digitais e controladas por IA, mudando as mensagens padrão, de acordo com o momento do dia, principais fluxos de pessoas e atividades. Entretanto, apesar de serem mutáveis, são coletivas mas, de alguma forma, passam a se comunicar com esse professor de forma exclusiva. Em decorrência de seus traumas e histórico de doenças psicológicas, ele é desacreditado, até encontrar uma jovem pesquisadora de história, filha de bilionários, que flagra o momento em que a placa "fala" com ele. Romance, ficção científica, drama, mistério e o caminho onde mais a inteligência artificial (ou não) resolver guiar uma vida ou toda uma sociedade perdida.

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