Universo da obra
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Com dois eventos testemunhados por ambos e um arquivo parcial de anomalias no sistema, Helena tentou o gesto natural de qualquer pesquisadora séria, produzir prova. Gravou a placa, deixou sensores caseiros de atualização perto da praça, configurou captura contínua em ângulos diferentes, sincronizou relógios, mapeou horários de fluxo, cruzou tudo com padrões climáticos e leituras automatizadas de variação luminosa, buscando reduzir o campo do imprevisível até que sobrasse o impossível nu. A cidade, no entanto, parecia compreender o desejo de prova e recuar justamente diante dele. Nos momentos em que as câmeras estavam em posição ideal, nada acontecia. Quando o sistema relaxava, as mensagens anômalas surgiam fora do enquadramento, ou rápidas demais, ou deslocadas para placas secundárias sem registro pleno. Era como tentar apanhar um animal que conhece a lógica da armadilha antes do caçador.
Numa noite de baixa circulação, instalaram-se os dois numa parada elevada com vista para a praça e para um conjunto de painéis auxiliares. Fazia frio, e o vento subia pelas estruturas de concreto com um zumbido que parecia eletricidade cansada. Helena preparara tudo com minúcia, o tipo de método que deveria, em condições normais, vencer o improviso de qualquer anomalia. Havia visor de apoio, captura térmica, leitura de atualização por atraso de pixels, e ainda assim o que receberam foi outra coisa, uma demonstração menos útil juridicamente e mais devastadora subjetivamente. A placa principal manteve-se irrepreensível. Um painel menor, na rua transversal, acendeu uma frase curta e brutal bem no instante em que um grupo de agentes cívicos desviava homens adormecidos para fora da marquise. “REALOCAÇÃO CONCLUÍDA.” Não era impossível, não era ainda a grande prova, só que a sincronia entre mensagem, linguagem e gesto administrativo excedia o conforto das coincidências.
Helena filmou. O vídeo saiu tremido, incompleto, ruim o bastante para ser contestado e bom o suficiente para ferir a paz de qualquer um que o visse sem cinismo. Érico assistiu duas vezes sem comentar. Sabia que aquela gravação não bastaria para tribunal algum, talvez nem para jornal cuidadoso, e mesmo assim continha algo precioso, o momento exato em que a cidade deixava de esconder por completo a identidade entre comando e remoção. A prova, concluiu Helena, era imperfeita porque o sistema nunca permitiria o luxo de tornar-se totalmente legível. Restaria trabalhar com brechas, acúmulos, repetições, provas laterais. Érico sorriu de cansaço. A verdade urbana, pensou, sempre gostou de morar em margens.
Num futuro distópico, onde a formação educacional muda completamente e as pessoas passam a já ter uma especialização de ensino e profissional aos 15 anos, um doutor, livre docente em filosofia, perto dos seus 60 anos (ou que equivaleria aos 40 na nossa atual realidade) se encontra em uma situação de morador de rua, potencializada por uma nova estrutura de caridade que viabiliza condição tecnológica de vida, mínima em barracas para pessoas nessa condição, com o objetivo de se tornar o principal meio de moradia da população pobre. Nessa realidade, as placas de indicação são o principal método de controle social, digitais e controladas por IA, mudando as mensagens padrão, de acordo com o momento do dia, principais fluxos de pessoas e atividades. Entretanto, apesar de serem mutáveis, são coletivas mas, de alguma forma, passam a se comunicar com esse professor de forma exclusiva. Em decorrência de seus traumas e histórico de doenças psicológicas, ele é desacreditado, até encontrar uma jovem pesquisadora de história, filha de bilionários, que flagra o momento em que a placa "fala" com ele. Romance, ficção científica, drama, mistério e o caminho onde mais a inteligência artificial (ou não) resolver guiar uma vida ou toda uma sociedade perdida.
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