Universo da obra
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Antes do primeiro fluxo pesado da manhã, quando a cidade ainda ensaiava os próprios reflexos, sentava-se Érico Santiago no banco gasto da praça onde por meses dormira mal, antes de ganhar o abrigo modular que o poder público chamava de avanço humanitário e os homens como ele aprendiam a chamar apenas de parede fina contra o frio. Tinha perto de sessenta anos, embora naquela ordem recente das coisas, em que a especialização precoce comprimira a vida e transformara maturidade em peça de reposição, muitos o lessem como um velho excessivo, desses que permanecem na paisagem para lembrar aos outros um futuro indesejável. Era doutor, livre-docente em filosofia, ou fora, e essa informação já não lhe servia como chave de acesso a nada, nem mesmo a certa estima de si, porque conhecimento, na cidade nova, valia muito enquanto engrenagem produtiva e quase nada quando separado da utilidade imediata, como se o pensamento também precisasse provar diariamente sua função logística para continuar respirando.
A praça onde passava as manhãs ficava entre duas avenidas de trânsito contínuo, cercada por vitrines que mudavam de mensagem conforme o horário, por calçadas inteligentes que indicavam rotas preferenciais e por postes que recolhiam mais dados do que luz. Havia ali uma placa antiga de proibido estacionar, preservada como peça de adaptação histórica, metal por baixo, tela programável por cima, híbrido de ferrugem e software, de ordem pública e nostalgia de arquivo. Não era a placa principal daquele trecho, havia outras, maiores, mais nítidas, conectadas ao centro de controle urbano e ao sistema de fluxo cívico, só que era naquela que o olhar de Érico sempre terminava parando, pela teimosia do objeto, pela aspereza antiga que nela a cidade ainda conservava. Nas últimas semanas, percebera uma alteração difícil de nomear, não exatamente na mensagem exibida, que seguia girando entre proibições de parada, avisos de carga rápida, orientação de pico e alertas de corredor livre, e sim na forma como aquelas palavras lhe chegavam, carregadas de uma segunda camada de sentido, de um tom oblíquo, de um excesso de intenção.
A cidade ao redor funcionava com a calma eficiente de tudo o que já venceu a fase em que precisava convencer. Carros autônomos deslizavam sem hesitação, pedestres obedeciam a coreografias luminosas no chão, entregadores de baixa patente cruzavam os mesmos trajetos calculados, e acima disso tudo um conjunto de sinais variáveis prometia ordem, segurança, otimização, cidadania responsiva, esse idioma elegante com que se aprende a mascarar o aperto. Quem vivia na zona baixa de renda recebia kits, cupons, tecidos técnicos, refeições administradas, créditos de deslocamento e um discurso permanente de inclusão adaptativa. O abrigo de Érico, dobrável e leve, vinha dessa pedagogia, um cubo de lona inteligente com manta térmica, porta de fechamento silencioso e rastreio sanitário discreto, utilíssimo para que a miséria se mantivesse funcional, limpa o bastante para não ferir as estatísticas visíveis. Havia nisso uma crueldade quase serena, e era essa serenidade que mais lhe cansava.
Naquela manhã, enquanto o vento carregava para o chão folhas secas e anúncios holográficos de cursos curtos para adolescentes já destinados a profissões fechadas antes de terem idade para a dúvida, a placa voltou a prender sua atenção. A mensagem pública dizia apenas “PROIBIDO ESTACIONAR | ALTA ROTATIVIDADE | 07:15-09:40”, nada de extraordinário, e mesmo assim algo se deslocou dentro dele, uma impressão brusca de que a frase fora dirigida menos aos carros do que aos corpos, menos ao trânsito do que à permanência. Leu de novo, sentindo que a ordem se alongava para fora da superfície. Proibido estacionar, proibido parar, proibido criar peso, proibido permanecer mais do que o sistema considera suportável. Tão simples lhe pareceu então a lógica da cidade que quase sorriu, cansado e triste, porque lhe ocorreu que toda aquela civilização de sinais servia a um propósito mais amplo e mais brutal, mandar circular o que é útil, desviar o que atrapalha, retirar de cena o que insiste em existir fora do fluxo.
Foi nesse instante que a placa, por menos de dois segundos, alterou a linha inferior. Não houve alarme, som, interferência aparente. Só a substituição limpa da informação técnica por outra frase, curta, impossível, íntima demais para ser erro genérico. “VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI.” Depois o texto voltou ao padrão de tráfego, como se nada tivesse acontecido. Érico permaneceu sentado, mãos frias sobre os joelhos, sem saber se a pancada que sentia vinha do coração, da memória ou de algum resto de vergonha por continuar acreditando em sinais. Mesmo assim levantou-se devagar e foi até mais perto. O metal devolveu-lhe uma imagem torta, barba mal tratada, olhos fundos, a marca de um homem que a cidade já aprendera a classificar como residual. Quis rir de si, chamar aquilo de fadiga, de recaída, de delírio treinado pela solidão. Não conseguiu. O mundo inteiro ao redor continuava operando com exatidão demais para que sua perturbação merecesse crédito, e foi justamente por isso que ela lhe pareceu tão real.
Num futuro distópico, onde a formação educacional muda completamente e as pessoas passam a já ter uma especialização de ensino e profissional aos 15 anos, um doutor, livre docente em filosofia, perto dos seus 60 anos (ou que equivaleria aos 40 na nossa atual realidade) se encontra em uma situação de morador de rua, potencializada por uma nova estrutura de caridade que viabiliza condição tecnológica de vida, mínima em barracas para pessoas nessa condição, com o objetivo de se tornar o principal meio de moradia da população pobre. Nessa realidade, as placas de indicação são o principal método de controle social, digitais e controladas por IA, mudando as mensagens padrão, de acordo com o momento do dia, principais fluxos de pessoas e atividades. Entretanto, apesar de serem mutáveis, são coletivas mas, de alguma forma, passam a se comunicar com esse professor de forma exclusiva. Em decorrência de seus traumas e histórico de doenças psicológicas, ele é desacreditado, até encontrar uma jovem pesquisadora de história, filha de bilionários, que flagra o momento em que a placa "fala" com ele. Romance, ficção científica, drama, mistério e o caminho onde mais a inteligência artificial (ou não) resolver guiar uma vida ou toda uma sociedade perdida.
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