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Patkull

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Patkull

Capítulo 2 · Patkull

Ato II

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Ato II

Ato II

PERSONAGENS

NAMRY ROMHOR.

BERTHA.

PAIKEL.

WOLF.

Um pajem .

A cena se passa no Ducado de Mecklenburg.

A mesma sala que a do ato primeiro.

Cena I

PAIKEL.-

(Entra.) Ainda a não pude

ver um só instante -ontem passei o dia silencioso e tristonho à

espera de mensagem dela... e esperei debalde: hoje me recusou ela uma

entrevista pretextando incômodo... Hei-de falar-lhe.

(Toca a campainha.) Abusar assim

da confiança de um amigo, da sua cordialidade e franqueza, é uma

infâmia. -Mas por que me roubou ele o coração de Namry -por

que se veio interpôr no meu caminho?

(Entra

O PAJEM .) Que me queres?

O PAJEM.- Pensei que éreis vós quem chamáveis!

(Indo para sair.) Perdoai!

PAIKEL.- Sim, fui eu: dize-me -poderei falar à senhora

duquesa?

O PAJEM.- Dizem que amanheceu doente.

PAIKEL.- Quanto o ama!

(À parte.) E tu, pajem,

podes-lhe falar?

O PAJEM.- Nada. Senhor, não.

PAIKEL.- Quem então?

O PAJEM.- A sua dama, Senhor.

PAIKEL.- E ela?...!

O PAJEM.- Está também doente.

PAIKEL.- Por Deus que é muita moléstia num dia. Pajem, faze

o que quiseres, avém-te lá como puderes -hás-de fazer

chegar aos ouvidos da senhora duquesa que eu tenho que lhe dizer da parte do

senhor Patkull, e que talvez daqui a uma hora já tenha partido.

(Faz-lhe sinal com a mão que

saia.) Vai bem diverso o tempo de quando a todos os instantes me

esperavam, apesar de estranha vigilância, Namry?!

(Entra

WOLF .)

WOLF.- Senhor Paikel! Senhor Paikel!

PAIKEL.- Que tens tu, pajem?

WOLF.- Notícias de meu amo, mandou-as ainda de caminho, e que a

esta hora estaria em Desdre!

PAIKEL.- Tu amas muito meu amo, Wolf!

WOLF.- Ele também me ama muito!! Ainda pequeno fiquei sem pai,

nem mãe; passou ele acaso por Casimir onde era meu tio carcereiro da

prisão do rei. Ele viu-me e como meu tio de pouco me poderia servir,

cedeu-me ao senhor Patkull que disse me havia de fazer feliz. Meu bom tio se

despediu de mim chorando, porque me amava muito o bom Sally! Depois desse tempo

tenho sempre vivido com ele: se soubésseis quanto é meu amigo!!

Quanto o amo...

PAIKEL.- Tens razão, Wolf, ama-o muito e não terás

de que te arrepender. Ele é um amigo que não atraiçoa o

seu amigo, sua palavra é santa e pura. Tu és novo, Wolf, na tua

idade ainda há reconhecimento para um sorriso, e amor para o mimo que

nos mostram.

(Entra a duquesa um pouco pálida e

vagarosa.) Vai, bom pajem, logo mais falaremos.

Cena II

NAMRY ROMHOR e

PAIKEL .

NAMRY.- Mandastes-me dizer, Senhor, que tínheis recados para mim

da parte do vosso amigo!

PAIKEL.- E a não ser isso, não é verdade que nem

sequer uma vez, vos dignaríeis de mostrar-vos ao vosso

hóspede?

NAMRY.- Ninguém vos mandou aceitar a sua hospedagem, Senhor.

PAIKEL.- Foi a única desculpa que me não veio à

mente. Patkull rir-se-ia se eu lha desse; e eu talvez que outro tanto fizesse

ao sensato que a sonhasse!

NAMRY.- Nem era mister que lhe désseis precisamente esta: bastava

recusar. Um pretexto de negócio ou de interesse nunca falta ao homem;

é um motivo que todos compreendem!

PAIKEL.- Todos! Senhora!! É certo que não daríeis

crédito ao homem que vos dissesse: interesse e glória tenho eu

sacrificado para seguir a ilusão de um tempo que já passou,

memórias de amor correspondido, sonhos ditosos da infância que o

acordar dos anos dissiparam na mulher que então me amava.

NAMRY.- Senhor Paikel!

PAIKEL.- Quando ele vos dissesse; soube que estavas presa em novo enleio,

e esta certeza não deu quebranto ao meu amor, não o acreditareis

por que não é do interesse do homem o aviltar-se?

NAMRY.- Sim.

PAIKEL.- Não o acreditaríeis quando ele vos dissesse,

sacrifiquei o meu repouso; vaguei noite e dia ao vento e à chuva -aos

raios do sol e ao frio de inverno para demorar ao menos por um dia um

casamento, que se ia concluir, e roubar-me para todo sempre esperanças

de ventura tão mimosa que a existência me douravam!

NAMRY.- Paikel!

PAIKEL.- Se ele vos dissesse eu tenho um amigo; amava-o como se ele fora

meu irmão, como a mim próprio: Estivesse eu a rezar sobre o

túmulo de meu pai -iria para ele quando a sua voz me chamasse. Estivesse

eu a morrer de fome e de sede -dar-lhe-ia o único pedaço de

pão que me pudesse aliviar a fome -dar-lhe-ia a sede de água que

me pudesse umedecer as fauces! Eu amava-o; e para ver a mulher que amava

manchei a minha honra, e trai a amizade! Também o não

acreditaríeis, porque a honra e amizade valem mais que o ouro, mais que

o sangue!

NAMRY.- Se Patkull vos ouvisse!!

PAIKEL.- Foi por isso que o mandei para longe. Mas em troco de um

momento, que seria de delícias para ele e nada mais para mim que absinto

e fel, dei-lhe honras e consideração. Eu bem sabia que ele tinha

no coração uma corda inteira, que vibraria a todo o momento como

uma harpa vaporosa; bem sabia eu que o nome da Livônia ainda era para ele

mais que um nome. Vali-me dessa virtude -e em recompensa do amor lhe dei a

glória!

Há homens bem afortunados neste mundo; quando a

desgraça como um céu grávido de tempestade paira sobre

eles; então lhes sorri a fortuna mais brilhante, como o raiar de um sol

de primavera.

NAMRY.- Por que falais assim, Senhor?

PAIKEL.- Por quê?... Porque eu não sou desses homens, e no

entanto pouco me bastava para o ser. Porém minhas palavras são um

enigma que pareceis não compreender!... Quem o dissera!... Se algum

venerável astrólogo lesse nos astros tão incrível

horóscopo, certo que eu me rira da sua ciência, e deixaria o velho

ausentar-se impune, condoído de tanta loucura! Hoje não me

entendeis, Namry -minhas palavras ferem os vossos ouvidos como se foram um

monumento de pedra, que mas repercutisse em eco; minha presença vos

escandaliza; e para mim até deslembrastes a polidez com que tratais a

todos.

NAMRY.- Quereis perder-me, Senhor?

PAIKEL.- Senhor! Sempre Senhor! A pouco resumes a tua civilidade,

Namry... Quero-te contar uma história. Havia um duque... não sei

onde! Poderoso e nobre era o duque -cheio de altivez e de orgulho -porém

severo guardador da sua palavra -um pobre cavaleiro amava a filha do duque,

julgando haver na filha tanta religião de palavra, como no pai: tal

não era. Amavam-se ambos! Porém de que vale o amor quando reina o

interesse! Por interesse o duque negou sua filha ao cavaleiro e a filha chorou

porque nesse tempo também o amava. Depois... familiarizou-se com a sua

sorte; pouco a pouco abraçou as opiniões do pai -e renegou o

amante, como o pai tinha rejeitado o amigo. É bem verdade o que dizeis,

Senhora: o interesse é um motivo que todos compreendem!

NAMRY.- Não mais -Senhor. -Promessas da infância, dita-as a

imprudência -hoje o dever se opõe a elas. -Eu não vos iria

pedir contas do que houvésseis feito; não mas vinde também

pedir -a mim.

PAIKEL.- Não vos peço contas -somente como talvez seja a

última vez que nos veremos -conto-vos uma história -coisas de que

me pareceis esperta -eu vos dizia, Namry, que a filha do duque e o cavaleiro se

amavam. Não se tratavam como nós por Senhor: esse véu

grosseiro de civilidade que não diz amor, nem gratidão porque

indistintamente se confere a todos; tratavam-se por tu. A filha do duque...

não me acorda o seu nome -chamá-la-emos Namry -Namry, essa

moça inocente e pura, que a não acharíeis mais. O

cavaleiro pensava que dificultosamente a possuiria: e em um dia pensando nisto,

chamava-lhe a senhora duquesa -então a pobre moça chorava e

soluçava, que não havia acabar com tais soluços porque se

julgava menos amada.

NAMRY.- Por piedade!

PAIKEL.- Como ela se enganava a si própria! Criatura inocente?

Como a fé do seu coração se debateria em um caos de

sombras e de trevas, se lhe dissessem então que ela um dia não

compreenderia as palavras daquele de quem até adivinhava os pensamentos!

Um caso mal apercebido -um volver de olhos insignificante -uma flor colhida

há pouco -e lançada no meio duma leiva de flores -uma pegada

simples no meio de uma alameda -tudo tinha um nome -uma

significação -uma lembrança.

Acreditareis isto, Namry!

NAMRY.- Quereis perder-me?

PAIKEL.- Perder-vos, Senhora! Brincais comigo! Perder-vos -a mulher

sisuda e grave que lançou o esquecimento sobre o passado, como se

lança uma mortalha sobre as feições decompostas de um

cadáver -a mulher que tem tão gravados na sua consciência

seus deveres de hoje -que nem se lembra dos de ontem!... Perder-vos! Se outra

pessoa me dissesse estas palavras no meio do rumor e do giro de regozijo e

festa, sem dúvida que eu as aceitaria como uma delicada galanteria.

NAMRY.- E no entanto tu bem vês que eu luto comigo mesma para

não ceder -Não sabes que horrível seria atraiçoar

assim: eu, o esposo tão amante -tu, o amigo tão sincero.

Tem piedade de mim!

PAIKEL.- E o que pediria a vítima, a quem o carrasco martirizasse

a golpes de mal afiada segure? Em breve te cingirão os braços do

teu esposo, e te esquecerás do malfadado que se irá por terras de

estranhos com a dor no coração -e as lágrimas nos olhos. E

o que pediria eu, Namry?

Ainda há pouco apareceste diante de mim com as

sobrancelhas carregadas de increpações, e me endereçaste

palavras de amargor e de cólera que eu duvidei por um instante, se eu

era verdadeiramente Paikel -e tu verdadeiramente Namry Romhor -e se ambos

nós nos tínhamos amado em outros tempos.

NAMRY.- Por Deus, Paikel -que queres tu que eu faça?

PAIKEL.- Nada, Namry; não quero nada. E se tu soubesses?... Quando

soube que já me não amavas -quando mais não pude duvidar

-fiquei estúpido e frio como uma rocha batida pelas vagas -Depois mil

pensamentos remoinharam em minha alma; eu me julguei doido, e a cabeça

se me estalava com dores. Quis te ver ainda uma vez, porque visse se eras

tão bela como dantes, do que eu duvidava. Trazia mil coisas para te

dizer -mil palavras de furor e desespero -de injúria e de insultos -e

tudo se acabou quando te avistei. Se estivéssemos sós, eu me

lançaria a teus pés para te pedir perdão de ter

desconfiado de ti e hoje mesmo, ainda o faria se me não viesse gelar a

voz nos lábios com tua voz fria e grave.

NAMRY.- Meu Deus, meu Deus!

PAIKEL.- Uma palavra só, e eu me retiro para sempre: Namry, por

nosso amor tão formoso de outras eras -pelo amor que hoje tens se te

não acordas do pobre homem que te adorava com todas as veras do seu

coração, Namry, já me não amas?

NAMRY.- Por que mo perguntas, Paikel?

PAIKEL.- Por Deus -eu to suplico -Dize-me uma palavra só -e eu me

irei, Namry; e nem mais ouvirás falar de mim se notícias minhas

te importunam -não me amas?

NAMRY.- Mas seria fazer-te uma confissão!

PAIKEL.- E é o que te peço -livra-me desta dúvida

que me esmaga o coração: Dize-me que sim ou que não -pouco

será para ti dizeres uma palavra -só -nada mais que uma palavra.

-porque não me posso persuadir que em tão pouco tempo te

esquecesses de tudo. Livra-me desta incerteza que me endoidece -por quem

és -e eu te beijarei as mãos e os pés -e o sítio em

que pisas -dar-te-ei minha vida se ma pedires, e bendirei o teu nome.

NAMRY.- Basta! Basta! Meu amigo.

(Abraçando-o.)

PAIKEL.-

(Apertando-a nos braços.)

Meu amigo!

NAMRY.- Deixa-me chorar -deixa-me chorar de prazer nos teus

braços, meu Paikel, custava-me tanto ver-te sofrer!

(Abraçados.)

PAIKEL.- Eu bem sabia que tu eras sempre a minha Namry -e que o meu

coração não me enganava.

(Ela tem a cabeça nos ombros

dele.)

NAMRY.- Vem gente!

PAIKEL.- Não é ninguém -deixa-te estar sobre o meu

coração -deixa-me ver o teu rosto -há tanto tempo que

não via -precisava tanto de ti! Precisava tanto do teu amor!

(Abre-se a porta e aparece

BERTHA .)

Cena III

PAIKEL tem as costas para a porta

da esquerda do espectador, por onde entrou

BERTHA - BERTHA traz um véu e

pára um pouco à porta.

PAIKEL , que ficou a olhar para o sítio por onde

desapareceu

NAMRY , olha repentinamente para trás -e

dá com

BERTHA .

PAIKEL e

BERTHA .

BERTHA.- Muito sinto de vos ter surpreendido, Senhor!

PAIKEL.- Como deveis saber, a casa não é minha -tendes

direito de entrar nela e disto nada estranho. -Mas como agora me parece que

tendes de me falar -dar-me-ia por mui feliz se em alguma coisa vos pudesse ser

agradável.

BERTHA.- Obrigadíssimo, Senhor -porém não vim para

vos pedir favores.

PAIKEL.- Não tendes que me agradecer, a não ser a minha boa

vontade; e apesar de tudo ser-me-á permitido pedir-vos um favor com

tanta franqueza com quanta recusaste o meu préstimo.

BERTHA.- Podeis pedir, Senhor -porém desde já tende a

certeza de que não vô-lo faço.

PAIKEL.- E por quê, Senhora?

BERTHA.- Porque nada me poderia pedir Paikel que eu lho pudesse

fazer.

PAIKEL.- Oh! Mas parece que já nos conhecemos.

BERTHA.- Tendes tido o cuidado de escrever o vosso nome por tanto lugar

imundo e sórdido, que não é muito que eu vos

conheça.

PAIKEL.- Perdoai, Senhora -porém para ter tido o meu nome em tais

lugares -seria preciso ter-vos abaixado até eles.

BERTHA.- Vós o dizeis, Senhor!

(Descobre-se.)

PAIKEL.- Bertha!!!

BERTHA.- Já me conheceis, Senhor? Julguei que já vos

teríeis esquecido das minhas feições como já vos

esquecestes da minha voz. Ora pois, agora que me conheceis -dizei-me:

não é verdade que já desci bem baixo, aos mais

ínfimos degraus da sociedade -aos lugares mais torpes e obscenos?

Dizei-me!

PAIKEL.- Que vieste aqui fazer, Bertha?

BERTHA.- Essa pergunta deveria ser a minha; mas... responder-vos-ei;

inquiri a vossa consciência se ainda a tendes, e ela vos dirá o

que aqui vim fazer. -Pesai as vossas intenções, Senhor, e

concluireis depois que por amor de vós e por amor de mim -livrei-vos de

ser um infame sedutor por mais uma vez -e um amigo ingrato e refalsado, se

já o não fostes.

PAIKEL.- Quem te disse que eu a queria seduzir, Bertha?

BERTHA.- Digo-to eu, Paikel -porque conheço-te mais a ti do que a

mim própria. Digo-to eu, porque sei que o farias de bom grado sem te

dares da mulher que desonravas -sem te dares, nem da sua honra, nem da tua,

porque essa pobre mulher também te ama. E finalmente, Paikel, digo-to eu

porque conheço os teus projetos.

PAIKEL.- Bertha, sempre é bem feliz uma mulher com ser fraca,

porque pode impunemente com o que lhe vem à fantasia atirar à

cara de um homem, e insultá-lo como lhe apraz.

BERTHA.- É o que eu disse, Paikel -é bem feliz a mulher;

dize, não te parece que é bem feliz quando compra, como eu

comprei, a liberdade de um homem; e quando o insulta, como ora faço?

Dir-te-ei mais, Paikel, mente -quem emprega manhas e artifícios para

enganar a uma mulher -é um embusteiro: -e quem depois de a ter humilhado

a abandona, sem se lhe dar do seu futuro é um cobarde -um infame.

Oh! Como eu sou bem feliz em te poder lançar em rosto

todas estas baixezas, que fariam corar o mais vil lacaio, e que te não

podem fazer subir a cor às faces!

PAIKEL.- Já vejo que de propósito vieste para me

insultar.

BERTHA.- Já vos disse para o que vim -livrar-vos de uma

infâmia e facilitar-vos a reparação de outra.

PAIKEL.- Dizei -bem vedes que estou benévolo e tranqüilo, e

que ouvirei paciente de uma senhora tão polida a negra

relação dos meus delitos -sentai-vos!

PAIKEL.- Então falai breve -porque me arreceio de que a minha

impaciência afugente a minha civilidade -e neste caso -sentiria

não vos poder escutar até o fim.

BERTHA.- Como quiserdes!

PAIKEL.-

(Gesto de impaciência.)

Tratarei de vos interrogar, Bertha, a ver se mais depressa nos aviamos. Tereis

a bondade de me informar dos meus projetos?

BERTHA.- Seria inútil -porém eu vô-los direi -para

vos diminuir a vaidade de pensardes que ninguém aventa as vossas

intenções. -Não foi por amor da Livônia ou pela

glória do vosso amigo -que o fizestes sair daqui: precisáveis de

estar só para melhor levar ao cabo a vossa empresa e vistes com a

máscara na cara -e o fingimento nos lábios atraiçoar o

vosso amigo, se me não interpusesse entre vós ambos, mais forte

do que a inocência de Romhor, mais vigilante do que a credulidade de

Patkull.

PAIKEL.- E sem dúvida terei tramado contra ele alguma

horrível emboscada!

BERTHA.- Que dúvida?

PAIKEL.- Oh! Meu Deus!

BERTHA.- Tremo por alguém. Paikel, quando te sorris para ele

-quando lhe endereças palavras sedutoras, quando espontaneamente

obsequeias. -Armastes ao teu amigo alguma horrível emboscada -tu o

disseste.

PAIKEL.- Bertha, Deus te livre de amigos que assim pensem de ti.

BERTHA.- Deus me perdoe, se me engano; porque já me tens dado

razões sobejas para duvidar do bem que pareces fazer.

PAIKEL.- E não receias que pensem mal de ti, quando pensas mal de

todos?

BERTHA.- Não. Porque ainda conheço corações

inocentes e virtuosos. Somente agora não sou tão fácil de

enganar, como já o fui em outros tempos: tu bem o sabes, Paikel.

PAIKEL.- Bertha, por que havemos de estar assim a estomagar-nos

cruelmente um ao outro? -Eu bem sei que tu tens razão -muita

razão -para me tratares com tanta dureza: eu mesmo me condeno porque

baixamente me portei contigo -portei-me como um peão, como um servo. -Eu

bem o sei, Bertha. Ainda que eu me lançasse de joelhos a teus

pés, não me quererias perdoar, e contudo nunca te deixei de amar,

Bertha: ainda hoje te amo; ainda te amo como sempre; como no dia em que

abandonaste teus pais, teus lares, para seguires o simples cavaleiro Paikel

-que nada mais tinha para te oferecer que o seu amor.

BERTHA.- Já uma vez me enganaste!

PAIKEL.- Não! Nunca te enganei porque o teu amor ficou sempre

comigo. -Crês tu que um homem possa esquecer momentos tão

deleitosos, como os que eu passei ao teu lado? Esquece-los-ás tu,

Bertha? Não, não os esquecerás porque também eu me

não esqueci deles.

Quando o amor é tão ardente e tão profundo

como o nosso, Bertha, dura por toda a vida e o coração não

pode amar duas vezes por igual modo.

BERTHA.- Mas tu amas a esta mulher, Paikel.

PAIKEL.- Não o creias. É uma distração -uma

ilusão -um passatempo, porém nunca será o amor. Se tu me

amasses ainda? Tu verias se o meu coração se tem envilecido

-Bertha, ainda poderíamos ser felizes como no tempo em que eu te dizia:

eu te amo. -E tu me abraçavas e com teus lábios, que se sorriam,

derramavas sobre os meus um prazer indizível, inefável, que -que

nunca igual experimentei.

BERTHA.- Falas tu verdade, Paikel?

PAIKEL.- Meu Deus, meu Deus -como te poderei eu persuadir? Dize o que

queres tu que eu diga ou faça, para que me possas acreditar. -Eu o

farei, Bertha eu o direi -oh! Se eu pudesse dizer tudo quanto sinto por ti!

-tudo quanto me enche o coração, e que eu mal posso traduzir -tu

me perdoarias -Bertha, tu me amarias.

BERTHA.- E esta mulher?

PAIKEL.- Já te disse que a não amo -não amo

senão a ti, minha Bertha. -Queres tu? Deixemos esta casa -esta terra

-iremos nós ambos, nós sozinhos para longe -para muito longe

-para a nossa casinha de Olitta, Bertha; e ali acharemos o prazer que ali

deixamos, que ali nos sorria e o nosso amor tão puro e tão

terno.

Tu bem sabes o amor que eu tenho à ciência -o amor

da glória, que me não podia fazer esquecer. -Pois bem -Bertha

-deixar-me-ei das minhas experiências que tanto te assustavam, e nem me

ouvirás falar de alquimia ou de pedra filosofal -Queres tu? Oh meu Deus,

não terás tu unicamente direito ao coração.

-Já me não amas, Bertha?

BERTHA.- Paikel.

PAIKEL.- Fujamos daqui, meu anjo, meu amor; Bertha.

(Pegando-lhe nas mãos.)

Iremos para onde te aprouver -sempre amantes -sempre unidos, na vida como na

morte -Bertha?!

BERTHA.- Seria verdadeiramente horrível que me enganasses segunda

vez -Paikel! -Eu conheço que é possível -que um dia o

farás talvez. -Não importa, Paikel; -eu também te amo.

(Vai para o abraçar -ele pega-lhe

nas mãos e recua, para que ela o não abrace e ela cai de

joelhos.)

PAIKEL.-

(A rir-se.) Sois bem

difícil de enganar, Bertha!

BERTHA.-

(Com a cara escondida no seio.)

Desgraçada que eu sou!

PAIKEL.- Desgraçada que tu és, Bertha. -Vês tu que eu

poderia fazer de ti tudo quanto me aprouvesse. -Vês tu que estás a

meus pés como se foras a criminosa. -Vês tu que eu sei que ainda

me amas, e que rejeitei o teu abraço, como rejeitei o teu amor.

BERTHA.-

(Tapando os olhos.) Paikel!

PAIKEL.- Desgraçada mulher, chamaste-me vil -infame -cobarde

-chamaste-me que sei -eu... E conclues dizendo -eu te amo: por Deus que

é incrível o teu amor! Amares qualidades tão infames!

BERTHA.- Tem piedade de mim!

PAIKEL.- Não mereces nem amor, nem piedade; mas terei

compaixão de ti, se vir que as tuas faces ainda se não esqueceram

de corar.

BERTHA.-

(Levantando-se resoluta.)

Só esta vez, Senhor. -Não vos falarei agora porque não

terei palavras para vos dizer quanto foi baixo e vergonhoso o modo por que me

haveis tratado: -Paikel -eu era rica e nova -tinha pais que me amavam, teria

mil amantes se os quisesse, e tudo abandonei por amor de ti. -É da tua

honra salvar a mulher que deixaste em tal abandono -queres salvar-me?

PAIKEL.- Não.

BERTHA.- Paikel, medita bem -tu me desonraste, humilhaste-me aos olhos de

minha própria mãe -tu me seduziste no tempo em que me chamavas

bela. -Esse tempo passou, bem o sei, mas foi o teu amor fatal quem me pôs

a palidez nas faces, e o desespero no coração. -Fatigado com o

meu amor me lançaste no mundo com a fronte cingida de vergonha e de

opróbrio -Paikel! -queres tu salvar-me desta vergonha e deste

opróbrio?

PAIKEL.- Não.

BERTHA.- Se não por amor de mim ao menos por amor de ti. Já

sabes como eu amo -vê se me saberei vingar. -Não te iludas.

-Não creias mais em amor de minha parte porque o acabaste de assassinar.

-Mas, terrível é a vingança da mulher que nada respeita, e

tu nada me deixaste de sagrado. -Não queres?

PAIKEL.- Não.

BERTHA.- Paikel, ainda uma vez.

PAIKEL.- Não, mil vezes não.

BERTHA.- Nada mais tenho que vos dizer, Senhor!

( PAIKEL encara-a um pouco

com ar de triunfo e sai.)

Como pude eu amar a este homem, meu Deus. Paikel?! Paikel?! Oh!

Que em breve te arrependerás.

(Ela pensa um pouco. -Aparece

WOLF .) Estou vingada! Wolf.

Cena IV

WOLF e

BERTHA .

WOLF.- Que tens tu?

BERTHA.- Não me disseste que o Senhor Patkull te ordenara de o ir

avisar se por aqui acontecesse alguma fatalidade?

WOLF.- Disse sim, mas que tens tu?

BERTHA.- Nada, Wolf -tens de ir ter com teu amo.

WOLF.- Eu!

BERTHA.- Tu, Wolf -porque lhe aconteceu uma desgraça.

WOLF.- Uma desgraça -Bertha?

BERTHA.- Sim -Wolf -partirás agora mesmo, sem dizer nada a

ninguém, e dirás ao Senhor Patkull que Romhor o não

ama.

WOLF.- Quê?

BERTHA.- Que ama outrem.

WOLF.- Ela?

BERTHA.- E que Paikel é o seu rival.

(Cai o pano.)

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