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Patkull

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Patkull

Capítulo 5 · Patkull

Ato V

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Ato V

Ato V

PERSONAGENS

PATKULL.

NAMRY.

UM PADRE.

SOLDADOS.

O mesmo cárcere -e mesmo arranjo de

cena.

Cena I

PATKULL.- Meu pobre coração?! Eu, mesmo eu, te

desconheço -o que viste tão coitado não são

lágrimas -é fel é sangue! -Meus amores tão lindos,

que são deles?! Que é da amizade tão grande que

encerravas?! De tão nobre sentir o que te resta, meu pobre

coração?! Eu amava!! Amava o meu amigo, a minha amante -e ele

vendeu-me -e ela, meu Deus -e ela?! Era dela meu sangue, meu

coração -minha alma -era dela o pensamento -o prazer -a tristeza

-tudo -só por ela vivia -só por ela e para ela. -Que lhes fiz

eu?! Paikel?! Quê de vezes me chamaste teu amigo -mentias tu

então?! Por que me traíste, meu Paikel -por quê? Que se me

dessem um reino -e agora mesmo, se me dessem a liberdade -se alguém no

mundo me pudesse dar o engano de outros tempos -a ilusão e brilhantismo

do primeiro amor... para que te eu traísse -talvez -talvez que o

não fizera -e tu?! Mas eu me calarei sobre ti -pobre amigo que te

perdeste e me perdeste contigo. Não inquietarei tua sombra, Paikel. Os

homens te mandaram para Deus -morreste. -Não, não serei eu que

porei na balança da justiça eterna traição

tão feia e má.

Não serei eu -bem que tudo me roubaste -o amor e a vida

-o amor que era o meu paraíso -que era meu tesouro -tesouro de avarento

-tesouro inesgotável de venturas que ela enfeitava. -E a vida só

para a gastar com ela -só com ela -aos pés dela -para a ver

sempre com um sorriso nos lábios, ou com lágrimas nos olhos

-Namry -bela estrela -farol tão meigo de esperanças -belo anjo de

luz -também tu me pudeste trair -Namry! A mim que te amava tanto. Oh!

Que só por ti me pesa deixar a vida -que serás tu sem mim? Agora

que eu já sinto a morte esvoaçando sobre a minha cabeça

-não me pesa deixar a vida -mas pesa-me deixar-te a ti que eras meus

amores. -Mas por que choro assim? Não -não saberá ela que

a chorei no agonizar da vida -não saberá que talvez de mim se

rira orgulhosa! Ela a escarnecer-me -a rir-se sobre o meu sepulcro -a

insultar-me no cadafalso -no cavalete, quando me ralo com dores! Que mais me

poderás tu fazer!! Dir-me-ás talvez que me não amavas.

-Demais o sei! Meu Deus! Meu Deus!

(Cai sobre a cadeira.)

Por que me esqueci eu de meus pais? Certo que a morte seria

então bela, chorada por todo um povo. -E que me importa um povo!!

Loucuras que eu afaguei no entrar da vida -quimeras que se me

esvaem no entrar da morte.

Louco o homem neste mundo que diz na sua consciência: eu

salvarei tal povo.

Louco o homem que diz: eu tenho um amigo -que é meu

sangue -meu corpo. Louco o homem que diz: eu tenho uma amante pura e bela como

um anjo -uma mulher que é minha alma -louco porque o povo está

embriagado na sua vilania -porque o amigo é falso -porque a mulher

é víbora. -Oh! Não ter alguns dias mais para assistir

tranqüilo ao espetáculo de tanta baixeza -queria me rir do que se

julga um libertador -do que conta com a fé do amigo -e com o amor da

amante. -E que mais merecemos nós do que desprezo ou riso

-crédulos como somos?

Não -mais vale morrer. Depois de tantas esperanças

só nos resta a morte em última recompensa. -Quem me dera morrer

-morrer com dores que me façam esquecer o muito do que eu sofro! Morrer,

que talvez debaixo da lousa fria de um sepulcro não pulse o

coração.

Cena II

Abre-se a porta. Aparece um

PADRE .

O PADRE.- Senhor.

PATKULL.- Benvindo sejas, meu padre.

O PADRE.- Como ides?!

PATKULL.- Mal -muito mal -porém sinto que serei melhor quando me

houverdes falado -porque se para outro podiam ser fatais palavras -serão

para mim de contentamento.

O PADRE.- Presunções do que vive sempre falham, meu filho,

as esperanças mentem, quando se não espera a morte.

PATKULL.- Eu a espero, meu padre.

O PADRE.- Que esperais?

PATKULL.- Sim, meu Padre -espero a morte -espero-a breve -desejo-a como se

poderia desejar a vida. -E que Deus me perdoe esta esperança se resume

um pecado.

O PADRE.- Muito me apraz encontrar-vos neste estado -o que sofre encontra

a graça do Senhor que só consola àqueles que o mundo

não pode consolar. -Porém se não tendes apego à

vida, também a não aborreceis, que o aborrecimento é mau

conselheiro -como vós, também sofri, também vaguei no

mundo às tontas, e em bem que o conheci -são mil caminhos

enganosos, orlados de flores -banhados de perfumes -onde contudo crescem cardos

e os espinhos brotam; e a ovelha mansa que se desgarra do rebanho do Senhor

-deixa nos cardos e nos espinhos a maior porção de lã

tão alva e fina, e não encontra o pasto que deseja. -Somos todos

nós como a ovelha imprudente -e porque não trilhamos a senda da

verdade -aborrecemos tudo, bem que de tudo não tenhamos

ciência.

Que merece a vida -sonho mais ou menos longo -alegre ou triste

-é como o fumo que um leve sopro do vento espalha nos ares.

PATKULL.- Como falais bem, meu Padre.

O PADRE.- Talvez vos pese deixar a vida pelo que deixais com ela!

Quem não sente o amor da vida? Quem não sente a

amizade? -E o amor e a amizade são ouropéis quando não

manam do Senhor. Bem felizes aqueles que morrem enganados! -Talvez amastes -mas

o que não sabeis é que a humanidade é frágil, e os

afetos, movediços como a grimpa do campanário.

PATKULL.- Tendes razão.

O PADRE.- De tudo vos deveis esquecer, para que o Senhor seja convosco.

-Em breve tereis de aparecer na presença de Deus -segundo o crer dos

homens. -Trabalhai pois para que a morte vos não encontre desprevenido

-porque lhe não podeis dizer pára. -Preparai-vos.

PATKULL.- Preparado me achais.

O PADRE.- Talvez não tanto como será mister; dir-vos-ei, por

que não fraquieis quando carecerdes de toda a vossa coragem -vossa morte

tem de ser horrível.

PATKULL.- Como quiserem.

O PADRE.- Cheia de ignomínia.

PATKULL.- Seja.

O PADRE.- E de tormentos.

PATKULL.- Seja também.

O PADRE.- Serão vossos escritos queimados.

PATKULL.- Já o foram.

O PADRE.- Vosso brasão espedaçado pelo carrasco.

PATKULL.- O mais nobre talvez que ele terá espedaçado.

O PADRE.- Sereis depois rodado.

PATKULL.- Que seja breve.

O PADRE.- Não! Querem-vos paciente por muito tempo -ainda em vida

tereis a cabeça despedaçada.

PATKULL.- Em bem! Que eu já desesperava de morrer.

O PADRE.- Sereis depois esquartejado e vossos membros pendurados nos

quatro pontos da cidade. -Tal é a sentença de Carlos XII.

PATKULL.- Calos XII -Carlos XII. -Oh! Por que me falais nesse homem?

Já que tanto me tenho esquecido ao menos me podereis deixar morrer sem

ouvir pronunciar o seu nome.

O PADRE.- Tal ódio às bordas do sepulcro!!

PATKULL.- Meu padre, dizei-me: não é verdade que o filho tem

dever de defender a vida do pai?

O PADRE.- É um dever recíproco de um para com outro, e do

homem para o homem.

PATKULL.- Não terá ele direito de vingar sua morte?

O PADRE.- Não -que a vingança é do que nega a

Providência.

PATKULL.- Crede-o vós? Oh! É porque não sabeis como

acreditais que ele me perdoará nos céus de o ter esquecido por

tanto tempo?

O PADRE.- Por que não?

PATKULL.- Oh! Sim, por que não? Um pai não se esquece de seu

filho -e de mais tenho sofrido para impetrar o seu perdão -sofri muito

talvez, porque de tudo me esqueci para me lembrar só da glória e

do amor. -Oh! Meu padre, que se a vida é fonte de venturas, não o

foi para mim -que só achei tropeços e calamidades. -E hoje,

quando me lanço na história do passado -não encontro um

quadro feliz em toda a existência -que não tenha o acre do

desengano. -Busquei o amor e a glória. -E o amor traiu-me e enegreceu os

últimos instantes da vida que a glória me faz perder no cadafalso

e na vergonha.

O PADRE.- Consolai-vos que o sofrer é dos homens -não se vos

dê do passado -melhor para vós se ele foi áspero e

terrível, porque o não chorareis no passar da

inquietação da vida para o sossego do túmulo.

PATKULL.- Não serei eu quem a chore!

O PADRE.- Estais preparado?

PATKULL.- Já vô-lo disse.

O PADRE.- Então -adeus, meu filho.

PATKULL.- Adeus, meu Padre.

O PADRE.-

(Pega-lhe nas mãos.) Bem

me custa separar-me de vós -muito -mas não quis Deus que o homem

visse a dor do seu semelhante sem que despontasse em seus olhos uma

lágrima de simpatia.

PATKULL.-

(Abraçando-o.) Bom

padre.

O PADRE.- Adeus, meu filho.

(Vai-se.)

Cena III

PATKULL.- Bom padre -como se compadeceu de mim? E se ele soubesse o que

encerra este meu peito, se ele o soubesse? Oh! Não derramaria

lágrimas -não -porque lágrimas não bastam para o

que sofro!! E eu morro sozinho e abandonado na morte, como na vida -Namry!!

Sempre este nome; ao menos praza a Deus que dela não me recorde noutra

vida. -Oh! Se ainda a pudesse ver uma vez?! Bem sei que foi falsa, que me

enganou: não virá, não. -Que lhe importa Patkull que

morre, e se alguém chora, certo que não é por mim.

Cena IV

PATKULL e

NAMRY .

PATKULL sentado com as mãos

na cabeça.

NAMRY entra e vai correndo para ele.

PATKULL desperta, encara-a -fica assentado -e ela

pára.

NAMRY.- Sou eu -não me conheces, Patkull -eles me concederam este

momento, para que te eu visse antes da tua morte!! Não me conheces?!

PATKULL.- Namry

(Abraça-a, beija-a muitas

vezes.) , tardaste tanto!

NAMRY.- Quis ver se te salvava.

PATKULL.- E eles disseram que tu não me amavas -Namry -e eu

acreditei-os -sim -tu mo perdoarás -tão boa que tu és -tu

te lembraste do pobre homem que morria, Namry -Oh! Bendita sejas tu -e possas

ter na hora da tua morte a felicidade que me fazes experimentar -meu anjo.

NAMRY.- Por que te não pude eu apreciar de mais tempo?

PATKULL.- Tu me amas.

NAMRY.- Não mereço o teu amor.

PATKULL.- Oh! Dizes bem -não respondas -Namry -não me

respondas, que me seria cruel tua resposta: Deixa-me acreditar que vieste aqui

por amor e não por piedade. -Deixa-me acreditar que foi mentira o que me

disseram de ti -deixa-me acreditar -para que morra consolado.

NAMRY.- Por que te matam tão cedo!

PATKULL.- Não é cedo, é tarde. -Eu quisera morrer

aqui nos teus braços deixando no teu peito meu último suspiro, e

gravando na memória o teu nome intercortado, que acabar não

poderia.

NAMRY.- Por que morres agora -ah! Se pudesses viver -se pudesses viver

-Patkull, se o pudesses -então talvez que eu fizesse esquecer a minha

ingratidão doutros tempos e o faria; dár-te-ia amor -não

como o teu que não pudera -mas alma e coração -eu tos

daria e o que fosse em meu poder fazer-te -para te alegrar a vida e o

pensamento -eu o faria por gratidão, por amor e por mim mesma,

Patkull!

PATKULL.- Não vês que eu choro?!

NAMRY.- Choras a vida que é tanto para ser chorada -quando como a

tua se empregou em obras de merecimento e de virtude.

PATKULL.- Não -não choro a vida. -Muitas vezes me vi no

campo da batalha -vi a morte pairar sobre mim em nuvens de fumo e de pó,

calquei meus companheiros ainda quentes -e não chorei -não

choraria a vida -não -mas choro por te deixar -e conheço todavia

que o devo fazer porque a minha Namry de hoje talvez que amanhã a

não encontre.

NAMRY.- Sempre eu -sempre a tua Namry -Patkull. -Tua Namry

-desgraçada -que eternamente será viúva sem nunca ter sido

esposa. Também me não pesa de ficar só -que te não

merecera -mas pesa-me deixar-te, Patkull.

PATKULL.- Namry.

NAMRY.- Meu Patkull!

PATKULL.- Namry -vive feliz e venturosa -que eu morro -morro com saudades

tuas -e serei feliz se depois da morte acudirem lembranças do passado

por saber que me choravas depois de morto -por ter visto que choravas a minha

morte.

NAMRY.- Meu bom Patkull.

PATKULL.- Namry -olha, eu tenho um pajem -tu o conheces, talvez que

há pouco com palavras mal pensadas ofendesse o meu pobre pajem. -Toma-o

para te servir -Namry -que é fiel e honrado -muito me amava e é

uma dívida que pagarás por mim.

( NAMRY nos braços dele

chora.)

Cena V

SOLDADOS e os mesmos.

SOLDADO.- Temos ordem de vos levar daqui.

NAMRY.- Já! Já! Meu Patkull.

PATKULL.- Coragem, Namry!

NAMRY.- Oh! Eu teria coragem -mas que ao menos por um momento mais me

deixassem contigo.

PATKULL.- Tem de ser já.

NAMRY.- Oh! Como sois cruel -Patkull! -meu Patkull -meu amigo, tu

não me deixarás, não -eu morreria sem ti.

PATKULL.- Namry -meu amor! -meu anjo -deixa-me partir.

(Abraçando-a e

beijando-a.)

O SOLDADO.- Diziam-nos que éreis valente!

PATKULL.- Não vos mentiram.

O SOLDADO.- E chorais!

PATKULL.- São lágrimas nascidas de um coração

que ama -nunca as derramei no travado das pelejas, nem ora me oprime -e

acabrunha o aspecto da morte!...

O SOLDADO.- Apressai-vos. O tempo urge!

PATKULL.-

(Abraçando

NAMRY .) Adeus! Namry!

(Arrancando-se dos braços

dela.)

NAMRY.- Meu Patkull! Ah!

(Cai,

PATKULL retira-se entre os

SOLDADOS .)

(Cai o pano.)

Patkull

Sinopse

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