Universo da obra
Universo da obra
Ato III
PERSONAGENS
NAMRY ROMHOR.
PAIKEL.
BERTHA.
UM MENSAGEIRO.
UMA CRIADA.
Quadro I
A mesma sala que a do ato segundo.
NAMRY ROMHOR.-
(Vestida de preto.) Patkull?!
Meu Deus, por que o prenderiam? É uma coisa inaudita, absurda,
impossível -um embaixador de um aliado -um amigo de Augusto!!
CRIADA.-
(Entrando.) Senhora, acaba de
chegar um mensageiro que vos pretende falar.
NAMRY.- Que entre já -não te demores.
(A
CRIADA sai.) Ao menos agora saberei
alguma coisa com mais certeza.
(Entra
O MENSAGEIRO .)
O MENSAGEIRO.-
(Ajoelha-se e beija-lhe a
mão.) Saúde e contentamento à Senhora Duquesa.
NAMRY.- Deus te dê saúde e contentamento e eu te darei o
que me pedires e o que eu te puder dar, se me trouxeres notícias de paz
e contentamento.
O MENSAGEIRO.- Nem de paz, nem de contentamento. -São novas de mau
agouro, Senhora. -É pesado ouvi-las e triste o ter de as dizer.
NAMRY.- Fala sem receio. É verdade que Patkull foi preso?
O MENSAGEIRO.- Sim, Senhora Duquesa.
NAMRY.- Está já morto?
O MENSAGEIRO.- Condenado à morte.
NAMRY.- Condenado à morte! Sabes tu o que dizes, homem?
Condenado à morte!! E por quê? Sabes tu por quê?
O MENSAGEIRO.- Não o sei e ninguém o sabe com certeza. -Ele
mesmo é quem o disse -quando o prenderam. O rei Augusto não lhe
quis falar, e ele está na prisão de Roenigstads.
NAMRY.- E o rei Augusto?
O MENSAGEIRO.- Está por ora em Dresde.
NAMRY.- Sabes um caminho seguro e breve.
O MENSAGEIRO.- Poderei lá estar em duas jornadas.
NAMRY.- Descansa que partiremos ambos.
O MENSAGEIRO.- Vós, Senhora?
NAMRY.- Descansa, e não haja demora na partida -vai.
(Ele sai.)
NAMRY.- Dizem que o rei Augusto é um bom rei -eu lhe irei
falar. -Dizem que é desgraçado? Tanto melhor, que mais depressa
se condoerá de mim -e mandará soltar o pobre Patkull -que o
serviu tantas vezes -de conselhos -e com o seu braço -Patkull? Por muito
tempo me tenho esquecido dele! Pobre homem -que tanto me amava.
(Entra
BERTHA .)
BERTA ajoelha-se aos pés
de
ROMHOR .
NAMRY.- Que fazes tu, Bertha?
BERTHA.- Vosso perdão, Senhora.
NAMRY.- Sou eu que te falo, Bertha; não me conheces?
BERTHA.- Vosso perdão, Senhora.
NAMRY.- Ora vamos! Que me poderás ter tu feito, para que me
venhas assim pedir perdão? Levanta-te e eu também te pedirei
perdão porque te chamei minha amiga e por muito tempo me tenho esquecido
de ti... e não só de ti, minha amiga! -Vamos.
BERTHA.- Não vos mereço tanta bondade.
NAMRY.- Estás-me a inquietar seriamente -que tens tu,
Bertha?
BERTHA.- Remorsos do que fiz, Senhora.
NAMRY.- E é coisa que eu te possa perdoar? Como me poderias
fazer mal?
BERTHA.- Eu o fiz, Senhora.
NAMRY.- Olha -Bertha -talvez que fosse melhor que deixasses para outra
vez o que agora tens para me dizer porque tenho deveres a cumprir que me chamam
longe daqui. -Mas não te posso deixar assim, Bertha -fala, se o teu
perdão depende de mim, estás perdoada -não tenhas vergonha
nem receios, porque bem sabes que eu sou tua amiga.
BERTHA.- Eu amava, Senhora.
NAMRY.- Bem o sei.
BERTHA.- Oh! Como haveis de me odiar!
NAMRY.- Sê breve.
BERTHA.- Ao vosso amigo.
NAMRY.- Bem o sei.
BERTHA.- Como! Sabíeis!
(Encarando-a e
levantando-se.)
NAMRY.- Sim -era só o que me querias dizer? Estavas com tanto
mistério para nada.
BERTHA.- Não era só isto.
NAMRY.- Então acaba.
BERTHA.- A minha história é longa.
NAMRY.- Queres matar-me de impaciência!
BERTHA.- Sabeis quem sou eu?
NAMRY.- Filha não sei donde -educada por caridade de não
sei quem: -e depois.
BERTHA.- Não, Senhora. -Nasci feliz e rica. -Meus pais me amavam
-e faziam o que lhes eu pedisse. -Nunca contei com piedade -porque nunca supus
carecer dela. -Então me apareceu Paikel -e disse que me amava -eu o
acreditei enquanto não fui traída. Finalmente deixou-me só
e abandonada.
NAMRY.- Que te importa! Crê-me, Bertha, por mais forte que seja
o amor nunca dura por toda a vida. -Esquece-te dele.
BERTHA.- Fugi com ele -e por ele abandonei tudo quanto neste mundo me
era mais caro. Abandonei meus pais e minha fortuna -e depois ele pretextou uma
viagem e partiu -nem mais ouvi falar dele.
NAMRY.- Falas de Paikel -Bertha?
BERTHA.- Sozinha e fraca não tinha meios para ganhar a vida.
Lembrei-me de meus pais mas eu não queria entrar em casa com a vergonha
no rosto -e manchar os últimos instantes de quem me tinha cercado a
meninice de tanto amor e carinhos. Não -eu queria antes morrer do que
encontrar meus olhos com os olhos de meu pai -que morreu de vergonha. Seria
longo dizer-vos os transes que passei -o que eu sofri de baixeza -de insultos e
de orgulho -de homens e mulheres -chorei lágrimas de desespero quando
nem uma esperança me restava sobre a terra -por acaso encontrei vosso
pai, e desde esse momento vos tenho servido.
NAMRY.- Falaste a Paikel?
BERTHA.- Foi generoso em demasia -ajuntou o insulto ao abandono.
-Tentei tudo para o comover, mas nada achei do que eu buscava. Foi então
que para me vingar dele revelei tudo a Wolf -que já partiu para ir ter
com seu amo -e para lhe contar o vosso amor.
NAMRY.- Eu o mereci...! Porque me abaixei a amar esse homem. -Os
homens! Os homens! -Não chores, Bertha -o teu núncio de mau
agouro não dará essas novas porque certamente não
poderá falar com Patkull -que queres tu fazer?
BERTHA.- Vingar-me.
NAMRY.- Vingar-te! E que ganharás tu com isso?
BERTHA.- A vingança.
NAMRY.- E podes tu gozá-la?
BERTHA.- Talvez.
NAMRY.- Eu verei se podemos arranjar uma reparação: vai
-faz saber a Paikel que lhe pretendo falar.
( BERTHA sai.) Quem
nos dirá a nós outras pobres mulheres o que se passa no
coração de um homem. -Só palavras têm nos
lábios -palavras que mentem -olhos que mentem, que dizem virtude quando
a consciência diz crime. Os homens! Onde haverá mais falsidade?
Eles que são mais fortes! Empregarem assim mentira! Perpetrarem assim
vilezas!
(Entra
O MENSAGEIRO .)
O MENSAGEIRO.- Aqui estou, Senhora Duquesa.
NAMRY.- Estás pronto?
O MENSAGEIRO.- Às ordens da Senhora Duquesa.
NAMRY.- E a carruagem?
O MENSAGEIRO.- Também pronta.
NAMRY.- Vai -brevemente serei contigo.
(Ele sai.)
Vejamos se posso tirar uma boa ação do que a
consciência me exprobrava como um crime -certo que o farei. -Paikel
ama-me, ainda há pouco mo disse. -O amor nada pode recusar, dizem. -Oh!
Eu o farei!!
(Entra
PAIKEL .)
PAIKEL.- E o que não farias tu -Namry. -Tudo quanto cabe nas
forças de um homem ele o faria se a tua voz o dissesse -se teus olhos
lho pedissem, se teus lábios lhe sorrissem!
NAMRY.- Eu te esperava, Paikel.
PAIKEL.- E eu, Namry! Eu aqui vinha a teus pés verificar tamanha
dita, porque acabo de conhecer que realmente me amas -que não podes
estar sem mim, como eu não posso estar sem ti. -E como no outro tempo
-em que te ouvia dizer-me de contínuo: vem -como agora, Namry -eu vinha
cheio de prazer e de contentamento -para te ver, como agora -para como agora te
dizer: eu te amo, Namry.
NAMRY.- Paikel, não é verdade que a mentira deslustra a
honra de cavaleiro?
PAIKEL.- Namry -o homem que mente é um mau cristão -o
cavaleiro que mente é indigno de calçar esporas de ouro -e de
lidar em justas e torneios com o seu nome de guerra. -Pela fé de um
cristão e pela honra de um cavaleiro -Namry -eu te amo.
NAMRY.- Não te recordas, Paikel, de ter dado a tua palavra a
outra -de lhe teres empenhado a tua honra -como ora acabas de fazer por meu
respeito?
PAIKEL.- Negar-to fora mentir: -Namry -não há um homem da
minha idade que derramando um olhar sobre o passado não encontre nele um
remorso para a sua consciência. -Isso que dizes -Namry -eu o fiz -e
talvez mais do que uma vez. -Mas -um cavaleiro que mal fez concede
reparação leal e franca, a quem quer que lha peça. Eu sou
cavaleiro, e que o não fosse, Namry -ser-me-ia penoso ter a
consciência de não merecer o teu amor. -Alto soa o meu nome. -Quem
se der por ofendido que venha ter comigo -e certo que voltará contente e
satisfeito. -Tenho mais honra que dinheiro -mas o sangue e fazendas de Paikel,
serão de sobra para o mais sedento e ambicioso.
NAMRY.- E quando forem dívidas que se não pagam nem com
dinheiro, nem com o sangue?
PAIKEL.- Que Deus se condoa de mim -porque tudo lhe poderia dar -e lhe
daria tudo, menos o meu amor que não é meu.
NAMRY.- Eu cria que o amor era sujeito ao dever.
PAIKEL.- Crês tu -Namry!
NAMRY.- Creio que o cavaleiro que é o mais forte deve dar
exemplo à mulher que é mais fraca.
PAIKEL.- E porque nos vês envergar couraça e saia de
guerra ou -porque nos vês cobertos de aço e ferro -de aço e
ferro, julgas tu que temos os corações?
NAMRY.- Julgo-os demasiadamente sensíveis, a serem como o teu.
-Mas dize? Quando uma mulher pode fazer calar o seu amor por que não
poderá um cavaleiro acabar com ele?
PAIKEL.- Porque ele se esquece de tudo para pensar nela e ela se lembra
de tudo para o esquecer a ele.
NAMRY.- Paikel, como se apelida entre vós outros uns cavaleiro
que falta à sua palavra?
PAIKEL.- Um felão.
NAMRY.- E tu queres ser um cavaleiro felão?
PAIKEL.- Serei.
(Gesto de desprezo de
NAMRY .) Serei, Namry, só por teu
respeito. -Ainda quando o arauto me negasse a entrada na liça dos
combates por esta ação -quando todos me repreendessem, não
o deverias tu fazer, Namry -porque é por ti que eu o faço.
Mas não será eterna a exprobração
-quando eu mostrar um dia o que era o meu amor de hoje -o meu amor de sempre:
-meus pares dirão cheios de assombro -só o amor de Paikel podia
vencer a sua honra.
NAMRY.- Já que te esqueces de tudo para só te lembrares
de mim -quero corresponder-te por igual modo.
Também me esquecerei de mim para só pensar em
ti. -Tratemos da tua honra, Paikel.
PAIKEL.- E desde quando te importas com ela?
NAMRY.- Desde que dela te esqueceste. -Há uma mulher a quem
chamo minha amiga -Paikel -bem sabes quanto perdeu por teu respeito -bem sabes
-porque a conheces há mais tempo do que eu; -e porque ela mesma to disse
antes que mo dissesse a mim.
É a primeira coisa que te peço -Paikel -repara o
mal que fizeste, e eu serei contente de mim mesma por ver que amava um homem
que merecia ser amado.
PAIKEL.- Não posso.
NAMRY.- E porquê?
PAIKEL.- Porque a sua família não é nobre.
NAMRY.- Devias ver isso quando a desonraste.
PAIKEL.- Mas estas alianças sabes, bem o sabes, têm pouco
uso entre nós.
NAMRY.- Também entre vós outros é de pouco uso
deixar penhorada a sua palavra.
PAIKEL.- Bem o sei. -Mas eu não amo a essa mulher. Inda
há pouco me veio ela injuriar face a face -chamou-me nomes de desprezo e
de injúria, que eu me envergonharia de os repetir. Tivesse ela um
parente que cingisse uma espada -e a esta hora ela não teria este
parente. Não fosse vilania assassiná-la -a esta hora não
terias mais amiga.
NAMRY.- Ela te defendeu em minha presença como eu talvez o
não fizesse agora -eram palavras de ciúme que não mancham
porque são filhas do amor.
PAIKEL.- A vingança de que um para o outro éramos
capazes, nós a temos praticado. -Insulto por insulto: somos pagos.
NAMRY.- Estás pago -e ela punida -muito bem, Paikel. -Já
não restam lembranças de recíprocos insultos -nada mais
terás que objetar.
PAIKEL.- Nem ela que me pedir.
NAMRY.- Deixemo-nos de razões, Paikel -por esse modo não
posso lutar contigo. Por que me não fazes tu o que eu te
peço?
PAIKEL.- Porque eu te amo! Namry -porque te amo de todo o meu
coração.
NAMRY.- Oh! -Mas seria eu verdadeiramente pobre -roubar à
fortuna da minha criada -pensas em tal, Paikel.
PAIKEL.- Da tua criada?
NAMRY.- Da minha amiga -como também tu ao teu amigo. Já
bastante erramos -é preciso que ao menos uma vez na vida andemos por
caminho seguro e plano. Temos hoje mais que fazer do que o papel de amantes.
-Tu és o cavaleiro Paikel -que tens um brasão ilustre, um
dragão lavrado em sinople que despedaça uma serpente. -Tens por
divisa o valor pela virtude. Eu sou a Duquesa de Mecklembourg. -Lembremo-nos do
que somos, e façamos o que devemos.
PAIKEL.- Pede-me tudo quanto quiseres -Namry -tudo, e eu farei tudo
-mas não me peças que te deixe de amar porque de certo o
não pudera fazer. Eu daria quanto tenho de mais precioso a quem me
reduzisse o meu amor à têmpera do teu -é um amor brando e
fácil que se turva como a mais pequena nuvem, que mostra mil aspectos,
como as asas da borboleta adejando ao sol.
NAMRY.- Não mo queres fazer?
PAIKEL.- Não posso.
NAMRY.- Paikel -meu pai dizia que um nobre que se debruça sobre
uma mesa para ter um livro ou pergaminho -era da nação efeminada
dos franceses, que hoje não conta um cavaleiro: que um cavaleiro que se
compraz em rabiscar papel, em vez de manejar a espara, descaía da sua
nobreza -que um cavaleiro que consome dias e noites em busca de ouro, tinha o
gênio de um vilão.
PAIKEL.- Teu pai nasceu 200 anos depois de que deveria ter vivido.
NÁMRY -Meu pai era um Duque honrado e nobre -se ele te
dissesse -farei isto; podias dormir descansado como debaixo da folha da sua
espada, porque ele cumpriria a sua promessa sem que fosse mister
lembrar-lha.
PAIKEL.- Tu me enganaste, Namry -quando me disseste que me amavas.
NAMRY.- Era eu que me enganava a mim própria. Deves confessar
que não posso satisfazer a tudo quanto por mim tens feito.
PAIKEL.- Talvez.
NAMRY.- Talvez!! Bem -será mais uma dívida, Paikel -que
eu te não poderei pagar. Salva a honra de Bertha -eu me esquecerei de
tudo.
PAIKEL.-
(A rir-se.)
Esquecer-te-ás de tudo? Como és generosa...
NAMRY.- E mais do que mereceis, Senhor, sois um infame.
PAIKEL.- Namry!
NAMRY.- Agradeço-vos amor tão alto. Porém tenho
orgulho sobejo para me contentar com os restos de outra, e não deixei de
ser nobre para me casar com um assassino. Destes a vossa palavra a vossa
amante, de que ela seria a vossa esposa -e ela, porque fiou de vós,
serve hoje para ganhar a vida. Destes vossa palavra ao vosso amigo -e porque
ele acreditou na vossa palavra, vai ser assassinado.
PAIKEL.- Patkull? Falas de Patkull?
NAMRY.- Ide a Romgstads e lá o vereis subir ao cadafalso que
para ele mandastes aparelhar.
PAIKEL.- Eu o salvarei, Namry, eu parto já, sem demora.
NAMRY.- Fazeis bem, Senhor -porque se ele entrar uma vez nesta casa,
não lhe seria gostoso o encontrar-vos nela; e quando ele não
viesse -não me seria vossa presença muito para desejar.
PAIKEL.-
(Saindo.) Fleming!! Fleming!!
Tu mo pagarás, Fleming!
NAMRY.- Hipócrita.
PERSONAGENS
FLEMING.
O REI AUGUSTO.
NAMRY.
Quadro II
Uma sala de palácio em Dresde, uma mesa
e cadeiras.
O
REI AUGUSTO e
FLEMING .
AUGUSTO.- O que há de novo, Fleming?
FLEMING.- Saberá Vossa Majestade...
AUGUSTO.- Já não sou Majestade.
FLEMING.- Saberá Vossa Alteza que é chegado o correio que
foi de vossa parte dar a Estanislau os parabéns da sua
elevação ao vosso trono da Polônia.
AUGUSTO.- Maldito seja ele... Que mais.
FLEMING.- O correio de Carlos XII espera a vossa decisão quanto
aos artigos que deveis assinar para o tratado de paz.
AUGUSTO.- Lê-os -Fleming -lê-os de novo que me quero fartar
de minha vergonha -lê-os.
FLEMING.-
(Lendo.) Darei paz a Augusto
-rei que foi da Polônia -debaixo das condições seguintes,
que serão cumpridas à risca sem alteração
alguma:
1.º O Rei Augusto renunciará ao trono da
Polônia -reconhecerá Estanislau por seu legítimo rei -e
prometerá jamais pretender elevar-se ao trono, mesmo depois da morte de
Estanislau.
2.º Renunciará a toda aliança com
nações estrangeiras -principalmente com a Rússia.
3.º Mandará para o meu campo os príncipes
Sobieski -com uma guarda de honra e todos os prisioneiros que me houver
feito.
4.º O último. Entregar-me-á todos os
desertores que passaram do meu serviço -e expressamente João
Reginoh, Patkull -e dará anistia a todos que passaram do seu para o meu
serviço.
AUGUSTO.- Só?
FLEMING.- Nada mais se contém neste rascunho que nos mandou o
conde Piper.
AUGUSTO.- Aceito. -O Rei Carlos é um rei magnânimo e
generoso... Porque me não mandou ir ele à sua presença
descalço com as insígnias reais, com uma corda nos rins, e o
knout nas mãos. Por Deus que eu
lhe iria beijar os pés para envilecer e abaixar esta maldita
Polônia, já tão vil e tão baixa -Polônia!
-Povo de escravos orgulhosos -povo de cobardes -povo lançado no meio da
Europa para ser vendido ao que mais dá e que mais promete
-Polônia! -Folga e ri satisfeita na tua prostituição -enche
o céu com fogos de vista e gritos de alegria -ilumina teus
palácios e habitações de escravos -alegra-te, que em breve
gemerás aflita sob o azorrague da infâmia.
FLEMING.- Rei Augusto!
AUGUSTO.- Não me fales, Fleming -não -não me fales
-ou dá que eu veja esta Polônia ardendo em fogo, como Sodoma ou
Gomorra -Carlos XII! Quem me dera ter vida para te ver um dia miserável
e mendigo, roído de ambições e de remorsos! -Não
-não serás o único conquistador que avistarás o
destino dos teus. -Por que não lutei até esse tempo?
FLEMING.- Perderíeis vosso ducado como perdestes a
Polônia.
AUGUSTO.- E que me importa a mim um ducado, ou a Polônia?
(Entra um
SOLDADO .)
O SOLDADO.- O Príncipe de Mensicoff deseja falar a Vossa
Majestade.
AUGUSTO.- Não lhe posso falar.
O SOLDADO.- Vem para vos falar a respeito de Patkull.
AUGUSTO.- Não ouviste?
(Pausa por algum tempo.)
Fleming, que é feito de Patkull?
FLEMING.- Foi conduzido de Keenigstadt para Casimir, e deve ser entregue
aos soldados de Carlos XII, segundo a convenção.
AUGUSTO.- O César quis saber o que eu fiz do seu
plenipotenciário -e tem razão -que lhe hei-de eu dizer? Ele era o
meu único aliado, o único verdadeiro amigo.
FLEMING.- Mas ganhastes a vossa Saxônia.
AUGUSTO.- Mas perdi a honra, Fleming. -Se eu tivesse ainda em meu poder
esse homem, a quem agradeço tão mal -oh! Não sei de certo
se o entregaria ainda quando me rendesse o cêntuplo, do que ora me
rende.
FLEMING.- E fareis mal.
AUGUSTO.- És um bom político, Fleming -porém tens
uma alma bem pequena. -Tens ocasião de te vingar de um inimigo e pouco
te importa que ele seja desgraçado. -Eu estimaria mais que o
defendesses.
FLEMING.- Nem que ele fosse meu irmão -pediria eu por ele quando
se trata dos interesses de Vossa Majestade.
AUGUSTO.- Escusas lisonjas -vês que sou um rei sem trono ou
Majestade; um poder sem alçada.
FLEMING.- Não é lisonja, Senhor -quando vos digo que a
rebelião é um crime -e que um rei nunca deve proteger um rebelde.
-Um duque espanhol jurou ao seu rei que faria queimar seu palácio se o
Duque de Bombonde se demorasse nele por espaço de uma hora, porque o
Duque se tinha rebelado contra o seu rei -Francisco I. -E o rei louvou a
nobreza do vassalo. -Ora, Patkull é um rebelde -era um dever real
puni-lo -vós o fizestes, senhor. E nem vos fica menos airoso que a sua
morte vos renda um ducado -que já era vosso, e para mim, o chamais uma
vingança, que nunca tencionei tomar.
AUGUSTO.- Seja como dizes.
(Faz-lhe sinal com a mão que
saia. Ouvem-se passos.) Já devem ser seis horas; para que me
pediu uma audiência a Duquesa de Meklembourg? -Que me pretenderá!!
-Veremos. -Algum capricho de Senhora?! Que importa?! -Não negarei um
favor ao descer do trono à filha de quem era meu amigo, antes que
alguém sonhasse que Augusto seria rei um dia.
Um dia!... O que é um dia? -Às vezes se passam
eles serenos e mansos sem que nem ao menos a sombra de um acontecimento
escureça alguma parte dele. -Outras vezes a vida pende do resultado de
um dia, e a alma tem a vista pregada no que vai acontecer que lhe trará
ventura ou desventura. -É um lago tranqüilo e manso, representando
o azul do céu e das nuvens. São ondas negras e revoltas que se
embatem, que se cruzam, que se repelem mal ditas da esperança. -E a vida
aí está como no aspecto fagueiro ou terrível da
superfície do lago. -Somente a alma guarda mais constantemente para todo
o resto da sua existência neste mundo o que por ela passou uma vez. -O
pesar dura eterno como o seixo lançado na corrente. -E o prazer
também lá permanece, e por vezes se nos acorda feiticeiro e
saudoso -como a imagem da donzela que uma vez topamos para mais não
voltar.
Batem. -Ele pára como despertado de
seus pensamentos -e de repente vai à porta -abre e entra
NAMRY ROMHOR .
NAMRY.- Senhor!
AUGUSTO.- Que pretendeis, Senhora?
NAMRY.- Falar ao rei Augusto.
AUGUSTO.- Sou eu.
NAMRY.- Vós?
(Como consigo.) Parecia-me que
a presença de um rei deveria de ser terrível e majestosa.
AUGUSTO.- Nada disso -nem majestosa nem terrível -porém
benevolente quando a vida de um rei se fita num profil gracioso e belo de
formosura como a vossa.
NAMRY.- Não mereço que sejais homem para vos abaixar
até mim.
AUGUSTO.- Também nós somos homens: -também! Com
diferença de que o coração de um rei parece ter mais
força para a dor e maior espaço para conter lágrimas que
se não podem deslizar impunes pelas faces do monarca -mas eu já
não sou monarca -não, já o não sou! Podeis falar
sem receios. -O Rei Augusto morreu -mas ainda vive o amigo de vosso pai,
Senhora Duquesa.
NAMRY.- Não contava com mais esse título para me
apresentar diante de vós, Rei Augusto. -É um bom agouro da minha
boa fortuna. -Recordei-me de que meu pai vos chamava justo e bom -e eu vim ter
convosco fiada na justiça e na bondade que meu pai tanto exaltava.
AUGUSTO.- Não praza a Deus que eu desminta conceito para mim
tão lisonjeiro -podeis falar, Senhora Duquesa.
NAMRY.- Meu Deus! Não sei por que me acanho tanto para vos
pedir o que tenho de vos pedir.
AUGUSTO.- Quereis muito.
(A sorrir-se.)
NAMRY.- Muito! Muito!
AUGUSTO.- Oh! Tanto melhor -certo que eu não quisera tão
somente conceder à filha do meu velho amigo o que outro qualquer
também pudesse. -Já não sou rei, Senhora Duquesa, mas
ainda me não esqueci de o ser.
NAMRY.- Confio nisso, -e é por isso que vos venho pedir a
liberdade de Patkull.
AUGUSTO.- Patkull? Patkull! Que vos importa esse homem?
NAMRY.- Peço-vos uma graça, Senhor.
AUGUSTO.- Patkull! Vejamos, Senhora Duquesa. -Eu vos quisera servir
-pedi-me qualquer coisa possível, e eu vô-la farei. -A minha
Saxônia é bastante vasta -escolhei uma cidade -uma vila -um
castelo e eu vô-lo darei. -Vede de Leipzig de Blauzou -de Zillan a Plauen
-escolhei o que quiserdes, -Vistes vós Altenbourg molemente deitada
à margem do seu rio como uma otomana voluptuosa? Gera -a cidade do
comércio e da riqueza. -Leipzig -a cidade das artes e das ciências
-e Plauen -campeando no cimo de uma rocha como um guerreiro noturno que vigia
firmado na sua espada. -Plauen austera e forte como um castelo esquecido do
perpassar dos anos, vigiando a Áustria, sombrio e grave -tudo -tudo o
que vos aprouver não vos ireis queixosa do rei Augusto que foi amigo de
vosso pai.
NAMRY.- Não, Senhor -pela melhor das vossas cidades não
vos viera eu importunar -venho pedir-vos a vida de um homem que não
mereceu perdê-la.
AUGUSTO.- Quem vos disse que ele o não tinha merecido?
NAMRY.- Era vosso, todo vosso -de alma e coração -ele
vos aconselhou como amigo -e vos serviu como escravo.
AUGUSTO.- Era um rebelde!
NAMRY.- Não a vós que só podeis puni-lo por vos
haver bem servido. -Perdoai se vos falo assim. -Durante o caminho tão
breve da minha vida não pude ainda aprender como se fala aos reis
-peço-vos a vida desse homem -que meu pai me deu por esposo -meu pai era
amigo de vós ambos. Certo que se o pobre velho ainda existisse, ele se
curvaria diante de vós, Senhor -para que lhe désseis a vida do
esposo de sua filha -e o rei Augusto não seria surdo às vozes do
infortúnio. -Senhor, é a vida do meu esposo que vos peço,
que vos peço de joelhos -que vos peço pelo que há de mais
santo, pelo que tendes mais precioso e mais caro.
AUGUSTO.- Levantai-vos, Senhora -bem me custa ver-vos assim a chorar sem
poder enxugar vossas lágrimas!
NAMRY.- Por que o não podeis, Senhor -é vossa a
prisão -é vosso o carcereiro -os soldados que o guardam
são vossos; os ferros que o prendem são vossos. -Uma palavra
só, e ele será livre e feliz -e eu agradecida e contente, e
vós satisfeito com a ventura que fazeis nascer. -Como é belo ser
rei para fazer o bem, livre e grandemente -para ter palavras que dão
vida e alegria. Meu Deus, como poderia eu resistir a quem me pedisse a vida de
uma criatura?
AUGUSTO.- Pedi outra coisa, Senhora Duquesa.
NAMRY.- Nada mais, Senhor, nada mais que a vida do meu esposo e sereis
para mim como um Deus. -Que mal vos pode ele fazer? Ele que vos amava tanto.
-Que mal vos pode fazer -ver-nos alegres e felizes -quando vos devermos alegria
e felicidade?
AUGUSTO.- Não alcançareis nada, Senhora Duquesa: -quanto
vos podia dar, eu vô-lo ofereci -nada mais tenho que vos sirva.
NAMRY.- Senhor, como vos hei-de eu falar para vos mostrar que me
podeis fazer o que vos peço, que mo deveis fazer -Senhor. -Senhor,
não vos incomoda acaso ver em roda de vosso trono um rio de sangue?
-Vós me pareceis tão bom, rei Augusto. Podereis acaso pensar
tranqüilamente de que às tantas um homem será de menos -e
isto porque vós o quisestes -porque vós mandastes -Senhor? -Tende
piedade de mim!
AUGUSTO.- Ele tem de ser entregue a Carlos XII.
NAMRY.- Por Deus, Senhor -por Deus -não façais tal
-sabeis vós que é um verdadeiro assassinato -que ele o mataria
sem compaixão nem piedade -esse homem de sangue e de carnagem
-vós o não fareis, rei Augusto -Carlos XII também é
vosso inimigo cruel, que vos tem perseguido e ultrajado vergonhosamente.
-Quereis condescender com ele, rei Augusto -quereis dar-lhe o vosso amigo em
recompensa de vos haver roubado a vossa Polônia. -Vós o não
fareis. -E depois não podeis sem desonra tocar na cabeça de um
embaixador. Tencionais fazê-lo, Rei Augusto.
AUGUSTO.- Já vos disse que ele era um rebelde.
NAMRY.- Rei Augusto, o que ides fazer era demais para desonrar um
homem. -É uma coisa verdadeiramente baixa -um rei ser constrangido por
outro rei como um escravo -dois reis que se ligam para perder um homem.
-Não é isto uma coisa vil e infame?!
AUGUSTO.- Duquesa, não faleis de razões que mal podeis
compreender.
NAMRY.- Nada mais vos direi.
(Indo para sair.)
AUGUSTO.- Vejamos, Duquesa, ainda uma vez, pedi-me uma coisa qualquer
que seja e eu vô-la farei -não, eu não quisera vos
fôsseis descontente comigo.
NAMRY.- Deus guarde a Vossa Majestade.
(Sai.)
AUGUSTO.-
(Depois de um momento de
silêncio.) Acaso um dia se levantará a voz da posteridade
para dizer que o rei Augusto foi um traidor e um cobarde -traidor! e cobarde!
Fleming?
FLEMING.- Senhor!
AUGUSTO.- Quero que Patkull viva.
FLEMING.- Mandai pedir a sua graça a Carlos XII.
AUGUSTO.- São 6 horas. -Às 9 um correio pode estar em
Keenigstadt -e Patkull será livre.
FLEMING.- Às 8 horas já deverá estar em poder de
Carlos XII.
AUGUSTO.- É já tarde.
(Caindo numa cadeira.)
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