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Patkull

Capítulo 4 · Patkull

Ato IV

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Ato IV

Ato IV

PERSONAGENS

PATKULL.

SALTZ.

WOLF.

PAIKEL.

Um cárcere escuro com uma grade de ferro

-uma mesa antiga e velha -uma cadeira.

Cena I

PATKULL.- Como é triste uma prisão -como este silêncio

é cheio de pavor e de tristeza. -Aqui estou -eu, só eu, sepultado

-eu, sem vida quando carecia tanto de alguém que me falasse, de

alguém que eu escutasse a cada instante -de alguém que me

enchesse o coração de sossego e de harmonias. -Nada, nada sinto

em torno de mim mais do que o silêncio, como o de um cemitério,

que me gela o sangue nas veias -que me enoitece a fantasia -só por vezes

o coração me arqueja e pula -como que acordasse -ainda em vida

-ao derradeiro som da pedra que lhe esmaga a vida. -Meu Deus! -Morrer assim

seria passar a eternidade transido e desesperado. -Morrer! Por que tantas vezes

penso nisto? -Não tenho eu tão vivo o sentir que bastaria para

viver mil anos? -Como é possível morrer com tanto amor. E no

entanto foi o meu primeiro pensamento quando me vi preso -meu primeiro

pensamento quando passei o umbral desta porta. -O último quando

só me deixaram -quando se fechou aquela porta -quando o som de passos se

foi sumindo longe -mais longe -por entre as abóbadas dos corredores

-mais longe como uma quimera. -Morrer

(Andando -pára -cruza os

braços no coração.) Morrer agora! -Vamos, que me

aproveita sonhar torturas e tormentos?

Muitas vezes fatigado de alma e corpo sucumbi ao cansaço

e dormi. -Negras imagens esvoaçaram por minha alma perseguida por uma

idéia -meu coração gemia amargurado sob terrível

pesadelo, e as bagas de suor corriam por todo o corpo. -Despertava enfim. Eu

via a lua que enfeitava o azul dos céus de Itália, a terra bela e

perfumada -e o mar que vinha preguiçoso beijar os pés de

Nápoles. -O Vesúvio além cuspindo o fumo como sombrio

penacho de guerreiro -porque não haverá também -quando os

olhos vigiam -desses pesadelos do espírito, horríveis em sonho

-mas fagueiros -mas belos na realidade. -Oh! Quem me dera respirar o ar fresco

e puro que agora lá por fora adeja e sussurra na folhagem.

(Chegando-se à

janela.) Quantas vezes não vi eu a lua branquear este céu

-vinha então espalhar neste silêncio da noite tão amigo -o

muito que eu sentia. -Era a noite tão bela como agora -talvez menos

-porém não tinha diante de mim estas grades de ferro, que me

ofendem a vista. -Namry -meu amor -minha alma -meu anjo tão puro e

tão belo, se na terra existem anjos -quem me dera ver-te como sempre

-formosa e pensativa -como um anjo na terra se lembra de melhor pátria.

Namry -Oh! Pudesse eu quebrar estes ferros -e ir daqui lançar-me

nós teus braços -Namry -pudesse eu ver-te uma vez sequer, uma vez

nesta vida e na outra a eternidade. -Vem, Namry -vem -eu serei calado e mudo

bebendo a vida dos teus lábios -bebendo o amor dos teus olhos. -Vem,

cantar-me-ás essa cantiga tão singela que tanto me aprazia

ouvir-te. -Essa toada dos campos de amor e de ternura da mulher tão

extremosa -longe de quem ama. -Oh! Quantas vezes a terás soluçado

involuntariamente -desde que eu te deixei de ver -e eu dera a vida para ouvi-la

-dera tudo menos o meu amor!

(Fica mudo e pensativo. Entra

SALTZ .)

Cena II

O mesmo e

SALTZ .

SALTZ.- Como ides, Senhor?

PATKULL.- Bem, Saltz -muito bem -melhor do que eu esperava passar numa

prisão.

SALTZ.- Certo -bom senhor -que não estareis aqui tão bem

como no vosso palácio de Livônia -sempre é uma

prisão -uma coisa bem feia e bem lúgubre, que até me

entristece a mim que não sou nem preso nem condenado. -Não posso

dar um passo sem surpreender lágrimas que vacilam nas pálpebras

-ou insano desespero de quem nada espera. Nos corredores por onde passo

através das muralhas dos cárceres transundam suspiros e agonias

-vozes que se lamentam -que se enfurecem-, ou que choram truncadas e sem

força -que é dor do coração ouvi-las tão

sentidas. -Quando me deito, choro por esta pobre gente com quem tenho dever de

parecer rigoroso -e quando acordo sinto o rojar de grilhões do que vela

toda a noite nas trevas e suspiros.

PATKULL.- Bom Saltz.

SALTZ.- Bom -Senhor -bom -mais do que devo e menos do que uso exige a

consciência. -Eu vim para este inferno com a alma pura -sem remorsos, sem

pesares. Alegre e satisfeito dormia e acordava feliz, porque vivia, porque

sentia a vida -e hoje -bem vedes que vos entristeço em vez de vos

consolar, como eu tanto desejara -porque me parece que é mau quem se

emprega neste ofício -e tenho pesar de tanta vida que se perde -de tanta

alma arrancada do corpo com violência.

PATKULL.- Teu emprego é triste, Saltz.

SALTZ.- E quando às vezes tomamos a um preso -porque o conhecemos

generoso e bom -quando o amamos como se fora um parente -uma parte da nossa

alma -e sabemos que há-de morrer -que tem de morrer às

mãos do carrasco em dois dias -em duas horas e não ter

forças para o salvar, quando daríamos a vida por ele?! -É

triste, bom senhor -é triste para quem pensa -para quem sente: -para o

que morre -algumas horas -e para o que vive, a vida inteira!

PATKULL.- Tens razão, Salta -Talvez que eu te poupe esse dissabor

-que tanto te penaliza.

SALTZ.- E quem pode contar com a vida?

PATKULL.- O coração, Saltz -há esperanças que

não mentem, há ilusões que são esperanças.

Há convicções de que não podemos separar de uma

criatura mau grado a violência -Tenho essa esperança -essa

convicção profunda. Deixá-la? -Não vês tu que

é impossível.

SALTZ.- E o que há impossível para Deus, Senhor?

PATKULL.- A injustiça -a crueldade, a falta de misericórdia

-tudo o que obsta ao amor e à fé -tudo, porque Deus é o

amor -é a vida, Saltz -é a esperança.

SALTZ.- Que Deus vos ouça -que lho peço de todo o

coração porque vós sois bom, Senhor. -Careceis de alguma

coisa.

PATKULL.- Não, Saltz, deixa-me só.

SALTZ.- E se alguém vos quisesse falar?

PATKULL.- Quem se lembra... Wolf!

Cena III

WOLF corre para ele -vai para lhe

beijar a mão -Ele o impede e o abraça.

PATKULL.- Wolf, já me esquecia de ti, bom pajem -bem hajas tu que

tão gostosamente me vieste surpreender?

WOLF.- Não tanto como pensais -meu bom amo.

PATKULL.-

(Encarando-o.) Pois não

vieste só para ver teu pobre amo -que gemia aqui -sozinho... -Tirante

uma pessoa, Wolf, eras a quem mais desejava ver -Não me trazes novas de

alguém?...

WOLF.- Tristes novas, Senhor.

PATKULL.- De quem, Wolf?

WOLF.- Da duquesa.

PATKULL.- Morreu a Duquesa?

WOLF.- Vive.

PATKULL.- Está doente? Fala, Wolf -está doente, talvez

próxima a morrer? Por que mo não disseste mais cedo -que

já agora estaríamos em caminho.

WOLF.- Está boa.

PATKULL.- Oh! Podes então falar, meu amigo.

WOLF.- Meu tio!

PATKULL.- Deixa-nos por um pouco, Saltz.

SALTZ.- Não quereis ficar só?

PATKULL.- Não, Saltz -não -quero primeiro ouvir teu sobrinho

-e quando voltares, por ventura que me encontrarás mais venturoso do que

o condenado a quem anuncias salvação.

SALTZ.- Deus o queira.

PATKULL.- Pobre velho -que já não vê na vida um raio

de esperança.

(Pensa.) Que me dizes tu,

Wolf?

WOLF.- Meu bom amo.

(Lançando-se nos braços

dele.)

PATKULL.- Que tens tu?

WOLF.- Nada, Senhor, nada.

PATKULL.- Por que chora, pajem!

WOLF.- Eu não quisera mortifica-vos, Senhor.

PATKULL.- Dize -Wolf -por que assim choras -o que te aconteceu, não

vês que esse teu silêncio me aflige?

WOLF.- Por que me deixastes vós naquela casa, Senhor, quando eu

vos pedia que me trouxésseis convosco?

PATKULL.- Quê? Fizeram-te mal?

WOLF.- Senhor -não, mas não veria eu tanta

traição.

PATKULL.- Contra quem, Wolf?

WOLF.- Contra vós, Senhor -contra vós mesmo.

PATKULL.- Vamos, Wolf, endoideceste depois que me soubeste preso.

WOLF.- Contra vós, e era vosso amigo!

PATKULL.- Paikel!

WOLF.- E a vossa noiva.

PATKULL.- Namry! -Por que me exalto! Um delírio de

criança.

WOLF.- Foi Bertha quem mo disse.

PATKULL.- Mentiu, Wolf!

WOLF.- E eu que o vi?

PATKULL.- Viste! Que viste tu! Por que me apareces aqui? -Quem te chamou,

Wolf? Infame! Sabes tu que eu, preso como estou, posso fazer saltar sobre estas

paredes teu sangue e cérebro? Que eu te poderia estalar a vida,

calçando aos pés teu corpo? Tanta mentira em tanta

juventude!...

WOLF.- Eu vi.

(Chorando.) E disseram-me que

Paikel vos mandara aqui para o cadafalso.

PATKULL.- . -Paikel -oh! Sim, foi ele quem instou comigo para que

aceitasse este maldito emprego: foi ele quem mendigou por mim esta maldita

embaixada -foi ele...

(Para de repente encara seriamente

WOLF -vai sério para

WOLF -pega-lhe nas mãos.) Wolf -um

malvado pode se aproveitar da tua inocência e fazer-te perpetrar um crime

-uma violência. -Podem ainda iludir-te com esperanças de riquezas

-de palácios -de jogos -de prazer que fariam cair um anjo -Wolf

-dar-te-ei riquezas como nunca pudeste imaginar -riquezas com que podes comprar

prazer e venturas -riquezas que te assegurem um futuro real e brilhante. -Mas

afirma que isso que disseste é uma mentira -uma calúnia que algum

te sugeriu. -Dize Wolf! -Bem sabes que sou teu amigo! Por que me querias tu

enganar?

WOLF.- Disse a verdade.

PATKULL.-

(Com violência -apertando-lhe os

braços com força.) Disseste uma mentira.

WOLF.- Ai! Que me matais.

PATKULL.-

(Atirando-o para longe.)

Criança -Oh! Que não sejas um homem! -Maldito sejas tu

-mataste-me a fé -e o coração -mataste-me o que eu tinha

de mais sagrado e inestimável -ingrato que assim pagas quanto hei feito

por ti -vai-te -vai-te -e nem mais eu te veja -mensageiro do inferno.

( WOLF sai. Ele cai sobre uma

cadeira. Põe as mãos nos olhos fica mudo.) Namry -eu te

amava tanto -Paikel.

(Levantando-se e gritando

furiosamente.) Paikel -Oh! Não ter um instante só de

liberdade -um momento -um nada!! -Infame

(Rindo.) Que mal fiz a esta gente

para que assim me martirizem -eu os amava tanto!! Meu coração era

dela -meu sangue era dele -de ambos eles minha vida! Que mal lhes pude fazer?

(Pensa.) Wolf era um bom pajem

-naquela idade não se fingem lágrimas -e a mentira não

roça os lábios da inocência. -Bertha tinha ciúmes.

-O ciúme vê muito, vê longe. -certo! Por que deixou Paikel

seu negro laboratório -por quê? -Quando o demônio deixa as

trevas não é para vir no jardim do paraíso aliciar a

criatura inocente? Não me disse ele que já se conheciam! -E por

que me pediu ele um lugar secreto para a conferência senão porque

sabia que seria em casa dela? Que empenho tinha de me ver segunda vez envolvido

num vórtice de guerras e de interesses, senão para se ver

só com ela!

(Ouve-se o rangir de uma fechadura que se abre.

PATKULL senta-se e vira as costas para a outra

porta.)

Cena IV

Entra

PAIKEL em trajes de criado do cárcere com um

cesto.

PAIKEL.- Aqui tendes comida.

PATKULL.- Está bom.

PAIKEL.- Quereis alguma coisa?

PATKULL.- Não; podes -te ir.

PAIKEL.- Como sois triste!

PATKULL.- Está bem!! Está bem!! Podes-te ir.

PAIKEL.- Não vos lembra de alguém?

PATKULL.-

(Estremece -olha repentinamente para

ele.) Oh! Lembrava-me de ti.

PAIKEL.- E não me esperavas?

PATKULL.- Sim, eu te esperava.

PAIKEL.-

(Chegando-se para ele -e estendendo-lhe

a mão - PATKULL recua.) Bem me custou chegar a ti;

-e quase a tua e a minha esperança seriam baldadas.

PATKULL.- Mas eu te esperava.

PAIKEL.- E tinhas razão, esperavas um amigo.

PATKULL.- Não, mas a ti -Paikel -A vítima que morre tem

dores que regozijam o coração do sacrificador -o

coração tem tormentos que são como delicioso manjar de

vingança -e olhos de homem que vertem lágrimas têm

mágico atrativo para o homem que as faz verter. -Perder ocasião

de espreitar dores lágrimas e tormentos -Oh! Era supor-te bem pouco

esquisito de gosto -tu vieste -eu te esperava.

PAIKEL.- Vim para te salvar.

PATKULL.- Oh! Melhor -melhor -ainda. -Quem morre -morre uma vez -já

se não sente -era pouco. -Era mais horrível ter vida -sentir a

morte a cada hora, a cada instante -a cada instante dores piores que a morte

-que desesperam, que elouquecem. -É mais deleitável! Mais belo!

Tens razão de me quereres salvar -Paikel.

PAIKEL.- Não te posso entender! Patkull. -Depois falarás

à tua vontade -dir-me-ás o que quiseres -o que te aprouver dizer

-mas hei-de primeiro salvar-te -porque eu dei a minha palavra que voltarias

são e salvo.

PATKULL.- És um homem de palavra, Paikel!

PAIKEL.- Salvar-te-ei, Patkull. -Algumas horas mais e será noite.

-Brevemente os soldados de Carlos XII tomarão conta deste castelo.

PATKULL.- Bem o sei.

PAIKEL.- No meio desta mudança poderás passar desapercebido

-levarás esta farda de lacaio, que me pôde conduzir até

aqui -e que de certo te porá fora, incólume e salvo.

PATKULL.- E irei ter com Namry, não é assim, Paikel.

PAIKEL.- Irás onde quiseres, Patkull.

PATKULL.- Dir-lhe-ei. «Paikel é um amigo nobre e honrado:

conduziu-me à borda do meu precipício, atirou-me nele e depois

como lhe sobreviesse um resto de compaixão, estendeu a mão a quem

já não tinha esperanças de vida -e que endoideceria de as

ter».

PAIKEL.- Dir-lhe-ás de mim o que quiseres, depois de te haver

salvado -Patkull.

PATKULL.- E concluirei, dizendo: vosso amante é um homem grande e

generoso. -Podeis ser orgulhosa de ter um amante assim.

PAIKEL.- E quem te disse que eu a amava?

PATKULL.- Por que me aferrolhastes numa prisão? Por que me

mandastes talvez me aparelhar um cadafalso?

PAIKEL.- Patkull, quando instei contigo para que aceitasses este maldito

emprego -por minha alma que não havia uma sombra de risco ou de perigo.

-Eu dei-te a minha palavra, e serás salvo.

PATKULL.- Obrigado.

PAIKEL.- Não há tempo para nos mostrarmos arrenegados.

-Patkull, dentro de algumas horas já a tua evasão será

impossível. Troquemos trajes -tu serás o moço do

carcereiro -e eu serei o preso.

PATKULL.- Não -vale mais que eu fique.

PAIKEL.- Patkull -salva-te -salva-te, porque o podes fazer por amor de

ti, senão por amor de mim -salva-te por Deus. -Oh! Tu não sabes

como eternamente me pesaria sobre o coração a lembrança de

que fui eu o que a meu amigo matei de morte afrontosa e de tormentos.

PATKULL.- Estranha compaixão!! E não sabias tu que eu a

amava -Paikel?

PAIKEL.- Por Deus -não nos demoraremos com vagares imprudentes

Patkull -fui culpado -fui criminoso -fui vil -fui infame -fui mau amigo -o que

tu quiseres. -Mas salva-te por amor dela -Patkull -e por amor de mim mesmo.

-Não me acreditarias agora por mais que to eu dissesse. -Mas salva-te

-salva-te por amor dessa nossa amizade tão antiga -tão extrema

-tão sincera -salva-te -Patkull -e um dia terás piedade do teu

pobre amigo que comprou bem caro o extravio de um momento -salva-te.

PATKULL.- Por que me não deixas acabar em paz!

PAIKEL.- Patkull -por que és tu tão severo? Meu amigo. Oh!

Deixa-me chamar-te por este nome tão suave, que tantas vezes me deu

alívio e prazer! -Meu amigo, se soubesses quanto tenho sofrido para

chegar até tua presença... Dormi ao frio e ao relento sobre a

terra -com a cabeça sobre uma pedra defronte deste castelo -a pensar no

meio de salvar-te -via lá de fora a tua sombra que me intercortava a luz

de espaço a espaço e eu chorava por ti -e só por ti -meu

amigo -Oh! Por Deus te peço -foge e deixa-me aqui sozinho -deixa-me -mas

salva-te.

PATKULL.- E eles te matarão!

PAIKEL.- Oh! Que me importa a morte? Morrer, Patkull, morrer por ti, era

a ventura derradeira que me seria dado desfrutar sobre a terra. -Nada tenho,

nada me resta -não -nada -nem quem vá orar sobre minha sepultura

-nem que possa sentir escurecida a vista com lágrimas, vendo pender do

infame cadafalso os restos do infeliz Paikel. -Oh! Dá-me este prazer,

Patkull -bem sei que não to mereço -que nada te posso pedir.

-Porém tu podes ainda contar com o amor, com a glória, com a

fortuna.

PATKULL.- Crês tu?

PAIKEL.- Morra quem já não sente uma esperança, para

quem morreu a vida e coração -para quem nada mais sente do que o

infortúnio.

PATKULL.- Ficarei, Paikel.

PAIKEL.- Barbaramente me punes, Patkull -foge -foge, meu amigo -eu to

suplico de joelhos, e com lágrimas pelo que mais veneras neste mundo

-pelo que tens no outro de esperanças -de amor.

PATKULL.- Não -Paikel, -para que viver -estou cansado de lutar,

cansado de sofrer -cansado de quanto me sorria. -Deixa-me pois -Levanta-te,

Paikel -quem sabe se não há uma força no mundo -que impele

os homens para um fim -forçosamente -irresistivelmente -Cumpriu-se o

nosso fado. -Não tens culpa, talvez foste instrumento e não causa

do que me está preparado -seja como for -bem vês que não te

culpo -não te crimino -nada te peço -porém vai-te e

sê feliz -se o puderes.

PAIKEL.- Então morrerei contigo.

PATKULL.- Para quê? -Que importa um nada depois da vida: que

morramos sós -ou acompanhados de mil homens?

(Ouvem se estrépitos de

soldados.)

PAIKEL.- Foge, Patkull, enquanto é tempo, foge. -Daqui a nada

seria inútil o arrependimento -serão inúteis queixas,

rogos, prantos. -Foge. -Tu amas, Patkull -tu és amado ardentemente -como

só tu merecias sê-lo. -Foge ao menos por amor dela -e nem

terás que temer um rival que, antes de muito pouco, já não

existirá. -Foge por Deus. Já sinto o rumor dos soldados que se

aproximam -os soldados de Carlos XII -do teu inimigo, do matador de teu pai -de

tua família, que daria sua coroa para te haver às mãos.

(Entra

BERTHA -coberta de preto -a porta fica aberta e

ele continua.) Vive ao menos para tua vingança.

Cena V

Os mesmos e

BERTHA .

BERTHA.-

(À parte.) Bem me

compreendem.

PATKULL.- Meu pai!

(Continua.) Por muito tempo me

tenho esquecido do muito que os vi sofrer -vamos, Paikel, vingarei meu pai que

morreu num cadafalso -minha mãe que morreu de miséria num

calabouço imundo.

(Agarra na mão de

PAIKEL -com força e vai a

voltar-se.) Fujamos.

BERTHA.- Ainda não, Senhor!

PATKULL.- Meu Deus.

(Aparecem os

SOLDADOS à porta. Ela descobre-se e aponta

para

PAIKEL .)

BERTHA.- Bem vedes que é um traidor, prendei-o!

(Cai o pano.)

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