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A Conquista

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A Conquista

Capítulo 12 · A Conquista

Capítulo XI

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Capítulo XI

Três dias depois, realizando o que havia imaginado, Anselmo instalava-se em casa de Pedroso. O professor recebeu-o com alegria e, como ele levava apenas a canastra e alguns livros, tendo deixado o mais com o alemão, não houve necessidade de modificar a disposição móveis, que eram poucos. Viviam na pequena casa, além de Pedroso, o macambúzio Alfredo que, sendo irmão do professor, parecia-se tanto com ele como com o terceiro, um hóspede, o Raul, rapaz de vinte anos, que era uma montanha de carne. Com uma decidida vocação para o teatro estreara, aos dezoito anos, na Fênix Dramática, com o Galvão, fazendo pequenos papéis com discrição e suor à ufa.

Lembrava-se, com orgulho, de um "salteador" que interpretara com tanto talento que o empresário, depois da primeira récita, para animá-lo, disse:

-- Raul, não fosse a tua corpulência e irias longe no teatro, mas assim, filho, com tanta enxúndia, cansas depressa.

Efetivamente cansou; ou antes: desanimou. A gordura caminhava com tamanha pressa pandeando-lhe o ventre, enchendo-lhe as coxas e os braços que, se uma peça lograva fazer carreira, à vigésima representação Raul era forçado a recorrer ao alfaiate para que lhe alargasse as roupas. Retirado do teatro, com o qual o toucinho o incompatibilizara, vivia melancolicamente, engordando e recitando monólogos pela casa, quando não ia para a cozinha aguar o ensopado ou salgar a sopa.

Mas a alma era grande e, não raro, rebentava-lhe dos olhos em ternura lacrimosa ou expluia-lhe do peito largo em suspiros estéticos sobre algum papel tonitroante de tirano, em peça truculenta. Sentia-se-lhe na melancolia do olhar a nuvem de um pensamento triste que se poderia traduzir livremente nesta lamentação: "Que grande artista se perde neste jacá de toucinho..." Em verdade, era um jacá e atochado.

Pedroso conhecera o Raul na caixa da Fênix, quando por lá andara enamoradamente, com grandes ramos de rosas, seguindo os passos de uma atriz. O professor tinha também certa "queda" para o palco. Não fossem delicados escrúpulos: a família, os alunos... e teria aceitado um convite que lhe fez o Galvão no tempo do idílio, mas o macambúzio Alfredo chamou-o à ordem salvando-o, em tempo, de uma queda fatal no conceito do público e na comparsaria. Consolava-se fazendo "galãs" em teatrinhos particulares. Era melífluo, ajoelhava-se, com muita expressão, aos pés das damas, rente da caixa do ponto para falar com segurança do seu amor. Alfredo era circunspecto -- estudava ciências exatas, não fumava, recolhia-se muito cedo e evitava os olhares das mocinhas da vizinhança. Comiam em casa: o Raul cozinhava por economia e, à mesa, os companheiros, gratos, ouviam a história dos seus triunfos no teatro da rua da Ajuda.

Anselmo, posto que não tivesse os cômodos que sonhara, viveu com certo conforto, dormindo à sombra do Raul que roncava como um vulcão.

Foi nesse homizio que ele fez os seus melhores estudos literários. O Raul, que o admirava, ficando em casa enquanto os dois irmãos iam explicar os substantivos e os teoremas, metia-se num canto com um maço de comédias e lia, rindo às gargalhadas, enquanto Anselmo, de papo para o ar, devorava Shakespeare, Dante, Ariosto e quantos poetas lhe caíam nas mãos, por empréstimo, porque os seus livros estavam lidos, relidos e vendidos.

À noite, às vezes, serenatas passavam pela rua silenciosa enfurecendo os cães que investiam e Pedroso, sempre jocundo, abria as portas da casa ao grupo ou seguia com ele a percorrer o bairro adormecido. Anselmo nem sempre o acompanhava, preferia ficar preguiçosamente em casa lendo ou palestrando.

Raramente descia à cidade. Refazia-se física e espiritualmente preparando-se para o grande dia em que tencionava aparecer sobraçando os originais do primeiro volume da grande série.

Os rapazes falavam do seu sumiço, faziam conjecturas e ele continuava tranqüilamente os seus estudos.

Ruy Vaz, instalado definitivamente no palacete do visconde, engordava e tinha quase concluído o seu romance. Um incidente, porém, alvoroçou o estudante: o Alfredo, sempre taciturno, descobriu, uma manhã, na fronha alva do travesseiro, uma mancha de sangue e, como houvesse na família vários casos de tuberculose, ficou alarmado decidindo, desde logo, mudar-se para o campo onde houvesse ar puro e árvores e, com precipitação, não querendo dar tempo à moléstia, meteu-se num trem e foi correr os subúrbios achando uma casa modesta, de feição campestre, com muito terreno arborizado e uma cacimba, em Cascadura, numa larga estrada quase deserta que levava aos montes.

A mudança foi feita num dia. Anselmo, à lembrança de viver em tão arredado sítio, hesitou antes de permitir que a sua canastra fosse despachada, mas Raul e Pedroso convenceram-no, falando-lhe do silêncio do campo, propício à meditação e ao estudo, bom ar saudável, da água excelente, dos saborosos frutos e Anselmo deixou-se levar, não prometendo demorar-se porque tencionava arranjar um lugar na imprensa que, ao menos, lhe desse para casa e comida.

A casa era realmente pitoresca. Toda branca na verdura de um pomar e única na estrada areenta onde andavam soltos carneiros, cabras e grandes cevados grunhidores. Nas dimensões era um cacifro.

Raul reclamou contra as portas estreitas. Sempre prosperando em banhas, receava que, uma manhã, acordando, fosse obrigado a demolir a parede do quarto abrindo brecha para passar. Comiam em um hotelzinho, onde a gente da Estrada de Ferro costumava fazer os seus regabofes. De manhã, saindo em grupo, iam a um quiosque para o café. À noite dirigiam-se à estação para conversar e viam chegar e partir os trens e, quando os expressos silvavam, ao longe, paravam agarrados às colunas, com os olhos além, até que, na grande sombra, luzia o olho imenso da locomotiva, e vinha crescendo, crescendo, ouvia-se o rumor e o chiado, e rápido, repentino, o comboio passava levantando um grande vento. Mal se avistavam vultos brancos e lá ia ele curveteando, era uma luzinha que fugia como um vaga-lume e desaparecia na sombra. Logo, porém, outro comboio chegava lentamente, parando junto à estação, à espera de passageiros e outro vinha da cidade, bufando. Saía gente, a locomotiva, desengatada, parda veloz para a manobra no virador e os empregados iam examinar os carros, batendo-lhes nos eixos. Na plataforma iluminada reuniam-se rapazes, moças passeavam, e uma velha negra, aleijada, cochilava a um canto diante de uma bandeja, apregoando, de instante a instante, com uma voz triste, cocadinhas e balas. Anselmo achava aquilo hediondo.

A vida insípida e monótona enchia-o de tédio e desalentava-o. Da manhã à noite era o mesmo, invariável espetáculo da natureza campestre, a mesma vida de rusticidade. Se chegava à janela, os olhos encontravam apenas a estrada larga e deserta, branca, escaldando ao sol. De quando em quando, um homem que descia da sua roça, na vertente dos morros, sozinho, cantando ou com a bestinha lenta carregada, ou negras que tinham ido às compras e tornavam aos seus casebres com embrulhos, o cachimbo nos beiços, descalças, levantando uma poeira fina e dourada

E ali ficava horas e horas, sob a ardência da luz, bocejando, sonolento e mole, ouvindo os silvos dos trens que passavam ao longe. Nos fundos, era a larga e verde planície cultivada, dividida em hortas e quintais. Laranjais de um verde forte e metálico, carregados de frutos, milhos louros, canaviais que sussurravam num mar verde e irrequieto. Um cheiro forte de seiva subia da terra morna. Aves andavam cacarejando e mariscando nos monturos e a uniformidade da paisagem dava uma impressão fatigante à vista, enfarada de arvoredo e de ervas rasas, onde não aparecia um vulto humano, como se o mesmo sol fosse o único encarregado da lavoura daquelas terras fecundas, que se estendiam dilatadamente perdendo-se num horizonte azulado de montanhas.

Anselmo vivia vegetativamente como aquelas árvores fortes que ali estavam agarradas à terra, sugando-a. Mas o que, em verdade, o prostrava era, por assim dizer, a própria fecundidade. Justamente ele estava como aquelas árvores, cujos ramos roçavam o solo vergados ao peso dos frutos; sentia a inadiável necessidade de expansão, o seu espírito começava a produzir exuberantemente, as idéias caíam-lhe do bico da pena como caem dos galhos os frutos maduros, mas a sua atividade espiritual, que se ia esperdiçando, dava-lhe grande tristeza. Tarde, às vezes, não podendo conciliar o sono, enquanto os companheiros dormiam, abria a janela à noite silenciosa e, debruçado à mesa, lia e escrevia e, quanta vez o sol o encontrou absorvido na leitura ou rematando páginas. Um dia resolveu descer. Não podia mais com aquela vida amolentadora e estéril. Pedroso tentou dissuadi-lo propondo-lhe alguns discípulos.

-- Não, vou arranjar trabalho. Sinto-me morrer aqui. Esta inércia acabrunha-me, não posso mais. Preciso trabalhar...

-- Mas para onde vais?

-- Não sei, hei de arranjar um jornal. Que diabo! É impossível que não haja um lugar para mim. E que não haja! Aqui não fico... não posso, apodreço!

Pedroso encolheu os ombros resignado e Anselmo, resmungando, foi vestir-se.

-- Vais sem almoço?

-- Vou.

-- Almoça primeiro, homem.

-- Não.

-- Que coisa! Até parece que vais daqui ofendido. Houve alguma coisa contigo?

-- Não, nada.

-- Então?

-- Não posso com isto, Pedroso. Estou ficando neurastênico. Há ocasiões em que tenho vontade de chorar.

-- Por quê?

-- Sei lá, à toa. É este silêncio, é esta monotonia, é tudo isto que me enfeza, que me irrita. Demais, já é tempo de começar a fazer alguma coisa. Se continuo aqui apodreço. Preciso ir.

-- Mas não vais zangado conosco?

-- Zangado, por que? Vou para não morrer de tédio. Não posso ficar aqui a olhar milhos que amadurecem e galinhas que chocam. Há mais de seis meses que ando nesta vidinha lânguida de fainéant. É tempo de reagir.

-- E se não achares emprego?

Com grande confiança ele afirmou:

-- Hei de achar!

-- Mas vens dormir aqui?

-- É possível.

-- Bem. Já que insistes não quero contrariar-te. Mas a quem vais falar?

-- Ao Patrocínio.

-- Já o conheces?

-- De vista.

-- Por que não arranjas uma apresentação?

-- Qual apresentação! Vou e falo. Se me quiser aceitar, muito bem; se não quiser, melhor.

-- Qual! Tu tiveste algum aborrecimento, Anselmo.

-- Não tive, palavra.

Raul, que acompanhara toda a cena sem intervir, sussurrou humildemente:

-- Comigo não foi.

-- Ó senhores, pelo amor de Deus, que mais querem vocês? Estou aborrecido, mas é disto! E, avançando impetuosamente para a porta, mostrou, num gesto largo, a paisagem quieta, ao sol, e as cabras que iam lentamente com as crias ao longo da estrada deserta e sem sombra. Isto é que me enfastia, é esta coisa reles... Preciso sair daqui, senão estouro. É hediondo tudo isto. Hediondo!

O silvo de uma locomotiva atravessou os ares mornos. Anselmo tomou o chapéu:

-- Adeus.

-- Então até logo.

-- Até logo.

-- Não vais zangado?

-- Não vou, homem.

-- Palavra?

-- Palavra. Adeus, Raul! E, tomando a bengala, como a casa distasse muitos metros da estação, deitou a correr pela estrada poenta ao sol dourado e quente da manhã gloriosa.

A Conquista

Sinopse

A Conquista, de Coelho Neto, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 29 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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