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A Conquista

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A Conquista

Capítulo 14 · A Conquista

Capítulo XIII

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Capítulo XIII

Foi nessa noite que, por intermédio do Freitas, um satírico baiano, ele conheceu Octavio Bivar. Desciam a rua do Ouvidor quando encontraram o poeta diante de uma vitrina admirando os braceletes que faiscavam nos escrínios de veludo. O Freitas atirou-lhe uma palmada ao ombro. O poeta voltou-se repentinamente, espantado, dando, porém, com o amigo, tranqüilizou-se:

-- Que fazes aí?

-- Admiro. E tu, como vais?

-- Bem. Conheces aqui o Anselmo?

-- De nome.

-- Este é o Bivar, o homem que ouve estrelas. Vamos tomar alguma coisa.

-- Podemos ir.

-- No Deroche.

-- Não, aquilo é impossível; não se pode estar à vontade. Vamos ao Gambrinus, é uma bodega honesta e desconhecida ainda.

-- Na rua 7?

-- Sim.

Dirigiram-se pausadamente para a cervejaria e, logo que se abancaram, o Freitas atirou-se aos tremoços pedindo ao poeta que recitasse alguma coisa. Bivar desculpou-se: andava atropelado, não tinha tempo para escrever um verso, uma vida de cão, perse

guido por um senhorio inclemente. Podia recitar qualquer coisa antiga...

-- Pois sim. O Julgamento de Frinéia, por exemplo. Conheces, Anselmo?

-- Não.

-- Uma coisinha, disse o poeta, pigarrreando.

Voltou a cadeira, fincou o cotovelo na mesa, lançou um olhar pela casa e, com os dedos enfeixados, disse solenemente, em tom profundo, balançando o corpo:

Mnezarete -- a divina e pálida Frinéia -
Comparece ante a austera e rígida assembléia
Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira
Aquela formosura original, que inspira
E dá vida ao genial cinzel de Praxiteles,
De Hiperides à voz e à palheta de Apeles.

Os olhos imensos do poeta saltavam à flor do rosto e rolavam num êxtase divino. Soerguia-se, como que uma força misteriosa o levantava, por vezes, e a sua voz, cava e lenta, tinha um quer que fosse de profética como se viesse de um ádito oracular. O Freitas, embevecido, dava com a cabeça, cerrava os olhos e mastigava tremoços. Anselmo fitava o poeta com admiração. Ao fundo da casa dois homens, em mangas de camisa, falavam alto. O Freitas não se conteve, voltou-se com um "psiu!" e os homens começaram a sussurrar -- só a voz do poeta rolava, profunda e grave, num turbilhão de rimas sonorosas.

-- Admirável! -- exclamou o Freitas quando o poeta, com um gesto largo, repetiu as palavras de Hiperides, arrancando dos ombros da hetera a túnica que lhe encobria o corpo maravilhoso:

"Pois condenai-a agora!"

Não ficaram, por certo, mais maravilhados do que os dois rapazes, os velhos austeros do Areópago.

-- Soberbo! -- exclamou o Freitas reclamando mais cerveja. Anselmo ficou algum tempo a olhar o poeta, sem dizer palavra, arroubado.

-- Agora, o senhor: recite-nos alguma coisa.

-- Isto não faz versos, disse, com desprezo, o Freitas. É só prosa chilra.

-- Faz muito bem. A prosa; se não tem a nobreza do verso, é mais ampla; o pensamento move-se livremente no período sem os apertos da métrica, sem a preocupação monótono da rima. A prosa! A excelsa prosa! Não imagina como eu amo a prosa, acho-a até mais difícil do que o verso. A prosa marmórea de um Flaubert, de um Saint-Victor... oh!

-- Preferes, então, a prosa ao verso?

-- Prefiro.

-- E por que não fazes, de preferência, prosa?

-- Hei de fazê-la.

-- Ora, qual!

-- Hás de ver.

-- Tu és poeta e hás de ser sempre poeta, quer queiras, quer não.

-- De acordo, mas poesia não quer dizer rima, poeta não é o que faz estrofes. Há por aí muito animal que faz versos impecáveis e que tem tanto de poeta como eu tenho de cantor de árias. A estrofe é um excipiente, é um meio de expressão, é a plástica. O sentimento é tudo.

-- A propósito de poetas: disseram-me que assassinaste aquele poeta que andava contigo?

-- Que assassinei...!?

-- Sim...

-- Perdão... Eu conto o caso. Esse poeta, que era o meu algoz, foi jantar comigo e comeu desbragadamente. Só havia um prato, mas abundante: bacalhau. O homem empanturrou-se e, à sobremesa, que constou de uma penca de bananas, recitou-me o famoso soneto: Dor! que termina por um terceto abracadabrante:

Africana sem fim a marchar sem chapéu
Cheia de mágoa e dor a mãe tonitruosa
Uiva como uma cobra através do escarcéu...

Quando ouvi tais coisas tive ímpetos de o esganar, confesso, mas contive-me, fui prudente. O homem, porém, depois do jantar, acompanhou-me e quis dormir comigo. Foi. Às duas da manhã acordou ávido, pedindo água. Eu, que estava morto de sono, disse-lhe que não tinha água no quarto. Ele uivou: "Que morria!" Para livrar-me do monstro, disse-lhe, então: Vai ao banheiro, abre-o e bebe no chuveiro... Disse e voltei-me para a parede recaindo no sono. De manhã o homenzinho estava a estourar: arfava, urrava, vociferava:

Africana sem fim a marchar sem chapéu...

Foi transportado para a casa da família em carro e curou-se. Ainda, depois disso, ouvi o soneto tremendo. Ele morreu depois, de uma febre. Era hediondo!

Levantaram-se. A noite negra ameaçava.

-- Parece que vem muita chuva. Parece.

-- Vou já para casa, adeus! Vocês ficam ainda por aqui, não?

-- Ficamos, disse Anselmo. Com uma noite destas não me atrevo a ir para a Cascadura.

-- Está em Cascadura?

-- Estou, mas desço amanhã. Não posso morar tão longe trabalhando em um jornal da tarde. Entrei para a Gazeta.

-- Ah!

-- Bem, adeus, rapazes! -- disse o Freitas.

-- Adeus! E nós?

-- Vamos dar uma volta por aí. Adoro esta cidade à noite.

Seguiram lentamente. Fulvos relâmpagos fremiam encandecendo o céu. Raros transeuntes, pressentindo a tempestade, apressavam o andar. De espaço a espaço uma rija lufada levantava colunas de poeira; batiam janelas e rumores longínquos de trovões rolavam surdamente.

-- Em que jornal trabalha? -- perguntou Anselmo rompendo o silêncio.

-- Eu? Não trabalho em jornais. Considero a imprensa uma indústria intelectual. Entra a gente para o jornalismo com um bando de idéias originais e retalha-as para o varejo do dia a dia. Quando vejo um poeta ou um prosador a fazer notícias, tenho piedade. Que diria você se encontrasse o Dalou, o grande Dalou, em casa de um marmorista da rua da Ajuda, com um gorro de papel à cabeça, talhando, no mármore industrial, anjos funéreos para as sepulturas de Catumbi? É ignóbil! O jornalismo está para a Arte como um desses anjos bojudos de cemitérios estão para o Laocoonte. Eu, se me metesse a fazer notícias, enlouquecia. Sinto-me incapaz, a local aterra-me. Tentei, uma vez, redigir a mais simples das notícias: um caso banal de polícia. Pois, meu amigo, saiu-me um substancioso artigo político. Quem pode compor um período perfeito numa sala de redação, interrompendo-se, de instante a instante, para acudir à reclamação de um sujeito que pede providências contra a falta d'água? É hediondo!

-- Pois eu vou trabalhar na Gazeta.

-- Vai escrever crônicas...

-- Não sei ainda.

-- Não faça notícias; a notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. Havemos de vencer, mas, para isto, é necessário que não façamos concessões. O redator não quer saber se temos ideais ou não: quer espremer. Quanto mais suco melhor. O prelo é a moenda e lá se vai o cérebro, aos bocados, para repasto do burguês imbecil e, no dia em que o grande industrial compreende que nada mais pode extrair do desgraçado que lhe caiu nas mãos sonhando com a glória literária, despede-o e lá vai o infeliz bagaço acabar esquecidamente, minado pela tuberculose.

Um homem de talento que se mete em jornais suicida-se. Já se vê que não me refiro aos agitadores da opinião, aos que fazem o fluxo e o refluxo das marés sociais, esses não têm outro campo senão o jornal. Os políticos que escrevem sobre a emoção efêmera do momento não devem fazer livros. O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político, o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro de Arte.

-- Mas que se há de fazer?

-- Escreva livros.

-- Para quê, se não há quem os edite?

-- Escreva contos, fantasias, crônicas.

-- Não pagam. Fazem ainda grande favor quando os publicam.

-- Pois, meu amigo, que me venham pedir versos ou prosa de graça. Quer saber? Os culpados da depreciação literária são os próprios literatos: Alencar vendia os seus romances ao Garnier por quatrocentos mil réis. Quantas edições tem O Guarani? Está ainda na primeira e é conhecido em todo o Brasil. O editor fez com o romance o milagre de Tiberíade: multiplicou-o. Se houvesse fiscalização a coisa seria outra.

Chegaram ao largo do Rocio justamente quando caíam as primeiras gotas grossas da chuva. O povo corria, metendo-se pelas casas. Tílburis passavam à disparada e a chuva ruflava, tocada pelo vento áspero, que atirava bátegas das lojas.

-- Que tempo! -- exclamou Bivar levantando a gola do casaco.

-- Para onde vamos nós? Se fôssemos à Maison? Estamos encharcados.

-- Queres afrontar a rajada?

-- Vamos.

-- Então vamos.

Encolhidos, rente das casas, saltando sobre os jorros das gárgulas, foram apressadamente até a rua da Carioca e detiveram-se na esquina, indecisos, sem ânimo de atravessar a rua. Já pelas sarjetas rolavam córregos grugrulhando nos ralos dos escoadouros. Relâmpagos flamejavam e os trovões, mais próximos, reboavam num canhoneio incessante.

-- Um! Dois!... E Bivar atirou-se, a grandes pernadas, atravessando a rua seguido de Anselmo.

A Maison transbordava. Os dois, escorrendo, relanceavam olhares pesquisadores quando ouviram um "psiu" e logo descobriram Patrocínio, num grupo, a uma das mesas do centro.

-- Eh! Cheguem-se ao Ararat.

-- Ora! Apanhamos esta carga de água nas costas.

Eram do grupo o Lins, o Neiva, Ruy Vaz, o Duarte e um rapaz alto e claro, de olhos miúdos e espessos bigodes negros, muito reluzentes; largo feltro desabado escondia-lhe a fronte.

-- Conhecem o Luiz Moraes? O grande poeta republicano? Anselmo Ribas, Octavio Bivar.

O poeta dos grandes bigodes entendeu a mão aos rapazes e resmungou uma amabilidade. Sentaram-se. Os caixeiros substituíam os copos e as garrafas. Patrocínio estava com a palavra.

-- Falávamos do jornal...

-- Novos planos?

-- Novos e verdadeiros. Dizia eu que se pudesse contar com todos vocês faria o primeiro jornal da América do Sul. Com dois anos de trabalho estávamos todos ricos, fretávamos um vapor e partíamos para a Europa.

-- E a abolição, José?

-- A abolição está feita. E questão para mais uns meses.

-- Pois sim!

-- Pois sim? Mas que há de fazer o governo constrangido, como está, pela opinião pública? O Norte já se manifestou e o Sul há de acompanhá-lo. Demais, meu amigo, o escravo já não é um submisso, é um revoltado. Nas fazendas cada negro é um combatente e o êxodo aí vem. Quando começar o abandono da terra, não um a um, mas aos bandos, ostensivamente, em face dos senhores que não hão de querer jogar a vida, que há de fazer o governo? Mandar contra os que defendem um direito sagrado a tropa armada? Não! E ainda que mande: conheço o exército, sei que nenhum soldado se prestará a exercer o ofício miserável de capitão-de-mato. A abolição é uma questão vencida.

-- Deus queira!

-- Depois da abolição a república, rosnou Moraes.

-- A república! -- exclamou o Lins, assombrado.

-- E por que não? A república, sim! -- afirmou o poeta assomado. Quer você que continuemos com um rei de burla e com uma freira melomaníaca? Está enganado. Pego em armas, se for preciso.

Ora, Luiz... ia a dizer o Neiva, contrariando o poeta; ele, porém, atirou um murro à mesa e, erguendo-se, com os bigodes arrepiados, os olhos fuzilantes, bufou:

-- Pego em armas e em você também, pelo cós das calças, está ouvindo? Em você mesmo!

Ruy Vaz interveio:

-- Que é isto? Já vocês começam.

O Neiva levantou-se, distribuiu apertos de mão:

-- Boa noite... boa noite. E encaminhou-se para a porta.

-- Pois não! Este senhor entende que há de sempre impor a sua opinião. Onde ele está ninguém mais fala. Pego em armas! Que tem ele com isso? E se me aparecer pela frente, quando estiver defendendo os direitos do Homem, prego-lhe uma bala no fígado.

-- Mas Luiz...

-- No fígado, já disse. Em política e em Arte sou intransigente. Mas o Neiva voltou:

-- Se não estivesse chovendo tanto eu mostrava. Sentou-se.

-- Mostrava... mostrava o quê? Homem, você não me aborreça.

-- Mas quê é isto, gente...

-- Ó Luiz, pelo amor de Deus, deixa-me em paz.

-- Pois é isto! Não me contrarie. Tome a sua cerveja muito quieto e deixe-me cá com as minhas idéias. Eu sou pior que Cimourdain. Estendeu o braço sobre a mesa e, com uma voz cavernosa, disse: -- Prestigio a lei! Mas esta gente não estuda. Fala-se em evolução e ficam todos embasbacados. Leiam Spencer.

Mas o Patrocínio conseguiu desviar a conversa para a literatura, e, à meia noite, tendo cessado a chuva, quando se levantaram, o Neiva, muito misterioso, de braço com o Moraes, oferecia-se para levantar uma barricada na rua do Ouvidor, esquina do largo de S. Francisco e o poeta respondia:

-- E lá me hás de achar com as armas na mão.

-- Correto! Então está feito?

-- Está feito, por que não? E pôs-se a cuspinhar.

-- Para a vida e para a morte!

-- Para a vida e para a morte!

E despediram-se. Anselmo seguiu só para o hotel, pensando nas palavras de Bivar: "Não faça notícias, a notícia embota."

Uma lua sinistra rolava entre grossas nuvens e as goteiras pingavam lentamente.

A Conquista

Sinopse

A Conquista, de Coelho Neto, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 29 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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