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A Conquista

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A Conquista

Capítulo 20 · A Conquista

Capítulo XIX

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Capítulo XIX

Anselmo estava in albis e, como pretendia passar a noite trabalhando, porque tencionava dar começo a um romance para o rodapé do Diário Ilustrado, deteve-se na esquina da rua Uruguaiana farejando um jantar. Mas os jantares não passeiam na rua do Ouvidor e, certo disso, o futuro redator-chefe foi subindo vagarosamente, desacorçoado, quando, no largo de S. Francisco, ao dar com a estátua do patriarca, que o sol crepuscular polvilhava de ouro, teve uma inspiração feliz:

"É verdade! Por que não hei de ir jantar em uma casa de jogo? Fortúnio come regaladamente e declara que as tavolagens têm os primeiros cozinheiros desta cidade. Que mal há nisso? Vou; não jogo, mesmo porque não tenho vintém, como e ponho-me a andar antes que a polícia me apanhe na batota. O diabo é que não conheço ninguém... Se ainda pudesse encontrar o Lins... Mas onde?!" Resolveu procurar o poeta no Castelões, mas só achou o Neiva, na última mesa, diante de uma papelada esparsa, a tomar notas.

-- Salve! O boêmio fitou-o com os olhos piscos, sem pince-nez.

-- Oh! Senta-te. Bebes?

-- Não.

-- Sabes? O nosso Lins está à morte.

Anselmo deu um salto na cadeira.

-- Como?! Se ainda ontem estivemos juntos.

-- Pois, meu amigo, já está sem fala. Estou chegando da casa dele. Nem me reconheceu.

-- Mas que tem?

-- Sei lá! Congestão ou coisa assim. E, pondo o pince-nez, bramiu com os olhos rutilantes: Extravagâncias! Vocês não me querem ouvir. Vivo aqui a bradar, como um João Batista, contra as extravagâncias e todos pensam que estou a fazer pilhéria. Seu Lins é um homem fraco, doente, pois ontem, à noite, em vez de tomar o seu conhaque do costume, entendeu que devia experimentar um sorvete. Sorvete! Neste país...! O resultado aí está: não escapa. Os médicos não têm esperança de salvá-lo.

-- Então é grave...?

-- Se estou a dizer que já perdeu a fala.

-- Vou vê-lo.

-- Deves ir.

-- Onde mora ele?

-- Fora de portas; nos confins da rua do Senador Pompeu.

-- E eu vinha aqui procurá-lo para ir com ele a uma casa de jogo.

-- Hein?! Vais jogar?

-- Qual jogar! Não tenho um vintém: ia jantar.

-- Ias à ficha de consolação.

-- É verdade.

-- Janta comigo, queres?

-- Onde?

-- Ali defronte, no Londres.

-- Pois vamos.

-- Mas espera um instante, deixa-me arranjar esta papelada... Posso morrer de uma hora para outra e não quero comprometer umas tantas senhoras que me amam. Estou agora com seis complicações: duas no largo do Rocio, uma na rua do Lavradio, outra na rua do Riachuelo, ainda outra no Daury e uma senhora honestíssima em Paula Mattos...! Ah! Meu amigo, só a minha paciência, só a minha paciência! A de Paula Mattos, então, é uma fera! Quando apareço tarde desaba em cima de mim como uma avalanche, e são beijos, e são lágrimas e são dentadas. Um desespero! Tenho o corpo como um mapa-múndi. Sou um homem tatuado pelo amor. Ontem fui ao cabeleireiro e o homem esfregou-me a cabeça com uma loção não sei de que, pois, meu amigo, quase me matam, as seis! Foi um trabalho para convencê-las de que eu saíra de um salão de cabeleireiro e não da câmara de uma rival, e à noite, estava amassado, triturado... um horror! Não te metas com mulheres ciumentas, mira-te neste espelho e, arregaçando a manga do casaco, mostrou o braço manchado, denegrido. E isto não é nada, se visses o resto choravas; é um horror! Mas que hei de fazer? E a despesa? Uma quer frutas, outra quer camarotes, outra reclama um leque. A de Paula Mattos anda a perseguir-me por causa de um chapéu que viu na Douvizy e seu Neiva que cave! Já ando atordoado, não sei mais como arranjar dinheiro. Toma alguma coisa.

-- Vou tomar um Xerez.

-- Olha um Xerez aqui!

-- E o Grêmio, Neiva?

-- Vou tratar disso. Hoje mesmo decido a questão da casa. Já amanhã poderemos instalar-nos. Era uma necessidade. Em toda a parte os homens de letras têm um centro onde se reúnem. Aqui, não: ou a rua do Ouvidor ou o botequim. É uma vergonha. E querem que haja solidariedade. Vamos levar isso a efeito: é uma idéia que nos pode trazer magníficos resultados. Atirou a mão espalmada à coxa do companheiro: Seu Anselmo, nós somos uma potência. Se nos uníssemos, se não andássemos em eterno sismo provocado pela vaidade, porque cada qual se julga o maior, o pontífice das letras, já teríamos feito alguma coisa, entanto não valemos nada. Uma das causas da decadência literária, talvez a principal, é esta maldita rua do Ouvidor. Vocês mal saem do banho frio, ainda molhados, engolem, às pressas, a xícara de café e correm para aqui e aqui passam os dias bebericando, elogiando-se, discutindo sonetos e crônicas ou farejando cocottes. Que diabo! Não é assim que se faz um artista... Trabalhem, dêem algumas horas ao livro, façam alguma coisa a sério, deixem este maldito vício da rua do Ouvidor.

-- E tu?

-- Perdão, eu não sou escritor, nem me apresento como tal -- eu sou um folhetinista oral: a rua do Ouvidor é o meu rodapé. Eu faço com a palavra o que vocês fazem com a pena, com a diferença, porém, de que eu estudo e vocês espreguiçam-se, bocejam inertemente.

-- Tu estudas?

-- Não faço outra coisa. Os meus livros andam encadernados em cheviotes, em flanelas, em sedas; há alguns brochados: são os miseráveis. Cada tipo dá-me um folhetim, cada vida, a mais simples, dá-me assunto para falar uma hora. Vivo a dizer verdades. Bem sei que a minha obra é precária, mas há de ficar o benefício. Falo: a minha enxada está aqui e, espichando a língua, tocou-a com o indicador.

Levantaram-se e seguiram, caminho do hotel. Justamente Anselmo chegava à porta quando esbarrou com o Lins que entrava, com um grande charuto encravado nos dentes.

-- Que é isto! Tu aqui?!

-- Então! Onde querias que eu estivesse?

-- O Neiva disse-me, há pouco, que estavas à morte, sem fala...

-- Sem vintém é que estou, desde ontem.

-- Mas não estiveste doente?

-- Qual doente! Não tenho nada, nem ceroulas... Estou aqui sem ceroulas. É uma vergonha!

-- E com os sapatos num estado...

-- Um homem de espírito não olha para os pés, murmurou o poeta.

Anselmo levantou os olhos e desatou a rir:

-- Onde foste buscar esse chapéu, Lins?

-- Sei lá! Apareceu-me na cabeça hoje de manhã. Era um velho chapéu de palha, de grandes abas, crivado de furos. E o boêmio explicou: Creio que serviu de alvo em alguma casa de tiro. Mas assim é bom, o ar penetra livremente e, como os médicos recomendam que se deve trazer sempre a cabeça fresca, estou contente com esta peneira. O Neiva, que havia parado a conversar com um patrício, deu um salto para a calçada quando viu o poeta.

-- Tu! Donde vens? Tu és o Lins?!

-- Em carne e osso.

-- Pois não morreste?

-- Não, como vês.

-- Nem esteve doente, disse Anselmo. E tu afirmaste que o havias visitado e que ele estava sem fala.

-- É exato. Mas eu sou capaz de jurar... Eu não estive ontem em tua casa, Lins?

-- É possível; não garanto, porque lá não fui.

-- É extravagante...!

-- É macabro!

-- Pois eu ontem estive contigo, por Deus! Estavas agonizando, sem fala. Pensou: Onde jantei eu ontem, Francisco? Ah! No Daury... Então foi sonho.

-- Com certeza.

-- E tu? Que fizeste ontem?

-- Homem, para dizer a verdade, não sei. Acordei hoje às 9 da manhã em casa de uns estudantes, na rua do Núncio. Não me interrogues: sou um poço de discrição.

-- Queres jantar conosco...?

-- Vá lá. Entraram.

-- Pois olha, eu já tinha começado a recolher uns cobres para mandar rezar a missa do sétimo dia.

-- E arranjaste alguma coisa?

-- Seis mil e que...

-- Pois vamos beber essa missa e vê se tiras depois para um Te-Deum em ação de graças pelo meu restabelecimento... e bebe-se também o Te-Deum.

Sentaram-se à mesa e iam começando a jantar quando Fortúnio apareceu rindo a bandeiras despregadas.

-- Que é isso, homem?

O poeta sentou-se e contou, por entre gargalhadas, a "noite" do Duarte. Havia falecido uma das suas muitas apaixonadas -- menina loura, de olhos azuis, quinze anos, com o doce nome de Carmen. Exaltado, o Duarte, para sopitar a grande dor, atirou-se à adega paterna e, durante três dias, encafuado entre os canteiros, bebeu e chorou desesperadamente. Na noite da véspera, inconsolável, resolveu ir visitar a noiva que se finara e abalou para o cemitério de S. João Batista conseguindo penetrar no Campo Santo.

Errou muito tempo entre túmulos sem acertar com o que escondia o formoso corpo da donzela até que, por fraqueza das pernas, rolou sobre um deles abraçando-se com a cruz. E começou a soluçar, blasfemando contra Deus, pedindo a morte e, tanto fez que, nem ele mesmo sabe dizer como, arrancou a pesada cruz do sepulcro saindo com ela como uma relíquia. Tomou o bonde, mas um soldado, desconfiando do fardo, que o poeta mal sustentava nas mãos, interpelou-o:

-- Quem é o senhor?

-- Eu sou o homem mais desgraçado deste mundo, camarada.

-- Onde vai com essa cruz?

-- Vou levá-la ao Calvário... e desabou sobre a praça chorando inconsolavelmente. Diz ele que o soldado ficou comovido, mas nem por isso o deixou ir em paz: convidou-o a acompanhá-lo até à estação e lá o Artur, em pranto, contou a cena noturna: Que efetivamente penetrara no cemitério e que arrancara a cruz do túmulo da sua amada para crucificar-se quando a saudade fosse muito forte. E o caso vem hoje contado na Gazeta, sob o título Profanação e o Artur viu, com pasmo, que a cruz era do túmulo de um comendador.

-- O Convidado de pedra... É ele?

-- Anda por aí indignado.

-- E o processo?

-- Qual processo! A família meteu-se no caso. Mas é doido!

-- Inteiramente. Já jantaste?

-- Não.

-- Janta conosco.

-- Não, estou comprometido.

-- É caso de amor?

-- Não, qual amor... Não tenho tempo para essas coisas. Vou jantar com um carnavalesco que me pediu um puff.

-- Ah! Bem. Amanhã, à noite, primeira reunião do Grêmio.

-- Lá estarei. E já marcaste o dia da dissolução?

-- Como da dissolução? Então não acreditas que possamos manter um centro de palestra?

-- Não acredito.

-- Por quê?

-- Porque conheço o meio.

-- Pois há de viver.

-- Duvido muito. Nós não temos espírito de associação.

-- Mas é necessário que tenhamos.

-- Não dou dois meses ao Grêmio.

-- Uma aposta! -- bradou o Neiva dando um salto.

-- Apostemos!

-- Cem mil réis!

-- Está feito.

-- Não dura um mês?!

-- Não dura um mês, repetiu Fortúnio tranqüilamente, e, sem mais dizer, estendeu a mão aos rapazes e saiu.

A Conquista

Sinopse

A Conquista, de Coelho Neto, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 29 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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