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A Conquista

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A Conquista

Capítulo 21 · A Conquista

Capítulo XX

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Capítulo XX

No dia seguinte, às onze horas da manhã, sem almoço e sem esperança de encontrá-lo, Anselmo assumia o posto honroso de redator-chefe do Diário Ilustrado com um repórter, o Franco, e um contínuo, o Maia. O escritório era na rua da Uruguaiana, um sobrado novo, com duas janelas de frente, claro e arejado.

Anselmo, muito grave e sisudo, conferenciou com os proprietários da folha sobre o programa político que devia traçar no artigo de fundo e sobre as idéias financeiras que havia de propugnar. Quanto à política percebeu que os homens entendiam que a monarquia era o ideal, que o imperador era o único monarca decente do universo, que S. Cristóvão era a suprema corte, que a princesa era uma santa e o conde d'Eu, um sóbrio. Das idéias financeiras nada percebeu porque os homens falaram tanto em cambiais, em estoques, em avos e em outras coisas estranhas ao seu ouvido que ele saiu do gabinete tão alheio a tudo como se acabasse de conversar com dois japões. Todavia comprometeu-se, com muita gravidade, a promover a alta do café e a cimentar o trono com a lógica formidável da sua pena. Os proprietários saíram satisfeitos e Anselmo passou à sala da redação para distribuir o serviço. O Franco, de mãos nos bolsos, passeava pela sala, fumando. Anselmo chamou-o:

-- Seu Franco, o senhor tem alguma coisa?

-- Não tenho nada, disse o repórter continuando a passear. Estou fazendo horas para ir às secretarias.

-- Quem vai à polícia?

-- O moleque. O moleque era o Maia. Eu não tenho botas de sete léguas. Mande o moleque. Que custa? As notas estão prontas. Eu cá não vou.

-- Mas vai às secretarias?

-- Sim senhor, posso ir. E, à noite, aos teatros.

-- E redige as notícias?

-- Deus me livre! Não faltava mais nada! Por sessenta mil réis. Ora! Não redijo nada. Quem quiser que redija, eu não.

Anselmo exacerbou-se e, de pé, franzindo a fronte, com a espátula em punho:

-- Mas afinal: que faz o senhor?

O Franco voltou-se.

-- Que faço? Vou à secretaria do império, vou a secretaria da fazenda, vou à secretaria da justiça, vou à secretaria da guerra, vou à secretaria da marinha, vou à secretaria das obras públicas, vou à secretaria dos estrangeiros, vou à câmara municipal... ao diabo! E então? Pensa o senhor que sou de ferro? Isso não! Com o senhor Steel éramos dois, eu e o Reis; agora sou eu só para tudo... Isso não! Então paguem mais. Saio daqui estrompado para ganhar sessenta mil réis. Não está direito. Mande o moleque. Que fica ele fazendo aqui? É um vagabundo que passa os dias cochilando e chupando balas; que vá. Eu não vou, já disse, nem que me rachem.

Anselmo, mais calmo, resolveu entender-se com o Maia e chamou-o. O continuo era gago e, para dizer uma palavra, contorcia a face, escancelava a boca como em acesso epiléptico.

-- Seu Maia, você sabe ir à policia?

-- Se... e... e... i... e sim se... nho... o... o... or...

-- Não sabe outra coisa, um bêbedo como esse, rosnou o Franco.

O Maia lançou-lhe um olhar feroz.

-- Então dê um pulo até lá e veja se há alguma coisa.

-- À noite, aconselhou o Franco. É melhor que ele vá à noite, porque traz tudo de uma vez.

-- Eu vou... ô... vou sem... empre à noi... te, disse o Maia.

-- Pois então à noite. Mas não se esqueça.

-- Nã... o es... que ... e... ço nã... o... se... e... nhor.

-- Pode ir.

O Maia retirou-se e o Franco, puxando uma cadeira, repoltreou-se diante da mesa de Anselmo.

-- Então é o senhor só que vem fazer o jornal?

-- Eu só.

-- E agüenta?

-- Não sei, vou ver.

-- O senhor não agüenta. Olhe que esta folha come matéria que não é graça. A gente escreve, escreve, escreve e, quando pensa que tem muito, meu amigo, nem meia coluna. Vai ver. Sem um companheiro o senhor não faz nada.

-- Quem sabe!

-- Vai ver. Ah! Eu sei bem como se faz um jornal.

-- Também eu.

-- Pois não parece. O senhor arria... Se não chamar um companheiro não faz nada. Depois, meu amigo, quando a gente trabalha e vê cobre ainda vale a pena, mas aqui...?!

-- Não pagam? -- perguntou Anselmo sobressaltado.

-- Ora! Uma ninharia. Eu ganho sessenta mil réis: e o senhor?

-- Duzentos.

-- Não é dinheiro.

-- É pouco, concordo, mas, em todo o caso, já se vive.

-- Qual! Um homem não vive decentemente no Rio de Janeiro com menos de quinhentos mil réis. Quanto pensa o senhor que eu gasto por mês? Pensa que eu vivo com esse cobre magro que levo daqui? Pois sim... Eu regulo gastar quatrocentos a quinhentos mil réis. Ah! Faço a minha feriazinha todas as noites: vou a um bico, vou a outro e pingando aqui, pingando ali, arranjo a minha feriazinha. Se eu só contasse com o jornal estava bem aviado.

-- O senhor joga?

-- Jogo, não por vício, por necessidade: sustento minha mãe e uma irmã. Só de casa pago quarenta mil réis e, com vinte hei de dar de comer a duas pessoas e roupa e calçado e botica, mais uma coisa, mais outra? Atirou uma cusparada por entre dentes, silvando. Faço a minha feriazinha e vou arranjando a vida. Não vale à pena ser jornalista no Brasil, não vale, repetiu meneando com a cabeça desoladamente. Gosto aí de uma moça, queria casar, mas tenho lá coragem de pedir a menina com essa bagatela? Eu, não! Quando casar quero que minha mulher apareça, não há de andar como muitas que conheço, isso não. Estou aqui esperando negócio melhor. Vim para a imprensa porque pensei que isto era outra coisa, mas logo que ache um empregozinho aí numa secretaria, musco-me. Fincou os cotovelos na mesa e, com as mãos no rosto: O senhor não se dá com o ministro do império?

-- Não.

-- Mas conhece alguém que seja boa cunha para ele?

-- Não, não conheço.

-- É o diabo! Se eu arranjasse um lugarzinho de amanuense... Não digo que deixasse a imprensa, não, porque, enfim, isto é uma cachaça. Podia, de vez em quando, escrever o meu folhetim, o meu sonetozinho... mas contando com o ordenado certo no fim do mês. Deixe lá! Não há como a gente ser empregado do governo. No fim do mês o cobre está cantando e isso é que serve.

-- E o senhor escreve folhetins?

-- Não sabia?

-- Não.

-- Escrevo; e faço versos. Tenho aqui um soneto, se quer. E meteu a mão no bolso fundo do casaco.

Tirou um papelucho amarelado, abriu-o lentamente, pigarreou e leu, com grandes gestos largos:

À CONSTANÇA

Constança morena tu és a aurora
Do meu porvir magnânimo e sublime.
Se o meu verso o meu amor exprime
Eu deixo aqui o meu verso, senhora.

Ontem de tarde quando a carpidora
Pomba rola, mais débil do que o vime,
Cantava a sua balada, ai! eu senti-me
Capaz de acompanhá-la pelos campos afora.

Porque a vida é dor, loura criança
E eu choro tanto por ti que o meu peito
Já está seco assim como o Saara.

Olha para mim, ó pálida Constança!
Vê como estou por dentro todo desfeito
Diz à minha dor duma vez: Ó dor, pára!

Dobrou o papelucho e, fitando Anselmo com ar triunfante, perguntou:

-- Então, que tal?

-- E o número de sílabas? E o conceito?

-- Conceito! Para que isso?

-- Pois não é uma charada novíssima?

O Franco bufou:

-- Que charada! Trate sério. Pois eu vou lá fazer charadas à minha noiva, seu...? É um soneto e está muito bem feito. Não vejo por ai quem faça melhor. Agora, se não quer publicar é outro caso.

-- Tem uns versos quebrados.

O repórter pôs-se de pé, como afrontado e, arrancando o soneto que havia descido ao bolso profundo, repetiu, com espanto:

-- Versos quebrados... Onde?

-- Leia lá.

E o Franco com ênfase, declamou:

Constança morena tu és a aurora

-- Hum...

-- Hum como? Então este verso está quebrado? Onde está a quebradura?

Constança morena tu és a aurora

-- Vamos adiante.

Do meu porvir magnânimo e sublime

-- Voltou-se intimativo:

-- Também está quebrado?!

-- Não, mas é imbecil. Porvir magnânimo e sublime é asneira.

-- Asneira...! Ora tire o cavalo da chuva. Então eu não sei português! Asneira, porque...! Vamos ao dicionário. Ó Maia, que é do dicionário português? O Maia esticou o beiço e bateu com uma das mãos na outra. É, já foi para o sebo... Pois se houvesse aqui um dicionário eu mostrava.

Se o meu o verso o meu amor exprime

Diga que está também errado; e pôs-se a contar pelos dedos:

"S'o meu verso meu amor exprime..."

Ficou pensativo, depois disse:

-- Tem nove, falta uma. Baixou os olhos, de repente, erguendo a cabeça, exclamou: Mas espere, há um que tem onze, tira-se-lhe uma e passa-se para este e fica tudo arranjado.

-- E... disse Anselmo que já havia lançado o título do artigo de fundo, em letra caprichosa e esbelta: Caveat!

-- Vai escrever o artigo?

-- Sim, vou.

-- Então eu vou dar um giro; posso apanhar alguma noticiazinha fresca. Olhe, hoje há uma primeira. O senhor vai?

-- Vou.

-- Eu posso ir, se quiser... e faço a notícia.

-- Obrigado; eu vou.

O Franco foi debruçar-se à sacada e ficou a cantarolar. Por fim, resolvido, tomou o chapéu e saiu recitando:

Constança morena tu és a aurora
Do meu porvir magnânimo e sublime

Anselmo dedicou-se de coração ao jornal. Morava na rua Marquês de Abrantes, numa pensão nobre, em companhia do Steel, o antigo redator do Diário. Levantava-se muito cedo, tomava o seu banho e descia para a cidade, sentando-se imediatamente à mesa de trabalho. Escrevia o artigo de fundo, a Boemia, romance au jour le jour, a crônica do dia, redigia o noticiário e todas as seções; corrigia as notas que o Maia trazia da polícia e ainda passava os olhos pelas notícias do Franco, cuja ortografia era das mais complicadas. À noite estava derreado. Mas com que prazer, na manhã seguinte, abria o jornal e revia o seu trabalho, emoldurando a gravura central que ele sempre acompanhava de algumas palavras explicativas.

Os proprietários, entretanto, não pareciam satisfeitos, porque o jornal não tinha venda e era um trabalho para o agente conseguir um anúncio. O Franco, sempre a protestar contra a miséria: -"que não havia talento possível com aquela pingadeira", aparecia, às vezes, à noite, resmungando, com a papelada numa confusão horrível e, acumulando as notas, monologava:

-- Qual! Quando não se está de sorte é isto... O meu número! O meu número!... Se eu tivesse feito o meu jogo tinha estourado a banca. Mas é isso, quando não se está de sorte...

Depois o diabo daquele cabula a chorar, a chorar. Detinha-se, cravava os cotovelos na mesa, e, com as faces nas mãos, ficava olhando perdidamente: Três vezes! Parece incrível! E eu no pequeno! Pedaço de burro! É bem feito. Mas qual! Quando não se está de sorte é assim mesmo. Estão aqui as notas.

-- Houve alguma coisa?

-- 0 29...

-- Foi preso? -- perguntou Anselmo julgando que ele se referia ao idiota que escandalizava a rua do Ouvidor com os seus impropérios.

Mas o Franco amuou:

-- Qual preso! Deu três vezes e eu no 8.

-- Ah! Na roleta...?

-- Sim, mas não jogo mais, nem uma ficha. A roleta é um jogo besta. Afinal qual é a ciência da roleta? Nenhuma, é só questão de sorte. Há três dias que não ganho um vintém, é só perder, perder. Vou dar com o basta!

-- Foi às secretarias?

-- Fui; pois não estão ai as notas? Não houve nada. Amanhã sim, há despacho.

-- Bom, vamos trabalhar.

-- Eu vou dar uma volta pelos teatros.

Saiu. Às dez horas o Maia ia ao Diário Oficial e à meia-noite, quando o paginador, saciado, declarava que o jornal estava pronto, Anselmo saía lentamente, tomava um copo de leite no Java e ia cochilando no bonde até a porta de casa e, às vezes, passando pelo quarto dó Steel, ouvia palavras sussurradas, risinhos, estrépitos de beijos e lembrava-se de Amélia com voluptuosa saudade, mas tanto que repousava a cabeça no travesseiro adormecia pesadamente como um cavador.

Apesar de todos os esforços, o jornal não lograva impor-se ao favor público e, quinze dias depois de haver Anselmo assumido á redação, os proprietários, vendo que o café continuava a baixar, zombando dos artigos violentíssimos do redator-chefe, resolveram "suspender a cesta", como disse, com muito pitoresco e muita resignação, o Franco, quando recebeu o saldo.

Voltaram os dias difíceis. Forçado a abandonar a casa da rua Marquês de Abrantes, onde se achava tão confortavelmente instalado e podendo dispor do magnífico guarda-roupa do Steel, que era janota e franco posto que, algumas vezes, franzisse o nariz encontrando na rua do Ouvidor as suas calças cobrindo as pernas magras do companheiro, Anselmo partiu à aventura como o moço Perceval, não à conquista do santíssimo cálice, mas em busca de um teto e de uma sopa que o resguardasse da intempérie e lhe saciasse a fome.

A boemia parecia haver emigrado -- só o Neiva e o Lins apareciam. Ruy Vaz anunciava um romance. Havia também abandonado, não por gosto, o palacete das Laranjeiras, o amorável e penseroso arvoredo e os jantares pantagruélicos e vivia num sótão modesto com a sua musa e um cachimbo. Fortúnio também andava afastado. Bivar, com idéias científicas, ia, de quando em quando, dar uma vista de olhos ao anfiteatro e compunha poemetos. O Duarte, sempre apaixonado, contava a toda gente os seus infortúnios. O Moraes e o Artur laboravam. A Vida Moderna, em luta aberta com a Semana, saía aos sábados, tremenda, com a sua gravura pantafaçuda e os formidáveis artigos do poeta da Tarântula.

Estava travada a batalha, e, uma tarde, como se encontrassem dois grupos num botequim, correu copiosamente o caldo de cana que foi o hidromel do festim espiritual, e, diante dos burgueses aterrados, poetas de um e do outro partido recitaram, como em Wartburgo quando os bardos, tendo à frente o grande Wolfran, empenharam-se na grande luta lírica.

O Moraes, assomado, lembrava aos do seu bando o que deviam recitar e Fortúnio, com uma voz branda, disse uns versos repassados de melancolia, o Alberto respondeu-lhe com um soneto admirável. Moraes ergueu-se e os alexandrinos fortes da Guerra atroaram com o fragor de catapultas. Outro poeta bucólico veio trazendo por uma rechã, ao romper do dia, um carro de bois rangendo aos solavancos e Anselmo frenético, com os olhos despedindo raios, arregaçando as mangas do casaco, despejou sobre a mesa a sua cornucópia helênica e, de mistura com pastores que sopravam syrinx, saíram hoplitas e deuses, hetéros e pallakai, filósofos e poetas, Eschylo às voltas com Aristeu, Menandro de braço com a lúbrica Lycenion, Laís e Minerva, as bacantes e as coéforas, as eumenides e as tesmofórias e às cinco e meia da tarde, encharcados de caldo de cana, abalaram triunfalmente os daquele Parnaso onde havia um moinho de café e um homenzinho, corcunda como Thersito, que apregoava bilhetes de loteria.

A vitória ficou indecisa, mas o Moraes, querendo dar uma batalha decisiva, no número seguinte da Vida Moderna, atirou-se, com a fúria de um Ajax, sobre um dos grandes poetas do outro lado e desancou-o.

A resposta seria violenta se houvesse saído, mas o jornal contrário apareceu calmo, sem referir-se à questão, e os da Vida Moderna entoaram o péan da vitória.

A Conquista

Sinopse

A Conquista, de Coelho Neto, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 29 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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