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Alma Inquieta

Universo da obra

Alma Inquieta

Capítulo 9 · Alma Inquieta

Noturno

9 de 41 ≈ 3 min de leitura

Já toda a terra adormece.

Sai um soluço da flor.

Rompe de tudo um rumor,

Leve como o de uma prece.

A tarde cai. Misterioso,

Geme entre os ramos o vento.

E há por todo o firmamento

Um anseio doloroso.

Áureo turíbulo imenso,

O ocaso em púrpuras arde,

E para a oração da tarde

Desfaz-se em rolos de incenso.

Moribundos e suaves,

O vento na asa conduz

O último raio da luz

E o último canto das aves.

E Deus, na altura infinita,

Abre a mão profunda e calma,

Em cuja profunda palma

Todo o Universo palpita.

Mas um barulho se eleva...

E , no páramo celeste,

A horda dos astros investe

Contra a muralha da treva.

As estrelas, salmodiando

O Peã sacro, a voar,

Enchem de cânticos o ar...

E vão passando... passando...

Agora, maior tristeza,

Silêncio agora mais fundo;

Dorme, num sono profundo,

Sem sonhos, a natureza.

A flor-da-noite abre o cálix...

E, soltos, os pirilampos

Cobrem a face dos campos,

Enchem o seio dos vales:

Trêfegos e alvoroçados,

Saltam, fantásticos Djins,

De entre as moitas de jasmins,

De entre os rosais perfumados.

Um deles pela janela

Entre no teu aposento,

E pára, plácido e atento,

Vendo-te, pálida e bela.

Chega ao teu cabelo fino,

Mete-se nele: e fulgura,

E arde nessa noite escura,

Como um astro pequenino.

E fica. Os outros lá fora

Deliram. Dormes... Feliz,

Não ouves o que ele diz,

Não ouves como ele chora...

Diz ele: "O poeta encerra

Uma noite, em si, mais triste

Que essa que, quando dormiste,

Velava a face da terra...

Os outros saem do meio

Das moitas cheias de flores:

Mas eu saí de entre as dores

Que ele tem dentro do seio.

Os outros a toda parte

Levam o vivo clarão,

E eu vim do seu coração

Só para ver-te e beijar-te.

Mandou-me sua alma louca,

Que a dor da ausência consome,

Saber se em sonho o seu nome

Brilha agora em tua boca!

Mandou-me ficar suspenso

Sobre o teu peito deserto,

Por contemplar de mais perto

Todo esse deserto imenso!"

Isso diz o pirilampo...

Anda lá fora um rumor

De asas rufladas... A flor

Desperta, desperta o campo...

Todos os outros, prevendo

Que vinha o dia, partiram,

Todos os outros fugiram...

Só ele fica gemendo.

Fica, ansioso e sozinho,

Sobre o teu sono pairando...

E apenas, a luz fechando,

Volve de novo ao seu ninho,

Quando vê, inda não farto

De te ver e de te amar,

Que o sol descerras do olhar,

E o dia nasce em teu quarto...

Alma Inquieta

Sinopse

Alma Inquieta, de Olavo Bilac, é uma coletânea poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 41 poemas com fonte pública validável na Literatura Brasileira UFSC, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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