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Alma Inquieta

Universo da obra

Alma Inquieta

Capítulo 30 · Alma Inquieta

A um violinista

30 de 41 ≈ 5 min de leitura

I

Quando do teu violino, as asas entreabrindo

Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas,

Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo

Os seus cofres de pérolas,

-- Minhas crenças de amor, esquecidas em calma

No fundo da memória, ouvindo-as recebiam

Novo alento, e outra vez do oceano de minh’alma,

Arquipélago verde, à tona apareciam.

E eu via rutilar o meu amor perdido,

Belo, de nova luz e novo encanto cheio,

E um corpo, que supunha há muito consumido,

Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.

Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista!

E minh’alma revia, alucinada e louca,

Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista,

Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.

Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto,

Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas

De um cemitério, vai achar vivas a um canto

As suas ilusões que acreditava mortas,

E ficava a pensar... como se não partir

Essa fraca madeira ao teu toque violento,

Quando com tanta febre a paixão se estorcia

Dentro do pequenino e frágil instrumento!

Porque, nesse instrumento, unidos num só peito,

Todos os corações da terra palpitavam;

E havia dentro dele, em lágrimas desfeito,

O amor universal de todos os que amavam.

Rio largo de sons, tapetado de flores,

A harmonia do céu jorrava ampla e sonora;

E, boiando e cantando, alegrias e dores

Iam corrente em fora...

A Primavera rindo esfolhava as capelas,

E entornava no chão as ânforas cheirosas:

E a canção acordava as rosas e as estrelas,

E enchia de desejo as estrelas e as rosas.

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,

E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,

E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios,

Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:

-- Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava!

O amor, caudal de fogo atropelada e acesa,

Entrava pelo sangue e pela seiva entrava,

E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!

E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio,

O teu pobre violino, o teu amor primeiro:

E inda nas cordas há, como um leve arrepio,

A última vibração do arpejo derradeiro...

Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano,

Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis,

Pairam constelações virgens do olhar humano,

Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:

-- Assim no teu violino, artista! adormecido

À espera do teu arco, em grupos vaporosos,

Dorme, como num céu que não alcança o ouvido,

Um mundo interior de sons misteriosos...

Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento!

Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa!

E ele se embeberá dos perfumes que o vento

Traz dos frescos desvãos do vale e da floresta.

Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos!

As rosas se abrirão em suas cordas rotas!

E ele derramará sobre os verdes caminhos

Da antiga melodia as esquecidas notas!

Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores...

Os astros sorrirão de amor na imensa esfera...

E a terra acordará para os novos amores

De nova primavera!

II

Porque, como Terpandro acrescentou à lira,

Para a tornar mais doce, uma corda mais pura,

Que é a corda onde a paixão desprezada suspira,

E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;

Também desse instrumento às quatro cordas de ouro

O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade,

-- Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro

Eterno e a eterna dor da corda da Saudade.

É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca,

E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga,

Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca

Do primitivo amor e da beleza antiga...

Para trás! para trás! Basta um simples arpejo,

Basta uma nota só... Todo o espaço estremece:

E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo

Quase morta de dor, Madalena aparece...

Ao luar de Verona, a amorosa cabeça

De Julieta desmaia entre os braços do amante:

Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça,

E na devesa em flor a cotovia cante...

Viúva triste, que à paz do claustro pede alívio,

Para a sua viuvez, para o seu luto imenso,

Branca, sob o livor do escapulário níveo,

Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...

E na suave espiral das melodias puras,

Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes,

Mostrando ao meu amor as suas amarguras,

Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.

Canta! o rio de sons que do seio de brota

E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando,

E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota,

Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;

Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta,

Refrescando os rosais, e, em leve burburinho,

Um gracejo segreda a cada borboleta,

E segreda um queixume a cada passarinho;

Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento

Abre maternalmente o regaço das águas,

-- É o rio perfumado e azul do Esquecimento,

Onde se vão banhar todas as minhas mágoas...

Alma Inquieta

Sinopse

Alma Inquieta, de Olavo Bilac, é uma coletânea poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 41 poemas com fonte pública validável na Literatura Brasileira UFSC, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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