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Alma Inquieta

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Alma Inquieta

Capítulo 32 · Alma Inquieta

Baladas românticas

32 de 41 ≈ 4 min de leitura

I

Branca...

Vi-te pequena: ias rezando

Para a primeira comunhão:

Toda de branco, murmurando,

Na fronte o véu, rosas na mão.

Não ias só: grande era o bando...

Mas entre todas te escolhi:

Minh’alma foi te acompanhando,

A vez primeira em que te vi.

Tão branca e moça! o olhar tão brando!

Tão inocente o coração!

Toda de branco, fulgurando,

Mulher em flor! flor em botão!

Inda, ao lembrá-lo, a mágoa abrando,

Esqueço o mal que vem de ti,

E, o meu ranços estrangulando,

Bendigo o dia em que te vi!

Rosas na mão, brancas... E, quando

Te vi passar, branca visão,

Vi, com espanto, palpitando

Dentro de mim, esta paixão...

O coração pus ao teu mando...

E, porque escrevo me rendi,

Ando gemendo, aos gritos ando,

-- Porque te amei! porque te vi!

Depois fugiste... E, inda te amando,

Nem te odiei, nem te esqueci:

-- Toda de branco... Ias rezando...

Maldito o dia em que te vi!

II

Azul...

Lembra-te bem! Azul-celeste

Era essa alcova em que amei.

O último beijo que me deste

Foi nessa alcova que o tomei!

É o firmamento que a reveste

Toda de um cálido fulgor:

-- Um firmamento, em que puseste

Como uma estrela, o teu amor.

Lembras-te? Um dia me disseste:

"Tudo acabou!" E eu exclamei:

"Se vais partir, por que vieste?"

E às tuas plantas me arrastei...

Beijei a fímbria à tua veste,

Gritei de espanto, uivei de dor:

"Quem há que te ame e te requeste

Com febre igual ao meu amor?"

Por todo o mal que me fizeste,

Por todo o pranto que chorei,

-- Como uma casa em que entra a peste,

Fecha essa casa em que fui rei!

Que nada mais perdure e reste

Desse passado embriagador:

E cubra a sombra de um cipreste

A sepultura deste amor!

Desbote-a o inverno! o estio a creste!

Abale-a o vento com fragor!

-- Desabe a igreja azul-celeste

Em que oficiava o meu amor!

III

Verde...

Como era verde este caminho!

Que calmo o céu! que verde o mar!

E, entre festões, de ninho em ninho,

A Primavera a gorjear!...

Inda me exalta, como um vinho,

Esta fatal recordação!

Secou a flor, ficou o espinho...

Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,

Órfão da luz do teu olhar,

-- Verde também, verde-marinho,

Que eu nunca mais hei de olvidar!

Sob a camisa, alva de linho,

Ta palpitava o coração...

Ai! coração! peno e definho,

Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,

Mais pálida do que o luar!

-- Da sepultura me avizinho,

Sempre que volto a este lugar...

E digo a cada passarinho:

"Não cantes mais! que essa canção

Vem me lembrar que estou sozinho,

No exílio desta solidão!"

No teu jardim, que desalinho!

Que falta faz a tua mão!

Como inda é verde este caminho...

Mas como o afeia a solidão!

IV

Negra...

Possas chorar, arrependida,

Vendo a saudade que aqui vai!

Vê que linda, negro, da ferida

Aos borbotões o sangue cai...

Que a nossa história, assim relida,

O nosso amor, lembrado assim,

Possam fazer-te, comovida,

Inda uma vez pensar em mim!

Minh’alma pobre e desvalida,

Órfã de mãe, órfã de pai,

Na escuridão vaga perdida,

De queda em queda e de ai em ai!

E ando a buscar-te. E a minha lida

Não tem descanso, não tem fim:

Quanto mais longe andas fugida,

Mais te vejo eu perto de mim!

Louco! e que lúgubre a descida

Para a loucura que me atrai!

-- Terríveis páginas da vida,

Escuras páginas, -- cantai!

Vim, ermitão, da minha ermida,

Morto, do meu sepulcro vim,

Erguer a lápida caída

Sobre a esperança que houve em mim!

Revivo a mágoa já vivida

E as velhas lágrimas... a fim

De que chorando, arrependida,

Possas lembrar-te inda de mim!

Alma Inquieta

Sinopse

Alma Inquieta, de Olavo Bilac, é uma coletânea poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 41 poemas com fonte pública validável na Literatura Brasileira UFSC, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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