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Alma Inquieta

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Alma Inquieta

Capítulo 13 · Alma Inquieta

Noite de inverno

13 de 41 ≈ 3 min de leitura

Sonho que estás à porta...

Estás -- abro-te os braços! -- quase morta,

Quase morta de amor e de ansiedade...

De onde ouviste o meu grito, que voava,

E sobre as asas trêmulas levava

As preces da saudade?

Corro à porta... ninguém! Silêncio e treva.

Hirta, na sombra, a Solidão eleva

Os longos braços rígidos, de gelo...

E há pelo corredor ermo e comprido

O suave rumor de teu vestido,

E o perfume subtil de teu cabelo.

Ah! se agora chegasses!

Se eu sentisse bater em minhas faces

A luz celeste que teus olhos banha;

Se este quarto se enchesse de repente

Da melodia, e do clarão ardente

Que os passos te acompanha:

Beijos, presos no cárcere da boca,

Sofreando a custo toda a sede louca,

Toda a sede infinita que os devora,

-- Beijos de fogo, palpitando, cheios

De gritos, de gemidos e de anseios,

Transbordariam por teu corpo afora!...

Rio aceso, banhando

Teu corpo, cada beijo, rutilando,

Se apressaria, acachoado e grosso:

E, cascateando, em pérolas desfeito,

Subiria a colina de teu peito,

Lambendo-te o pescoço...

Estrela humana que do céu desceste!

Desterrada do céu, a luz perdeste

Dos fulvos raios, amplos e serenos;

E na pele morena e perfumada

Guardaste apenas essa cor dourada

Que é a mesma cor de Sírius e de Vênus.

Sob a chuva de fogo

De meus beijos, amor! terias logo

Todo o esplendor do brilho primitivo;

E, eternamente presa entre meus braços,

Bela, protegerias os meus passos,

-- Astro formoso e vivo!

Mas... talvez te ofendesse o meu desejo...

E, ao teu contacto gélido, meu beijo

Fosse cair por terra, desprezado...

Embora! que eu ao menos te olharia,

E, presa do respeito, ficaria

Silencioso e imóvel a teu lado.

Fitando o olhar ansioso

No teu, lendo esse livro misterioso,

Eu descortinaria a minha sorte...

Até que ouvisse, desse olhar ao fundo,

Soar, num dobre lúgubre e profundo,

A hora da minha morte!

Longe embora de mim teu pensamento,

Ouvirias aqui, louco e violento,

Bater meu coração em cada canto;

E ouvirias, como uma melopéia,

Longe embora de mim a tua idéia,

A música abafada de meu pranto.

Dormirias, querida...

E eu, guardando-te, bela e adormecida,

Orgulhoso e feliz com o meu tesouro,

Tiraria os meus versos do abandono,

E eles embalariam o teu sono,

Como uma rede de ouro.

Mas não bens! não virás! Silêncio e treva...

Hirta, na sombra, a Solidão eleva

Os longos braços rígidos de gelo;

E há, pelo corredor ermo e comprido,

O suave rumor de teu vestido

E o perfume subtil de teu cabelo...

Alma Inquieta

Sinopse

Alma Inquieta, de Olavo Bilac, é uma coletânea poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 41 poemas com fonte pública validável na Literatura Brasileira UFSC, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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